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Comportamento

Cercado de brasileiros, haitiano aposta R$ 250 contra Brasil na próxima partida

Ele ganhou até figurinha personalizada dos colegas para torcer pela primeira Copa longe de casa

Por Bruna Marques | 14/06/2026 09:15
Cercado de brasileiros, haitiano aposta R$ 250 contra Brasil na próxima partida
Evens Aurelien, haitiano que vive em Campo Grande há cinco anos, usa a camisa do Haiti e exibe a figurinha personalizada feita pelos colegas da Pão e Tal (Foto: Bruna Marques)

Com a camisa do Haiti no corpo e a figurinha personalizada no crachá, Evens Aurelien, de 31 anos, virou personagem de Copa dentro da padaria onde trabalha em Campo Grande. A brincadeira começou no grupo da equipe da Pão e Tal, quando os funcionários enviaram fotos para uma ação interna sobre o Mundial. A montagem dele veio com as cores do Haiti, respeitando a seleção do coração. Mais do que isso: veio com a camisa 9, número usado por Duckens Nazon, ídolo de Evens na seleção haitiana que enfrenta o Brasil na próxima sexta-feira.

RESUMO

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Evens Aurelien, 31 anos, haitiano que trabalha em uma padaria em Campo Grande, virou símbolo da Copa do Mundo ao receber uma figurinha personalizada com as cores do Haiti. No Brasil há oito anos, ele trabalha dois empregos e torce pelo Haiti no jogo contra o Brasil no dia 19. Seu primo Josué, também funcionário da padaria, tenta trazer a filha de 12 anos do Haiti, mas esbarra nos custos de cerca de R$ 9,5 mil para a viagem.

A figurinha poderia ser só uma cena simpática de Copa. Mas, no caso de Evens, ela abre uma história maior, de migração, trabalho, família longe e pertencimento. Ele está no Brasil há oito anos e em Campo Grande há cinco. Antes de chegar à Capital, passou por Pato Branco (PR). Antes disso, viveu sete meses no Chile com o primo, Josué Sterling.

“Eu estava no Chile, não gostei porque é muito frio e vim para cá”, lembra.

Campo Grande entrou na rota de Evens também pelo clima. Depois da passagem pelo Chile, onde o frio pesou na adaptação, ele encontrou na Capital uma temperatura mais próxima da que conhecia no Haiti.

“Eu estava no Chile, não gostei porque é muito frio e vim para cá”, lembra. Para ele, o calor ajudou a cidade a parecer menos distante de casa. “Escolhi Campo Grande por ser mais legal e por ter clima parecido com o do Haiti.”

Na Capital, a vida foi sendo montada aos poucos, quase sempre de acordo com o trabalho e o preço do aluguel. Hoje, Evens mora na Vila Planalto, mas já passou pelo Centro, Vila Nasser, Rita Vieira e Itamaracá. “A gente procura serviço e, dependendo da região, procura aluguel mais perto para não pesar a rotina”.

A rotina pesa mesmo assim. De manhã, ele trabalha como atendente na Pão e Tal da Rua Euclides da Cunha, no Jardim dos Estados, das 6h às 14h. Depois, segue para o segundo emprego, na Fazenda Churrascada, no Jardim Veraneio, onde trabalha das 15h30 às 23h.

Mesmo com a correria, Evens fala da Pão e Tal com gratidão. Diz que já passou por vários lugares, mas ali encontrou acolhimento.

Cercado de brasileiros, haitiano aposta R$ 250 contra Brasil na próxima partida
Entre os colegas Juliellison e Miguel, vestidos com a camisa do Brasil, Evens mantém a torcida pelo Haiti para o confronto entre as duas seleções na Copa (Foto: Bruna Marques)

“É uma empresa que gosto muito. Aqui eles valorizam nosso trabalho. São muito queridos, ajudam quando precisam. Sempre assumi responsabilidade. Sei que, para ficar em um emprego, tem que se dedicar, fazer de coração, dar o meu melhor”.

A Copa reacendeu nele uma torcida que estava guardada. No Haiti, a família sempre teve carinho pelo futebol brasileiro. Quando a seleção haitiana não estava no Mundial, o caminho era torcer pelo Brasil.

“No Haiti, minha família toda torce para o Brasil na Copa do Mundo. A gente gosta muito daqui lá. Brasil e Argentina a gente torce, mas mais é Brasil.”

Na próxima sexta-feira, dia 19, essa relação vai para o campo em lados opostos: o segundo jogo do Brasil na Copa será justamente contra o Haiti. Com as duas seleções no mesmo caminho, Evens não titubeia. “Vou torcer para o Haiti 100%”.

A confiança é tanta que ele diz ter feito uma aposta de R$ 250 com um colega do outro emprego. Placar? Haiti 2 a 1. “No futebol não tem time fraco. Também confio no meu time”.

O jogador que alimenta essa confiança é Duckens Nazon, atacante da seleção haitiana. “Ele não quer fazer nome dele. É um jogador que faz o nome do Haiti. Não joga por estrelismo, joga pelo país”.

Para Evens, vestir a camisa haitiana em Campo Grande é também uma forma de dizer quem é. Ele conta que há poucos haitianos na cidade hoje e que os amigos brincam dizendo que ele já parece mais brasileiro do que haitiano. Ele ri, mas não abre mão da origem. “Eu sou feliz em dizer que sou haitiano. Para mim, ser haitiano é felicidade”.

Cercado de brasileiros, haitiano aposta R$ 250 contra Brasil na próxima partida
Josué mostra o documento da filha, Nayou, que já tem visto para vir ao Brasil. Segundo ele, falta reunir dinheiro para custear a viagem (Foto: Bruna Marques)

Raízes longe - A saída do Haiti, segundo ele, não aconteceu exatamente em busca de uma vida melhor. O pai estava no Chile e o chamou. Evens foi. Depois, conversou com a mãe, figura central na vida dele.

“Minha mãe é tudo para mim. Às vezes fico sem falar com ela até um mês e não me sinto bem. Meu maior presente que Deus me deu é minha mãe. Às vezes a correria da vida e o fuso horário atrapalham a gente de conversar”.

Ele é o mais velho de oito irmãos. Sete ficaram no Haiti, entre eles a irmã mais nova, a única menina. Um irmão mora nos Estados Unidos. Evens já tentou trazer parte da família para o Brasil, mas esbarra no custo e na burocracia.

“Já tentei trazer meus irmãos, até agora não deu certo, mas eu quero. O problema é achar uma pessoa que consiga ajudar. Eu posso pagar, mas, por exemplo, documentos, para sair de lá e vir para cá precisa de visto, e o processo demora muito”.

A trajetória de Evens se cruza com a de Josué Sterling, de 41 anos, primo dele e também atendente da Pão e Tal, na unidade da Rua Bahia. Josué trabalha na empresa desde 2019 e está em Campo Grande há oito anos. Antes de vir para a Capital, também morou no Chile com o primo.

Quando chegou a Campo Grande, Josué encontrou apoio em uma rede de acolhimento. Primeiro, morou com um amigo. Depois, com ajuda de uma assistente social, passou dois meses em uma casa de apoio na região do Coronel Antonino.

“Eu não pagava nada para morar e davam comida. Aí consegui emprego, me ajudaram a fazer meus documentos. Depois consegui alugar uma casa”.

Desde então, também circulou por vários bairros, como Bandeirantes e Centro, até chegar ao Aero Rancho, onde mora há quatro meses. Hoje divide a casa com a esposa, um primo e a tia.

A esposa, Scheldat, chegou em maio. A filha do casal, Nayou, de 12 anos, ainda está no Haiti, morando com uma tia. Josué tenta trazê-la para perto dele e da mãe. “Meu sonho é trazer minha filha para perto de mim e da minha esposa. Sempre falamos com ela. Ela quer vir. O visto dela já está comigo. Só falta dinheiro”.

O custo é alto. Segundo Josué, a viagem não é feita em voo comercial comum. Ele afirma que o voo fretado encarece o processo e pode chegar a cerca de R$ 9,5 mil por pessoa. A ideia é que a filha venha com um irmão dele, que já tem visto, caso consigam reunir o dinheiro.

A saudade, para Josué, é a parte mais difícil da migração. “O mais difícil é estar longe da família”.

Assim como Evens, ele vê Campo Grande como uma cidade mais próxima da realidade haitiana, especialmente pelo calor. “Aqui no Brasil, em Campo Grande, a cultura é parecida com a nossa. Quando cheguei aqui, achei que estava no Haiti. O clima quente”.

Cercado de brasileiros, haitiano aposta R$ 250 contra Brasil na próxima partida
Josué Sterling, primo de Evens, trabalha na Pão e Tal desde 2019 (Foto: Bruna Marques)

Josué trabalha em restaurantes desde que chegou à Capital e já atuou como pizzaiolo. Ele diz que, no Haiti, a economia dificulta o acesso ao emprego. Aqui, encontrou mais possibilidades.

“Lá no Haiti, a economia é ruim. É difícil achar emprego. Aqui encontrei mais oportunidades. Aqui eu consigo sobreviver”.

Quando chegou, lembra, havia mais haitianos em Campo Grande. Hoje, segundo ele, muitos foram embora para os Estados Unidos.

A percepção de Josué conversa com um movimento que Mato Grosso do Sul conhece há mais de uma década. A presença haitiana no Estado ganhou força após 2010 e passou a aparecer com mais intensidade em Campo Grande nos anos seguintes, ligada a redes de apoio, busca por trabalho, moradia e circulação por diferentes cidades brasileiras. Parte desses migrantes encontrou vaga em serviços, restaurantes, obras e também em setores como frigoríficos, enquanto outros seguiram viagem para novos destinos.

No caso de Evens e Josué, a migração não é uma linha reta. Passa pelo Haiti, pelo Chile, pelo Paraná, por vários bairros de Campo Grande e pela tentativa de trazer familiares aos poucos. Um abre caminho, outro chega depois. Um consegue emprego, outro encontra casa. A família vai se reorganizando como pode, entre documentos, fuso horário, saudade e salário contado.

Copa trouxe a torcida de volta para casa - A Copa entra nessa história como símbolo. O Haiti tem uma participação curta, mas marcante, no Mundial. A seleção disputou a Copa do Mundo pela primeira vez em 1974, na Alemanha Ocidental. Na estreia, enfrentou a Itália e surpreendeu ao abrir o placar com Emmanuel Sanon, gol que encerrou a longa sequência sem sofrer gols do goleiro Dino Zoff. Apesar do momento histórico, os haitianos perderam por 3 a 1 e também foram derrotados por Polônia e Argentina, encerrando a campanha ainda na fase de grupos.

Agora, mais de cinco décadas depois, o Haiti volta à Copa do Mundo em 2026, disputada nos Estados Unidos, Canadá e México. É a segunda participação do país no torneio. A seleção caiu em um grupo com Brasil, Marrocos e Escócia. Para muita gente, pode parecer uma presença improvável. Para Evens, não é. “Antes eu não torcia para o Haiti na Copa porque não estavam na Copa. Por esse motivo eu escolhia o Brasil”.

Agora, a escolha mudou. Ou melhor, voltou para casa. Josué também fica dividido, mas só até certo ponto. “Eu torço para o Haiti. Se ele larga minha mão, está tudo bem. Aí torço para o Brasil. Os dois times têm meu coração”.

O palpite dele é mais cauteloso que o de Evens. Acredita em empate, talvez 1 a 1, mas também arrisca um 2 a 1 para o Haiti.

Entre o trabalho na padaria, a espera pela família e a torcida pelo Haiti, Evens e Josué seguem tentando construir em Campo Grande uma vida mais estável. A figurinha virou assunto no balcão, mas a história deles passa por trabalho, saudade e pelo esforço de manter a família por perto.

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