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Comportamento

Com avião deixado pelo pai, dentista pilota para atender ribeirinhos na Amazônia

Projeto voluntário dela e do marido vai de MS até a Amazônia e mistura solidariedade com pesca esportiva

Por Natália Olliver | 26/06/2026 06:38
Com avião deixado pelo pai, dentista pilota para atender ribeirinhos na Amazônia
Pilotando, dentista cruza 5 estados em 60 dias para atender ribeirinhos (Foto: Arquivo Pessoal)

Um avião de pequeno porte herdado do pai, já falecido, 60 dias de viagem e a missão de levar atendimento odontológico onde o acesso à saúde muitas vezes não chega. Esse é o desafio que a dentista e pilota Caroline Lima, de 43 anos, junto ao marido Rodrigo Martins, de 47, vão assumir a partir de agosto, quando partem em um avião próprio rumo a 5 estados do país, inclusive a Amazônia, para atender ribeirinhos, indígenas e a comunidade local de lugares isolados.

RESUMO

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A dentista e pilota Caroline Lima, 43 anos, e o marido Rodrigo Martins, 47, partem em agosto para uma expedição de 60 dias por 5 estados do Brasil, incluindo a Amazônia, para oferecer atendimento odontológico gratuito a ribeirinhos, indígenas e comunidades isoladas. Batizado de "Entre Rios e Céus", o projeto prevê atender cerca de 1.100 pessoas em 9 destinos e surgiu após Caroline atender um ribeirinho com dor de dente no Pantanal.

Com "consultório improvisado", o casal vai embarcar em uma aventura que começou sem querer. Além do trabalho voluntário, a viagem ainda reúne outra paixão dos dois: a pesca esportiva. O projeto foi batizado de "Entre Rios e Céus", justamente por unir as duas coisas.

Ao Lado B, Caroline explica que tudo começou de forma despretensiosa, durante uma pescaria. Um ribeirinho sentia dor de dente e ela quis ajudar. Foi aí que o marido deu a ideia e os dois bolaram tudo. Foram alguns dias de planejamento para decidirem os destinos e as datas.

Com avião deixado pelo pai, dentista pilota para atender ribeirinhos na Amazônia
Dentista fez atendimento a ribeirinho no Pantanal e projeto começou (Foto: Arquivo pessoal)
Com avião deixado pelo pai, dentista pilota para atender ribeirinhos na Amazônia

"Eu já estava com essa vontade de fazer esse voo mais de aventura, ir para a Amazônia para poder pescar. A gente foi construindo a história aos poucos. Por coincidência do destino, eu estava vindo aqui para Riozinho, no Pantanal, e tinha um ribeirinho que estava com dor de dente. Aí eu acabei trazendo os instrumentos e fiz o procedimento para tirar a dor dele"

Ela conta que o marido ficou impactado com  a cena, pelo que a extração representou na vida do ribeirinho. "Fazia dias que ele estava sofrendo. A gente acabou implementando isso dentro do propósito da viagem."

Depois do sucesso local, donos de pousadas próximas incentivaram o casal a continuar. "Foi dando certo da gente estender essa viagem para muitos outros lugares e hoje são 9 destinos em 5 estados."

Caroline vai levar assistência odontológica aos funcionários das fazendas, indígenas, ribeirinhos e comunidades próximas do Rio Teles Pires (MT), Rio São Benedito (PA), Rio Roosevelt (AM), Manicoré (AM), Manaus (AM), Rio Mutuca (AM), Barcelos (AM), Baixo Rio Branco (RR), Rio Bararati (AM), Manso (MT) e Pantanal do Paiaguás (MS).

Ao longo do percurso, eles devem atender cerca de 1.100 pessoas com procedimentos de urgência, extrações e controle de dor, além de aplicações de flúor, restaurações, atendimento infantil e orientações sobre prevenção bucal.

Com avião deixado pelo pai, dentista pilota para atender ribeirinhos na Amazônia
Com avião deixado pelo pai, dentista pilota para atender ribeirinhos na Amazônia
Caroline e Rodrigo comemoram pesca de peixes gigantes (Foto: Arquivo pessoal)

Herança do pai

A paixão pela aviação começou ainda na infância. Aos 3 ou 4 anos, na fazenda, ela já convivia de perto com os aviões da família. A ligação vem de gerações: o avô era piloto, o pai também, e ela seguiu o mesmo caminho, inclusive com o mesmo avião.

Um dos símbolos dessa história é o Skylane, conhecido na família pelo prefixo Papatang de Lima Delta. O avião foi dado pelo avô ao pai dela quando ele tirou o brevê (Crateira de habilitação para pilotos) e, desde novo, permaneceu com a família. Após a morte do pai, a aeronave acabou ficando com ela. “Hoje é o meu xodó”, resume.

Apesar de voar desde criança, ela só tirou o brevê em 2020, quando passou a poder pilotar sozinha. Desde então, faz voos com frequência, inclusive para locais remotos, principalmente em viagens de pesca com o marido.

A relação com o pai também ficou marcada por outro avião, um experimental Patriot 2011, de prefixo PU-SYL. Era com ele que ela levava o pai para Barretos para tratar o câncer. Mais do que passageiro, ele foi seu principal professor.

“Ele me ensinou muito lições que jamais vou esquecer. Meu pai foi meu maior instrutor de voo e da vida. Ele tirou o breve em 1973,  voou até dezembro de 2022. Até 40 dias antes dele falecer ele estava me treinando para voar o avião dele. Na época eu tinha o Patriot que é um avião experimental (baixo custo). E o avião dele meu avô importou dos EUA em 1973 e É um Skylane 182".

Com avião deixado pelo pai, dentista pilota para atender ribeirinhos na Amazônia
Com avião deixado pelo pai, dentista pilota para atender ribeirinhos na Amazônia
A paixão pela aviação começou aos 3 ou 4 anos; Caroline é a 3ª geração na família (Foto: Arquivo pessoal)

A história do casal não aconteceu da noite para o dia. Eles se conheceram em 2014, viveram um breve romance, seguiram caminhos diferentes, se casaram com outras pessoas e, anos depois, separados, voltaram a se encontrar no fim de 2023. O romance acontece desde março de 2024.

"Foi uma história bem engraçada. A gente se conheceu, teve um pequeno romance, não deu certo na época e cada um tocou sua vida. Anos depois nós nos reencontramos e estamos juntos novamente", conta Caroline.

Foi justamente nesse reencontro que a pesca deixou de ser apenas um hobby individual e virou programa de casal.

Rodrigo aprendeu a pescar ainda criança. "Eu comecei a pescar muito novinho com o meu pai. Eu tinha uns 4 ou 5 anos quando ele começou a me ensinar e, por volta dos 6 anos, fui pela primeira vez ao Pantanal. Desde então, a pesca sempre foi uma atividade de lazer, nunca profissional", lembra.

Com avião deixado pelo pai, dentista pilota para atender ribeirinhos na Amazônia
Pai era piloto de avião e passou amor por isso para a filha (Foto: Arquivo pessoal)

Caroline também pescava desde pequena, mas apenas em açudes e fazendas da família. A pesca em rios ganhou espaço mais recentemente e se intensificou depois que retomou o relacionamento. "Quando eu me reencontrei com o Rodrigo, a gente passou a pescar bastante. É um lazer que nós dois gostamos muito de fazer e acabou virando o nosso passeio."

Hoje, além do Pantanal sul-mato-grossense, o casal percorre rios de diferentes regiões do Brasil, praticando exclusivamente a pesca esportiva, no sistema pesque e solte.

"Quanto mais a gente vai pescando, mais vai estudando a vida do peixe. Você passa a respeitar o tempo de crescimento, as matrizes e entende a importância da preservação. Não adianta pescar de qualquer jeito e soltar. A gente cuida do peixe para que ele sobreviva e continue ali", explica Caroline.

Com avião deixado pelo pai, dentista pilota para atender ribeirinhos na Amazônia
Com avião deixado pelo pai, dentista pilota para atender ribeirinhos na Amazônia
Projeto voluntário do casal vai de MS até a Amazônia e mistura solidariedade com pesca esportiva (Foto: Arquivo pessoal)

Esse pensamento também acompanha a expedição pela Amazônia, onde a pesca será apenas uma parte da experiência. Rodrigo acumula histórias de grandes capturas. Entre elas, um pintado fisgado na Argentina e um marlin no litoral brasileiro, considerados por ele alguns dos peixes mais marcantes da vida. Mais recentemente, durante uma viagem à Amazônia, tirou da água um tucunaré-açu de 73 centímetros, tamanho considerado troféu para a espécie e para ele.

Caroline também guarda uma captura inesquecível. O maior peixe que já pescou foi um jaú de aproximadamente 45 quilos, na região de Miranda. "O guia falou que ele devia ter uns 45 quilos. Era tão grande que ficou mais largo que o barco", lembra.

Com avião deixado pelo pai, dentista pilota para atender ribeirinhos na Amazônia
Casal se conheceu em 2014 mas só começou a namorar em 2024 (Foto: Arquivo pessoal)

Apesar dos exemplares impressionantes, os dois garantem que o tamanho do peixe nem sempre é o que mais importa. "Às vezes, a emoção está em qualquer peixe. É divertido pegar um monte de peixinhos também. O importante é estar no rio e praticar a pesca esportiva com responsabilidade", diz Caroline.

Eles contam que cada etapa da expedição será registrada e compartilhada, mostrando não apenas os destinos, mas as experiências vividas, através de conteúdos publicados no Instagram e YouTube. "Nosso propósito é simples: voar, pescar, ajudar e inspirar. Finalizaremos essa expedição com gratidão a Deus por cada proteção no caminho."

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