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Cidades

Ao lado de órgão de combate ao trabalho infantil, meninos têm "jornada" de 10h

Com autorização dos pais, garotos passam o dia vendendo doces

Por Inez Nazira | 29/07/2026 18:51
Ao lado de órgão de combate ao trabalho infantil, meninos têm "jornada" de 10h
Menino de 12 anos abordando veículo no ponto de vendas (Foto: Paulo Francis)

Enquanto muitos adolescentes aproveitam as férias escolares para descansar, dois amigos, de 12 e 14 anos, passam até dez horas por dia entre os carros em um semáforo de Campo Grande vendendo jujubas e paçocas.

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Dois adolescentes de 12 e 14 anos passam as férias escolares vendendo jujubas e paçocas em um semáforo de Campo Grande, na Avenida Afonso Pena, para ajudar nas despesas de casa. Eles trabalham cerca de 10 horas por dia e arrecadam entre R$ 300 e R$ 400 diários. Apesar das denúncias ao Conselho Tutelar, os meninos retornam ao local após alguns dias de ausência. A Prefeitura e o Ministério Público do Trabalho não responderam sobre as medidas adotadas.

A situação chama ainda mais atenção por ocorrer em frente ao MPT (Ministério Público do Trabalho), órgão que atua no combate ao trabalho infantil. O ponto fica na Avenida Afonso Pena, no cruzamento com a Avenida Arquiteto Gil Rubens de Camillo, próximo ao Shopping Campo Grande. Ali, os adolescentes permanecem sob o sol, expostos ao fluxo intenso de veículos e aos riscos do trânsito.

A rotina começa por volta das 11h e segue até as 21h, período que eles próprios reconhecem como mais perigoso. Mesmo assim, afirmam que prolongam a permanência no local para tentar aumentar as vendas. Segundo os adolescentes, as famílias autorizam a atividade. “Minha mãe deixa eu ficar aqui vendendo, mas sempre fala para eu tomar muito cuidado porque é perigoso”, relata um deles.

O retorno à escola está marcado para 3 de agosto. Durante o período letivo, porém, eles dizem que continuam vendendo doces e tentam conciliar a atividade com os estudos.

Ao lado de órgão de combate ao trabalho infantil, meninos têm "jornada" de 10h
Adolescentes enfrentam jornada de 10h de trabalho (Foto: Paulo Francis)

Os dois também relatam que o Conselho Tutelar já foi acionado por pessoas que passam pelo cruzamento. Segundo eles, após as denúncias, deixam o ponto por alguns dias, mas depois retornam. “Muita gente denuncia a gente. Hoje mesmo alguém denunciou, então provavelmente vamos ficar uns três dias sem vir para cá. Depois volta ao normal”, afirma um deles.

Os adolescentes dizem arrecadar entre R$ 300 e R$ 400 por dia. “Para nós é bastante”, afirma o garoto de 14 anos.

Um deles conta que divide o dinheiro com a mãe. “Metade fica para ela e metade para mim. Com a minha parte eu compro alguma coisa, como comida, uma camiseta, ou arrumo meu celular.”

O outro afirma que o pai guarda os valores arrecadados para a compra de uma bicicleta. “Não sei quanto já tem. Quando der, meu pai vai comigo à loja”, conta.

Ao lado de órgão de combate ao trabalho infantil, meninos têm "jornada" de 10h
Criança no meio da via com a mercadoria (jujubas) (Foto: Paulo Francis)

Apesar das abordagens relatadas, os adolescentes afirmam que nunca foram impedidos diretamente por policiais de vender os doces. Segundo eles, quando viaturas passam pelo cruzamento, costumam oferecer jujubas aos militares e recebem brincadeiras em resposta.

Outro lado – A reportagem procurou a Prefeitura de Campo Grande, por meio da SAS (Secretaria Municipal de Assistência Social), e o MPT para saber quais medidas são adotadas em casos de trabalho infantil nos semáforos da Capital, se a situação dos adolescentes já havia sido comunicada aos órgãos e quais procedimentos são realizados após as denúncias.

Até a publicação desta reportagem, nenhum dos órgãos havia respondido aos questionamentos.

Após a publicação da reportagem, o MPT-MS (Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul) informou que já mantém um procedimento para apurar casos de trabalho infantil em Campo Grande, inclusive na região onde os dois adolescentes foram encontrados vendendo doces.

O órgão afirmou que acionou instituições responsáveis pela fiscalização e que se reuniu nesta quinta-feira (30) com representantes da PM (Polícia Militar) para discutir ações de inteligência voltadas à identificação de pontos de trabalho infantil na região central. O MPT, entretanto, não informou se os dois adolescentes citados na reportagem já foram abordados ou encaminhados à rede de proteção.

Em recomendação assinada no dia 22 de julho, o MPT deu prazo de 60 dias para que a Prefeitura informe se adotará medidas para estruturar e fortalecer a política municipal de prevenção e erradicação do trabalho infantil. Entre as providências cobradas estão a elaboração de um plano municipal, a realização de busca ativa, o fortalecimento da equipe responsável pelo programa, a capacitação dos profissionais da rede e a reserva de recursos no orçamento.

O órgão também informou que realizará, no dia 13 de agosto, uma capacitação destinada à rede de proteção de Campo Grande. Segundo o MPT, eventuais responsáveis poderão ser alvo de medidas extrajudiciais e judiciais após a fiscalização e a apuração dos fatos.

(*) Matéria editada às 14h27 do dia 30 de julho para acréscimo da nota enviada pelo MPT.

Esse caso foi sugerido por leitor que enviou mensagem pelo canal Direto das Ruas.