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Comportamento

Com tanto namoro que não dura, onde é que a galera tem errado?

Jovens apontam traições e incompatibilidade; veteranos defendem respeito e disposição para superar crises

Por Clayton Neves | 12/06/2026 08:35
Com tanto namoro que não dura, onde é que a galera tem errado?
Flores para o Dia dos Namorados já movimenta o Centro da cidade. (Foto: Maya Severino)

Abandonada duas vezes pelo mesmo homem que acreditava ser o amor da sua vida, a vendedora Cristiane de Souza, de 45 anos, faz parte do grupo de pessoas que olha para a própria trajetória amorosa e conclui ter o famoso “dedo podre” por não conseguir manter um relacionamento duradouro.

Depois de quatro relacionamentos sérios, mas sem nenhum deles dar certo, ela coleciona histórias de dedicação, recomeços, traições e muita frustração por não conseguir ter um relacionamento à moda antiga, daqueles que duram a vida toda.

Ainda assim, a vendedora diz que continua acreditando que um dia o cupido pode acertar o alvo, mesmo sem saber ao certo qual a fórmula para isso. "Me acho azarada. Tenho dedo sujo. Pego a pessoa lá embaixo, ajudo, dou força, faço de tudo. Quando a vida da pessoa melhora, ela vai embora", resume.

Com tanto namoro que não dura, onde é que a galera tem errado?
Cristiane foi abandonada duas vezes pelo mesmo homem. (Foto: Maya Severino)

Segundo ela, a maior decepção veio com um relacionamento que parecia perfeito. O casal quase não brigava, conversava sobre tudo e mantinha uma convivência tranquila. Por isso, a surpresa foi ainda maior quando o companheiro decidiu ir embora sem que ela enxergasse qualquer sinal de crise.

"Eu perguntava se estava tudo bem, conversava, me dedicava totalmente. Um dia ele simplesmente falou que ia embora", detalha.

O sofrimento foi tão grande que ela acreditou que jamais conseguiria superar. Mas o destino colocou os dois frente a frente novamente. Convencida de que aquele era o grande amor da sua vida, decidiu dar uma segunda chance.

Eles reataram, passaram mais um tempo juntos, mas a história terminou de forma parecida. Cristiane lembra que o companheiro voltou para um relacionamento antigo e a deixou mais uma vez. "Depois ainda queria voltar de novo. Mas aí não. Terceira vez não", relata.

Com tanto namoro que não dura, onde é que a galera tem errado?
Leonardo se inspira nos pais, casados há 30 anos. (Foto: Maya Severino)

Antes disso, ela já havia vivido outra decepção, mas foi traída pelo homem que ajudou a criar sua filha. "Hoje em dia falta fidelidade e companheirismo. As pessoas falam muito de amor, mas não têm caráter. E caráter não se conquista. Você nasce com ele", avalia.

Aos 22 anos, Leonardo Padilha já viveu dois relacionamentos e também não conseguiu fazer os namoros durarem. Ele conta que os pais são casados há 30 anos e vê nos dois um exemplo de vida a dois, mas não consegue repetir o feito. "Eles brincam, dizem que tenho ruim para escolher relacionamento", afirma.

Na avaliação dele, existem questões que vão além dos sentimentos. "Falta paciência, compreensão e compromisso dos dois lados. O financeiro também afeta muito. Não é só amor", destaca.

Com tanto namoro que não dura, onde é que a galera tem errado?
Aos 83 anos, João é casado com a mesma mulher há mais de meio século. (Foto: Maya Severino)

Enquanto os mais jovens pulam de relacionamento em relacionamento, enquanto tentam falar em falta de fidelidade, paciência, compreensão e compatibilidade, quem construiu algo duradouro, com quatro e até cinco décadas, aponta soluções parecidas, mas com uma dose maior de persistência.

Aos 83 anos, João Ferreira Rocha está casado há 55 anos com dona Veneranda da Costa Rosa. Segundo ele, a história começou no Paraná, quando ele trabalhava com a família da futura esposa.

Ele conta que o namoro evoluiu para casamento e, ao longo das décadas, o casal construiu uma família formada por sete filhos, mais de 30 netos e cinco bisnetos.

Ao ouvir reclamações sobre relacionamentos que duram poucos meses, João acredita que muitos casais desistam cedo demais. "Hoje uma semana já largou e já pega outra pessoa", avalia.

Com tanto namoro que não dura, onde é que a galera tem errado?
Dalva é casada há 42 anos e aconselha mulheres a não aguentar abusos caladas. (Foto: Maya Severino)

O idoso afirma que nunca pensou em separação durante os 55 anos de casamento. Para ele, o segredo não está em encontrar uma pessoa perfeita, mas reconhecer que todos têm diferenças e que é preciso compreender isso e tratar o parceiro da maneira correta.

"Tem que levar a esposa com sinceridade e respeito e entender que ninguém vai ser do mesmo jeito que você. Eu passei a vida inteira com minha esposa e agora vou terminar a vida ao lado dela também", afirma.

Quando escuta pessoas reclamando da falta de companheirismo, João acredita que o problema muitas vezes começa dentro de casa. "Não pode tratar a mulher como empregada. Tem que respeitar e não pode ser folgado", aconselha.

Já Dalva Maria da Silva, de 62 anos, casada há 42 anos, acredita que a maior diferença entre os casamentos duradouros e os relacionamentos atuais está na capacidade de lidar com as imperfeições.

Com tanto namoro que não dura, onde é que a galera tem errado?
Relacionametos têm se tornado cada vez menos duradouros. (Foto: Nunes Alianças).

Ela conta que conheceu o marido ainda muito jovem e construiu ao lado dele uma família com quatro filhos, quatro netos e um bisneto. Para Dalva, o amor de longo prazo não é feito apenas de momentos felizes. "Tem que relevar muita coisa", confessa.

Ela reconhece que as mulheres de antigamente enfrentavam situações difíceis e muitas vezes permaneciam em relacionamentos por falta de alternativas. Nesse aspecto, considera positiva a independência conquistada pelas mulheres de hoje. "As mulheres não estão erradas. Hoje elas têm opção", analisa.

Ao mesmo tempo, acredita que muitos relacionamentos atuais acabam rápido porque as pessoas perderam a disposição de enfrentar os desafios naturais da convivência. "Hoje é mais o ficar. Os casamentos parecem ser faz de conta. Não levam mais a sério e é por isso que ninguém para com ninguém", finaliza.

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