Aos 58 anos, corretor toca saxofone para famílias na entrega da casa
Há dois anos na profissão, Wagner encontrou na música uma forma de celebrar a conquista de quem esperou tanto

Quem nunca pagou aluguel talvez não entenda. Mas quem já contou moedas para completar a entrada, renegociou dívida, ouviu "não" do banco mais de uma vez ou esperou meses pela aprovação de um financiamento sabe da alegria quando a chave gira na fechadura pela primeira vez na casa própria. Tem gente que chora. Tem criança que sai correndo pelos cômodos. Tem família que deita no chão da sala vazia só para acreditar que agora aquele teto é seu.
É justamente nesse momento que o corretor de imóveis Wagner Oliveira, de 58 anos, decide tocar um saxofone. Nessa profissão há dois anos, ele decidiu transformar a entrega das chaves em uma singela cerimônia. Enquanto a família entra pela primeira vez na casa própria, ele toca por alguns minutos.
A ideia nasceu da convivência diária com famílias que compram o primeiro imóvel, principalmente pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Segundo Wagner, a maioria chega carregando uma história de dificuldades que nem sempre aparece na assinatura do contrato.
"Diante desse processo da dificuldade, às vezes da pessoa não tem nem o valor da entrada, às vezes leva um tempo para a pessoa conseguir a chave. Eu vejo no rosto do semblante do cliente e vejo a ansiedade do cliente que precisa da informação. Para tocar no sentimento, olha, valeu a pena esperar."
Antes de se tornar corretor, Wagner foi bancário durante muitos anos, trabalhou com vendas de motocicletas, passou pelo comércio e administrou uma cantina por mais de uma década. O mercado imobiliário entrou em sua vida por convite de antigos colegas.
"Alguns amigos que trabalharam na concessionária entraram nesse ramo e eles me convidaram. Se eu soubesse que era tão legal, eu tinha entrado antes."
Ao mesmo tempo em que iniciava uma nova profissão, resolveu realizar outro sonho antigo. Aos 50 anos, começou a estudar música. Em dezembro de 2021, recebeu o primeiro diploma como músico e escolheu o saxofone alto como instrumento.
E foi então que ele resolveu tocar nas entregas das chaves. "É um momento único. Eu resolvi fazer desse momento o momento mais bonito da vida da pessoa e quando consegue a gente tem que comemorar."
A emoção, segundo ele, costuma ser contagiante. "O cliente fica muito satisfeito, tem casos que ele chora, se a gente não se segurar a gente acaba chorando junto."
Entre tantas entregas, uma permanece viva na memória. Wagner lembra da emoção da família de Raquel, que finalmente conseguiu entrar na casa própria depois de toda a espera. Assim que a porta foi aberta, as crianças correram pelos cômodos como se estivessem descobrindo um parque de diversões. "As crianças corriam dentro da casa numa alegria tão imensa. Abre a porta, deita no chão e rola. Aquilo foi o melhor momento."
Nem sempre, porém, a história termina na primeira tentativa. Wagner conta que há clientes que chegam com o nome negativado, sem dinheiro para a entrada ou sem condições de conseguir aprovação no financiamento. Em alguns casos, o cadastro precisa ser refeito mais de uma vez até que tudo dê certo.
Por isso, diz que seu trabalho também acontece antes da venda. Ele orienta famílias a reorganizar a vida financeira, negociar dívidas, melhorar o relacionamento com os bancos e esperar o momento certo para voltar a tentar.
"Quando o cliente tá com nome do Serasa, não tem entrada, eu dou conselhos para ele conseguir melhorar a relação dele com o banco, com as instituições financeiras, limpar o nome… eu auxilio tudo… não tenho preguiça."
Hoje, atuando como corretor autônomo, Wagner também trabalha com avaliação de imóveis e atende investidores e construtores. Ainda assim, admite que o público com quem mais gosta de trabalhar é justamente aquele que está conquistando a primeira casa.
Criado em uma família humilde e casado há mais de 20 anos, ele diz que aprendeu desde cedo que honestidade e empatia valem mais do que qualquer negócio fechado.
"Eu fui criado dentro de um princípio religioso, de boas condutas, bons ensinamentos. Minha família é uma família humilde, mas sempre foi de pessoas honestas. A gente usa muito o princípio religioso de amar o próximo", finaliza.
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