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Campo Grande, Domingo, 19 de Maio de 2019

28/04/2019 07:15

Criador do bairro Santo Amaro fugiu da guerra na Síria e faria 100 anos hoje

Mamede Assem José vendeu limão até se tornar empresário, doou terrenos para a escola Santos Dumont, levou água para e ônibus para a região

Alana Portela
O quadro com o retrato de Mamede está na casa de sua filha Leila (Foto: Kisie Ainoã)O quadro com o retrato de Mamede está na casa de sua filha Leila (Foto: Kisie Ainoã)

Recomeçar parece complicado, mas é necessário dar o primeiro passo para mudar tudo a sua volta. Foi assim que Mamede Assem José viveu e fundou o bairro Santo Amaro de Campo Grande, com a história marcada de altos e baixos. O que era apenas um ponto afastado e com muito barro, ganhou as primeiras 29 quadras, poço artesiano, ônibus e hoje se tornou um dos locais mais conhecidos da Capital. Neste domingo (28), criador completaria 100 anos de vida, porém quem ganha o presente é a população.

“Ninguém nunca reconheceu o que ele fez, era empresário da construção, visionário. Tinha uma imobiliária, fundou o Santo Amaro, fez 29 quadras e deu nome para as ruas. Furou o primeiro poço, com canos que importou da Alemanha. Doou terrenos”, conta a filha de Mamede Assem, a advogada Leila Mamede José.

Mamede chegou em Campo Grande aos 11 anos de idade, em 1930. Veio com seus pais, Assem José e Watfi Haidar que fugiram da guerra na Síria em busca de uma vida melhor. Na Capital, ainda criança passou a vender limão, para ajudar na renda de casa, enquanto seu pai trabalhava de engraxate. As coisas não eram fáceis, até que cinco anos depois a família ganhou na loteria e o cenário mudou.

“Em vez de voltar pra terra deles, com todo o dinheiro que ganharam, resolveram comprar a melhor casa que tinha aqui na época”, recorda Leila. Seu avô, Assem escolheu uma residência que ficava na rua Candido Mariano, onde hoje é o atual Banco Bradesco, em frente à loja Americanas. “Lá que nasci e onde ele viveu até 1964. Depois vendeu a propriedade para o banco e passou a morar o Edifício Palácio do Comércio”, conta.

Santo Amaro é um dos mais mais conhecidos de Campo Grande (Henrique Kawaminami)Santo Amaro é um dos mais mais conhecidos de Campo Grande (Henrique Kawaminami)

“Meu avô mandou importar um carro Lincoln dos Estados Unidos. O papai começou a mexer por algum tempo com atacado de secos e molhados, era o mais forte da época. Trabalhava com compra e venda de sacos de arroz, milho, feijão”, lembra Leila. Neste período, as mercadorias de Mamede, eram transportadas pela estrada de ferro Noroeste Brasil, que passava por Mato Grosso do Sul. “Depois cansou disso e quis abranger outros setores. Foi onde comprou a área do Santo Amaro e pagou alguém para fazer o loteamento, após passou a vender”, conta a filha.

Emocionada ao tocar no nome de seu pai, Leila fala como foi construção do bairro, em 1959 e revela que os nomes das ruas têm relação com o país de origem de Mamede. “Tem Árabia, Jerusalém, Israel, Síria, Líbano e as outras que cortavam eram nomes das cidades de Mato Grosso, Cuiabá, Rondonólpolis. Muitas já mudaram de nomeação, porém, estou tentando em colocar o nome do meu pai em uma delas”, disse.

Após construir os loteamentos no Santo Amaro, Mamedes quis facilitar as vendas dos terrenos. Então, comprou um ônibus circular e contratou um motorista para prestar serviços. “Tudo barro, me lembro que as ruas eram totalmente intransitáveis em época de chuva. Foi uma aventura levar os filhos e ir no local porque era bairro distante, mas vendeu tudo rápido”, falou.

“O ônibus funcionou por uns três, quatro anos. Levava as pessoas interessadas do centro comprar os terrenos na região. Ele também deu nome da Avenida Aeroporto que era perto do cemitério Santo Amaro, onde agora é a Praça do Papa. Gostaria que fosse o nome dele, tenho abaixo-assinado”, conta.

Leila é filha de Mamede e diz que o pai completaria 100 anos hoje (Foto: Kisie Ainoã)Leila é filha de Mamede e diz que o pai completaria 100 anos hoje (Foto: Kisie Ainoã)

Construção - Leila relata que seu pai havia estudado até o quarto ano do primário, mas falava e escrevia em português. “Escrevia e lia perfeitamente a nossa língua, gostava de viajar. Queria que a gente viajasse, dizia que depois da escola seria, livros em casa e viagens que faria ter cultura. Um homem à frente do tempo dele”.

Além dos loteamentos, Mamede fez doações para a construção da primeira escola do bairro Santo Amaro. “Foi ele quem doou o terreno e os tijolos para a Escola Santos Dumont, deixou esse nome porque admirava Santos Dumont e o que ele fazia”, explica Leila.

“Depois continuou com outros 300 hectares mais na frente, onde hoje é o Zé Pereira e Ana Maria do Couto. Tem um clube com umas piscinas lá, aquilo era o Country Club também feito por papai. Tudo ali era nosso, doou um pedaço para o Escoteiro Mirim. Aí ficou o clube de seis hectares, que foi vendido em 2014. Agora vai sair um conjunto de edifícios pequenos da Minha Casa Minha Vida”, disse.

Entre as lembranças, Leila fala com entusiasmo do Country Club. “Era uma chácara tinha 390 hectares, foi o local mais famoso da cidade. Reunia no campo de futebol os filhos de árabes contra os filhos da terra. Era o pessoal da família Trad, Stephanini. A empolgação do papai era tanto que trouxe o Nilton Santos, que era ícone do futebol. Nesse espaço, a preocupação dos jovens era só o esporte”, conta.

A filha recorda que Mamede tinha uma vida social intensa, gostava de realizar festas no Country Club. “Naquele tempo não tinha universidade aqui, o pessoal estudava fora, mas retornavam nas férias. Papai preparava atrações no clube para receber as pessoas. Se dava bem com todos e tinha jovens que faziam serenata para ele. Era amigo da juventude”.

O Country Club criado por Mamede hoje está desativado (Foto: Kisie Ainoã)O Country Club criado por Mamede hoje está desativado (Foto: Kisie Ainoã)

Amor pela terra - Segundo Leila, Mamede investiu em Campo Grande porque era terra que o acolheu. Faleceu em julho de 1981, em seu antigo escritório, na rua 14 de julho em frente a Praça Ary Coelho. “Teve um ataque fulminante, no dia estava demorando muito para chegar em casa que foram atrás e encontraram ele sentado na cadeira, sem vida”, lembra.

Os olhos da advogada, enchem de lágrimas ao comentar sobre o que pai ainda representa em sua vida. “Tudo que sou, o que passo para os meus filhos, foi dele que veio. Os ensinos, família em primeiro lugar, estudos e sempre pensando no bem no próximo. Morreu com a vontade de fazer uma casa para abrigas umas crianças. Meu pai cuidava muito de asilos”, disse.

O porta-canetas que o empresário usava (Foto: Kisie Ainoã)O porta-canetas que o empresário usava (Foto: Kisie Ainoã)
A mesquita de Mamede está guardada na casa da filha (Foto: Kisie Ainoã)A mesquita de Mamede está guardada na casa da filha (Foto: Kisie Ainoã)

A admiração pelo trabalho de Mamede e pela pessoa que havia se tornado fez com que Leila criasse um vínculo com a Capital. “Campo Grande é minha terra. Aqui é meu lugar. Vou sempre no Santo Amaro para rever, mas ninguém da minha família mora lá. Também vou ao clube pra ver, enquanto não desmancham”, falou.

Em sua casa, as memórias estão mais vivas. Leila tem um quadro com o retrato de Mamedes e ainda guarda alguns objetos antigos como uma mesquita, porta-canetas que era de seu pai. “Não me desfaço. Tem um valor sentimental enorme, sinto a presença dele com isso”, afirma.

Leila segura a foto do pai Mamede e conta a história do pai com orgulho (Foto: Kisie Ainoã)Leila segura a foto do pai Mamede e conta a história do pai com orgulho (Foto: Kisie Ainoã)

Família - Mamede era casado com Miriam Abdalla José e teve quatro filhos; Mamede Assem José Júnior, Soraya Mamede Miranda, Nader Mamede José além de Leila. A sua herança não foi apenas em para Campo Grande, como também para a família que há quatro gerações permanece com o nome Mamede.

“O nome dele virou sobrenome, e tenho orgulho. Não se envolveu com política, fazia pelo povo como quem faz a um filho. Foi incentivador de obras caritativas. Um pai sempre lembrado. Um avô e bisavô presente, mesmo sem nunca os ter conhecido. Hoje completaria 100 anos de vida. Mamede Assem José foi um grande homem, um grande amigo e um grande pai. Foi o meu pai”, finaliza Leila.

 

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