Após 40 anos, cineasta devolve imagens históricas para aldeias
Projeto entrega acervo digital a indígenas para preservar memórias e fortalecer novas gerações
A câmera que durante quatro décadas registrou rituais, lutas e o cotidiano de dezenas de povos indígenas agora faz o caminho de volta. Aos 72 anos, o documentarista francês naturalizado brasileiro Vincent Carelli está dedicado a devolver às aldeias as imagens gravadas ao longo de 40 anos de convivência.
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A iniciativa, chamada Arquivo Vivo, digitaliza e entrega os registros para que as próprias comunidades, dezenas delas de Mato Grosso do Sul, tenham acesso à sua história.
Homenageado durante o Festival de Cinema Sul-Americano de Bonito, o Cinesur, Carelli explica que o material não foi feito para permanecer guardado em museus ou arquivos inacessíveis. "Trabalhei com 40 povos. Estou devolvendo esse material em digital para as novas gerações conhecerem o que foi registrado 30, 40 anos atrás", afirma.
Segundo ele, o projeto começou a partir da demanda dos próprios indígenas, que passaram a solicitar acesso às imagens produzidas ao longo das décadas. "Eles estão toda hora pedindo acesso a esses arquivos. Não é um arquivo para museu, para alguém sentar em cima. É para eles acessarem", resume.
A proposta conversa com toda a trajetória de Carelli. Em 1986, ele criou o projeto Vídeo nas Aldeias, iniciativa pioneira que começou levando equipamentos audiovisuais às comunidades indígenas e, mais tarde, passou a formar cineastas indígenas para que eles próprios produzissem seus filmes.
Hoje, o projeto é reconhecido internacionalmente por fortalecer o protagonismo indígena no audiovisual e por formar uma geração de realizadores que conquistou espaço em festivais no Brasil e no exterior.
Em conversa com o Lado B, o documentarista destacou que nunca enxergou seu trabalho como o de alguém que fala pelos povos originários. "Eu não faço sobre isso. Eu dou a ferramenta para eles fazerem a sua narrativa. Essa foi a grande virada, porque fazer sobre eles não tem autenticidade", afirmou.
Na avaliação dele, a transformação ocorrida nas últimas décadas é evidente. Se antes os povos indígenas eram praticamente invisíveis para a maior parte dos brasileiros, hoje ocupam espaço em festivais internacionais, museus e grandes eventos culturais.
"Gilberto Gil dizia uma frase que é bem verdade: “O Brasil não conhece o Brasil”. Ainda há muito a aprender sobre os povos originários.”, avalia.
Agora, Vincent está empenhado no projeto de retorno às aldeias de todo o Brasil, que já começou, inclusive, em Mato Grosso do Sul. “Este ano estou sendo homenageado em vários festivais. É muito bom encerrar uma carreira assim. Agora assisto de camarote”, afirmou.
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