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Comportamento

Cantando forró em guarani, Deivid virou estrela dos bailes indígenas

Artista da Aldeia Te’ýikue sonha gravar DVD e ampliar público fora de Mato Grosso do Sul

Por Clayton Neves | 02/06/2026 07:42

No embalo do forró eletrônico e com letras que misturam português e guarani, o indígena guarani-kaiowá Deivid Rossati Ajala, de 24 anos, tem transformado bailes das aldeias de Mato Grosso do Sul em palco para a cultura indígena contemporânea.

Conhecido artisticamente como Deivid Forrozeiro, o cantor que mora na Aldeia Te'ýikue, em Caarapó, vem conquistando espaço com músicas autorais e apresentações que já atravessaram as fronteiras do Estado pelas redes sociais.

A relação do artista com a música começou cedo, ainda na adolescência. Ele conta que, na época, bandas de forró eletrônico faziam sucesso nas aldeias e despertaram nele a vontade de cantar. “Eu via aquelas bandas tocando e pensava que seria bom demais estar ali também”, lembra.

Sem instrumento e sem experiência, Deivid guardou o sonho por um tempo. A oportunidade surgiu quando encontrou um colega da escola que tocava teclado e os dois decidiram se apresentar juntos durante o ensino fundamental. “Eu cantava com vergonha, mas meu amigo acreditou em mim desde o começo”, conta.

As primeiras apresentações aconteceram dentro da escola e chamavam atenção dos colegas. Aos poucos, ele começou a aprender teclado, escrever músicas e ganhar confiança.

Cantando forró em guarani, Deivid virou estrela dos bailes indígenas
No comando de teclado, cantor solta a voz em shows e nas redes sociais.

Com ajuda de um tio músico, gravou as primeiras canções. Uma delas, chamada “Te Amo”, viralizou no Facebook e fez o nome de Deivid circular entre aldeias da região.

Mesmo com o reconhecimento inicial, o cantor acabou desistindo da música por alguns anos. “Eu tinha medo das pessoas não aceitarem. Muitos ainda acham que indígena não pode seguir esse caminho”, afirma.

Depois de quase cinco anos afastado, Deivid voltou a cantar em 2020, já morando em Caarapó. O incentivo veio justamente das pessoas que lembravam das músicas antigas e perguntavam por que ele tinha parado.

A retomada ganhou força quando recebeu a oportunidade de fazer um show na própria aldeia. Pouco tempo depois, conseguiu comprar o próprio teclado e passou a investir mais nas gravações.

Foi nesse período que surgiu “Tequila”, música que se tornou um divisor de águas na carreira. A canção, escrita por outro indígena da aldeia, foi apresentada a ele pela esposa. “A gente gravou de forma simples e soltou nas redes. Quando vi, as pessoas já estavam cantando junto”, relembra.

Além do ritmo dançante, Deivid também utiliza a música para fortalecer a identidade cultural dos povos guarani-kaiowá. Em várias composições, ele canta na língua materna e aborda resistência, tradição e orgulho indígena.

“Quero mostrar nossa cultura através da música. Levar nossa língua e nossa história para mais pessoas”, destaca.

Nas redes sociais, o cantor já recebeu mensagens de ouvintes do Paraguai, da Argentina e de indígenas que vivem em aldeias de diferentes estados. O alcance surpreende quem, há poucos anos, pensava em desistir da carreira. “Eu nunca imaginei que minha música chegaria tão longe”, comenta o cantor.

Hoje, Deivid percorre aldeias da região fazendo apresentações em bailes comunitários. Com o público crescendo a cada apresentação, o cantor agora planeja novos lançamentos e sonha em gravar um DVD.

Mais do que fama, ele quer abrir caminho para outros artistas indígenas. “Se eu consegui chegar até aqui, outros também podem conseguir”, finaliza.

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