Francisco fez gerações descobrirem que a química podia ser fascinante
Ao lado da esposa, Neusa Somera, o professor ajudou a construir o curso da UFMS

Durante quase 30 anos, quem passava pelos laboratórios da UFMS dificilmente encontrava só as fórmulas, tubos de ensaio e reações químicas. Dava de cara também com Francisco Somera, professor que ajudou a criar o curso de Química da universidade e fez da ciência um espetáculo capaz de despertar a curiosidade de milhares de estudantes.
Foi ele quem idealizou o Show da Química, projeto que, por mais de uma década, levou experiências curiosas e demonstrações científicas para crianças e adolescentes de escolas públicas e particulares. Pequenas explosões, fumaças coloridas e reações inesperadas transformavam o que muitos viam como uma disciplina difícil em motivo de encantamento.
Francisco morreu no último dia 14 de julho, aos 77 anos, mas segue na memória de gerações de alunos, muitos deles hoje professores e pesquisadores. Por isso, a filha Priscila Somera, procurou a reportagem para lembrar com carinho do pai.

E algo que ela faz questão de destacar é que a história de Francisco na UFMS nunca foi escrita no singular. Ao lado dele estava Neusa Maria Mazzaro Somera, companheira de vida e de profissão. Os dois se conheceram ainda jovens. Ela tinha cerca de 14 anos quando o viu pela primeira vez, em Tambaú (SP). Francisco era seminarista. O romance, porém, só começou anos depois, quando se reencontraram no curso de Química da USP de Ribeirão Preto. Casaram-se em janeiro de 1976 e, cinco anos mais tarde, aceitaram o desafio de ajudar a construir o recém-criado curso de Licenciatura em Química da UFMS. Era 1º de agosto de 1981.
Durante quase três décadas, ensinaram lado a lado. Enquanto Neusa ocupou diversas vezes a direção do Instituto de Química e chegou à Pró-Reitoria da universidade, Francisco encontrou uma forma própria de aproximar as pessoas da ciência.

Segundo a filha do casal, o pai mergulhou em livros, pesquisou experimentos e dedicou incontáveis horas para criar o Show da Química.
"Minha mãe disse que meu pai comprou inúmeros livros e pesquisou a fundo a literatura para criar esse projeto e deixar interessante, com muitas experiências curiosas. Realmente foi um projeto de paixão dele."
O impacto ia muito além das apresentações. Priscila cresceu vendo os pais ensinarem e, mais tarde, percebeu que boa parte dos próprios professores havia sido formada por eles. "Todos os meus professores de colégio foram alunos dos meus pais."
No velório de Francisco, essa dimensão ficou ainda mais evidente, diz a filha. Ex-alunos fizeram questão de comparecer para agradecer, relembrar histórias e contar como o casal havia influenciado suas escolhas profissionais e pessoais.
"Muitos vieram me abraçar e contar o quanto meus pais tinham sido importantes na vida deles, não só profissionalmente, mas principalmente pelo lado humano."
As lembranças não eram apenas de aulas ou experimentos. Também havia espaço para as histórias divertidas dos laboratórios, como pequenas explosões, corridas até o chuveiro de emergência e até uma aula em que uma reação química fez todos saírem do laboratório coçando a pele "tipo pó de mico".

Em casa, porém, a Química nunca ocupou mais espaço do que o afeto. Priscila lembra que cresceu cercada por conversas, curiosidade e muito carinho. Ela e os irmãos aprenderam desde cedo que o conhecimento transforma vidas, mas também que gentileza e honestidade são valores que permanecem.
"Meus pais sempre foram meu maior exemplo de integridade, dedicação e honestidade. Crescer em uma casa com dois professores foi um privilégio enorme."
No início deste ano, Francisco e Neusa comemoraram 50 anos de casamento. Ao todo, foram 53 anos construindo uma história juntos.
Agora, a filha diz que a ausência do pai é imensa, mas que o maior ensinamento dele continua presente. "Acho que a maior lição que ficou para todos nós é que realmente o que vale na vida é o amor."
É uma frase que ajuda a explicar por que tantos ex-alunos voltaram para se despedir de um professor. Francisco ensinou reações químicas, formou profissionais e criou um projeto que fez crianças descobrirem que a ciência também podia divertir. E, desde que ele partiu, a família segue repetindo as palavras de Neusa, a companheira de toda uma vida:
"Vamos em frente."
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