ACOMPANHE-NOS    
AGOSTO, DOMINGO  01    CAMPO GRANDE 26º

Comportamento

Célio deixou para trás gogó afinado e paixão por Milionário e José Rico

Foi em Rio Brilhante que formou família e teve a música como sua aliada até se tornar vítima em acidente fatal

Por Raul Delvizio | 28/03/2021 08:15
Célio era o músico no município de Brilhante apaixonado por Milionário e José Rico (Foto: Arquivo Pessoal)
Célio era o músico no município de Brilhante apaixonado por Milionário e José Rico (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi na alegria e humildade que Célio Silva, 51 anos, viveu até o último momento sua vida no município de Rio Brilhante, distante a 160 quilômetros da Capital. Músico "raiz", tinha gogó afinado para o chamamé e a "sofrência" típica do sertanejo. Idolatrava Milionário e José Rico, mas nunca teve o sonho de se tornar um – muito menos o outro. Era um cara simples. E não havia trabalho que o envergonhasse. Sem shows devido a pandemia de covid-19, o músico profissional se virava como pedreiro e assim sobrevivia para tomar sua cervejinha (sem álcool!) e tocar uma moda de viola ao final do dia.

Mas ao invés de um vírus terrível também ceifar sua vida – como já o fez com tantas vidas –, precisou Célio se tornar uma das vítimas fatais em um acidente no início do mês, quando uma carreta e três caminhonetes colidiram à noite na proximidade do município de Prudêncio Thomaz, na BR-163. Foi assim, de forma abrupta, que esse bataiporãense terminou com seu show da vida.

Na cidade, cantou, tocou, dançou, trabalhou... e ainda formou casa e família (Foto: Arquivo Pessoal)
Na cidade, cantou, tocou, dançou, trabalhou... e ainda formou casa e família (Foto: Arquivo Pessoal)

Acredite em Deus, que o mundo ainda não está perdido. Se existe amor e compreensão, porque sofrer?"

"Meu pai sempre encerrava seus shows dizendo isso. Era de praxe. Só quem já o ouviu cantar sabe o quanto ele depositava alegria no que fazia. Não sei nem explicar, parece que vinha da alma. Não tinha uma pessoa que não admirasse ele no palco. Até porque ele era muito parceiro e brincalhão, deixando até que seus fãs escolherem o repertório na hora", conta o filho Marcelo Inácio Oliveira da Silva, 29 anos.

Nascido em Batayporã, foi ainda criança que Célio começou sua vida na música. Participando de festivais, aos 8 anos de idade veio seu primeiro troféu. "E nisso já sabia cantar e tocar violão", diz o filho.

Filho conta que o pai tinha um talento natural e uma simplicidade para a música "raiz" (Foto: Arquivo Pessoal)
Filho conta que o pai tinha um talento natural e uma simplicidade para a música "raiz" (Foto: Arquivo Pessoal)

Tempo se passou, mas o pai nunca desistiu da música – e nem dela do sertanejo. Morou em Olímpia, no interior do estado de São Paulo, onde trabalhava em uma plantação de laranja, mas acabou voltando à MS pouco tempo depois, primeiro para Prudêncio Thomaz para, em seguida, fazer forma casa e família em Rio Brilhante.

"Ele sempre teve sua banda Essência Regional, onde trabalhava com seus grandes amigos e parceiros de música. De lá, surgiram as duplas Wanderley e Célio Silva e depois Célio Silva e Henrique Moraes. Mais recentemente, meu pai estava em carreira solo, mas sem nunca parar as atividades do grupo", garante Marcelo.

Marcelo e seu "velho", agora na saudade que a falta do pai faz na vida da família (Foto: Arquivo Pessoal)
Marcelo e seu "velho", agora na saudade que a falta do pai faz na vida da família (Foto: Arquivo Pessoal)

Nesse meio tempo, gravou 4 discos. "Estava tudo certo para o 5º juntamente a um DVD, porém veio a pandemia e os planos ficaram em segundo plano", diz o filho. "Com a covid, ele parou com tudo que era show e foi trabalhar como pedreiro para pagar as contas. No momento, estava fazendo a obra na casa de um grande amigo dele. Meu pai sempre se virou, nunca ficou parado e dava seu jeito de sustentar sua família de forma digna", esclarece.

Tanto é que a comunidade rio-brilhantense recebeu com bastante tristeza a notícia da morte de Célio. "Na sua forma simples de ser porém carismática, sempre com um sorriso no rosto e cumprimentando todo mundo na rua, Célio representava a nossa cidade. Até parecia político, porém era seu jeitão. Uma pessoa que valia a pena se espelhar", elogia Marcelo.

Célio em mais uma de suas apresentações, onde embalava o público do sertanejo e chamamé (Foto: Arquivo Pessoal)
Célio em mais uma de suas apresentações, onde embalava o público do sertanejo e chamamé (Foto: Arquivo Pessoal)

Na música, o pai rodou os quatro cantos do Brasil cantando em tudo que era baile carapé, show, casamento, aniversário… "isso sem falar da 'velha moagem' das rodas sertanejas", descreve. Antes da covid, Célio até havia alugado um salão na entrada de Rio Brilhante onde abriu um clube regional. Era lá a sua "batcaverna", porém à disposição de quem quisesse aparecer. "Na Chácara Bambu, como se chamava o tal 'clube', promovia festas e bailões, deixando a casa sempre cheia".

Claro que nem só de música vive o homem. Célio também adorava mato. No seu sítio, aprontava uma pescaria sempre que podia. "Uma vez tascou na vara uma sucuri de 9 metros! Graças a deus que escapou e virou história", recorda o filho. Bom de garfo, o pai não era reclamar quando o assunto fosse comida – o que tivesse já estava bom. "Mas ele era apaixonado mesmo por uma boa carne assada. Fazia seu churrasquinho tomando sua cervejinha sem álcool porque ele não era de beber", assegura Marcelo.

Músico profissional também gostava de ficar um tempo no mato e de curtir uma boa pescaria (Foto: Arquivo Pessoal)
Músico profissional também gostava de ficar um tempo no mato e de curtir uma boa pescaria (Foto: Arquivo Pessoal)

Na paixão e na carreira de sertanejo, Célio não se tornou "Milionário" muito menos "Rico". Desses artistas, chegava a arrepiar suas interpretações de "A Carta" e "Sonho de um Caminhoneiro", confirma o filho. Agora que o pai se foi, fica o gogó afinado e o sorriso no rosto guardados no peito.

"Não só nós da família, mas todos os amigos e fãs que estão cada dia a lembrar dele. Nossa… só quem já viu e ouviu meu pai cantando sabe a emoção vivida no momento. Convivi muito com ele profissionalmente, até porque sempre o ajudei enquanto técnico de som nos seus shows. Mas ele não era só um paizão… era um amigo pra toda hora", encerra Marcelo.

Célio deixa para trás a esposa Regina, com quem manteve 26 anos de união, além de 4 filhos e 7 netos.

Curta o Lado B no Facebook e no Instagram. Tem uma pauta bacana para sugerir? Mande pelas redes sociais, e-mail: ladob@news.com.br ou no Direto das Ruas através do WhatsApp do Campo Grande News (67) 99669-9563.

Com seu falecimento, Célio deixa para trás esposa, 4 filhos e um total de 7 netos (Foto: Arquivo Pessoal)
Com seu falecimento, Célio deixa para trás esposa, 4 filhos e um total de 7 netos (Foto: Arquivo Pessoal)
Nos siga no Google Notícias
Regras de comentário