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Campo Grande, Terça-feira, 21 de Agosto de 2018

05/01/2017 06:10

Depois de 4 abortos, Manu chegou para mãe de 39 anos em parto dentro de casa

Naiane Mesquita
Manuella e Carolina, só amor pelas lentes de Larissa PulchérioManuella e Carolina, só amor pelas lentes de Larissa Pulchério

Manuella nasceu no pôr do sol do dia 29 de junho de 2016. Canceriana, decidida, ela chegou as 38 semanas de gestação da mãe, a parteira de tradição Carolina Abreu Figueiró, de 39 anos. Chegou após quatro abortos espontâneos, incluindo a perda de um bebê aos seis meses de gestação, e uma irmã com diferença de 21 anos de nascimento. Manu foi muito esperada e amada desde o primeiro instante.

Parte do processo de evolução profissional e pessoal da mãe, a menininha de olhos castanhos chegou após três urros femininos no quintal de casa, pelos braços de Carolina e aos olhos da tia, da avó e do pai coruja. Gerações de mulheres que carregam no sangue uma história milenar de acolhimento.

O relato sobre não desistir de um sonho, Carolina faz aqui no Voz da Experiência.

As meninas de Carol, Victoria e Manu juntas em um registro (Foto: Larissa Pulchério)As meninas de Carol, Victoria e Manu juntas em um registro (Foto: Larissa Pulchério)

Entre as minhas filhas Victória e Manuella são 21 anos de diferença. Entre as duas, eu tive quatro abortos, quatro perdas. A Victória chegou quando eu tinha 16 anos, a gente comeu o lanche antes do recreio. Eu e o Beto namorávamos há dois anos quando veio a Victória. Era um amor de adolescência. Foi uma crise, meu pai enlouqueceu de eu ter engravidado. Mas depois foi tudo tranquilo, casamos e estamos juntos há 22 anos.

Uma gestação é uma reflexão também. Hoje eu estava falando com as meninas e tive muitos insights. Os movimentos do trabalho de parto são massagens muito fortes naquela criança, massagens expulsivas, massagens esmagadoras, no sentido do tamanho da força. Teve uma reportagem sobre um padre que quando ele morreu, ele entrou em contato com uma força e era uma força tão grande, ele ficou morto por oito minutos e os médicos o trouxeram de volta.

A força que o recebeu era esmagadora, ele dizia, e não era uma força masculina. Ele até disse que Deus não é homem, é mulher. O parto tem muito a ver com a morte também, o nascimento de uma criança também é a morte, essa criança ela vem do nada? É um espírito que está vindo de outro lugar. É uma força esmagadora que o traz aqui, por esse canal, por esse portal da existência. Não é o parto só pelo nascimento, ele é muito mais espiritual do que físico, por isso eu fui pelo lado da tradição ancestral das parteiras. E isso não tem nada a ver com religião e sim com espiritualidade.

Antes da Manu, em abril eu engravidei e dois meses depois eu perdi, durante uma das viagens com as parteiras pelo Brasil todo, eu fiquei o ano todo viajando nessa formação. Voltei e falei: Tenho que dar um tempo. Ainda pensei: Nossa, é a quarta perda Deus, mas não desisto, sempre tive essa força grande dentro de mim, que iria chegar o momento e que ainda não tinha chegado a hora.

Foi no Congresso Internacional de Parto, das parteiras da tradição, que minha menstruação não veio. Pensei, estou grávida. Não deu outra, fui para João Pessoa, na casa de uma parteira amiga, fiz um teste, estava grávida. Cheguei quieta, pensei de novo: Vou falar para a Victória, o Beto... Mas eu esperei alguns dias, vi que estava tudo tranquilo, não sou adepta da ultrassonografia, mas diante do que estava acontecendo...

Deu quase uma gestação ectopica, fora do útero, porque ela aderiu na cicatriz da cesárea. O primeiro parto, da Victória, foi cesárea, não por escolha porque na época eu tinha 16 anos e quem me assistia era um médico da família, quase irmão do meu pai que se recusou a fazer o parto natural porque ela estava sentada. 

Há dois anos meu pai teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral) seguido de uma embolia pulmonar. Por isso, com dois meses de Manu eu suspeitei que talvez tivesse trombolofilia. Repetimos os exames e o diagnóstico foi confirmado. Eu comecei a tomar uma medicação para quem tem trombofilia. Essa é uma gestação de alto risco, em uma grávida “normal” sem chance de ter um parto sem cesárea. Mas, isso nunca me aterrorizou.

A gestação foi maravilhosa. Eu trabalhei quase até parir e logo depois também.

A pequena nos braços, logo após o nascimento (Foto: Larissa Pulchério)A pequena nos braços, logo após o nascimento (Foto: Larissa Pulchério)

Tivemos a benção de todas as mulheres e crianças que vão nascer, a benção do nascimento. No dia seguinte da benção, no dia 27 eu comecei a sentir todo um movimento interno e a Manuela se ajeitando mesmo para vim.

Eu estava com 38 semanas. Por conta do meu conhecimento como parteira, eu estava sentindo que ela viria antes do tempo determinado pela Medicina. Dia 28, eu estava em trabalho de parto sentindo as contrações, não falei com ninguém, até porque o Beto ficaria nervoso, tinha uma preocupação em relação ao trombofilia.

Fiquei quieta, quando foi dia 29 pela manhã, às 10 horas, eu comecei a ver que as dores começaram a ficar mais longas. Eu liguei para o médico, tentei fazer toque, mas não alcancei o colo do útero. Eu fui ao médico, cheguei lá, ele fez e disse que eu estava com 4cm e em franco trabalho de parto. Eu falei: Vou para casa e quando precisar eu chamo.

O cheirinho logo após o nascimento (Foto: Larissa Pulchério)O cheirinho logo após o nascimento (Foto: Larissa Pulchério)

As contrações começaram a vir mais fortes, foi quando eu senti a dor. Isso estava uma confusão toda em casa, o quarto da neném ainda era pintado e eu que queria fazer no quarto mudei para o Spa. Pedi para minha irmã descer e passar álcool em tudo, esterelizando. Quando eu fui saindo do escritório, com minha mala, eu senti uma dor, uma contração que começou a me abrir inteira, com uma força extraordinária. De dentro para fora, é a força do portal da espiritualidade. 

Quando eu senti a contração, eu senti que desceu um líquido por entre as pernas e eu estava calça. Foi o primeiro urro que eu dei de mulher tigre por conta da dor. Minha mãe ouviu do Spa e em uma pernada ela estava lá em cima. 

Descendo de casa para o Spa eu comecei a mandar mensagem para todo mundo. O Beto que tinha saído para resolver umas coisas do trabalho, minha filha Victoria, o médico e as doulas da tradição que trabalham comigo. Eu estimava que a Manu chegaria por volta das 17 horas da tarde e ainda não eram 15 horas quando as contrações pioraram.

Eu falei para a Cris, minha irmã, abre o guarda roupa, pega uma banqueta de parto que tem porque eu estou em trabalho de parto. Ela pegou, trouxe a banqueta, e eu sentei. Quando eu fiz o movimento de sentar, eu estava na terceira contração eu senti que teria que esquecer o médico.

Minha mãe avisou que ela estava vindo. Quando eu coloquei a mão para ver onde estava a bolsa e a bebê, ela veio com tudo junto com a bolsa. A bolsa se abriu, rompeu, junto com ela, nascendo e eu já trouxe ela para o meu colo. A Manuela nasceu dormindo, quieta, ás 14h51. Meu marido que chegou voando e minha mãe ficarem receosos com aquele movimento todo. Foi assim, um parto super parecido com o da minha irmã, em que minha mãe me teve de cócoras na frente do meu quarto no corredor. Na época eu tinha dez anos.

São tantas coisas a serem ditas e resumir não é fácil. Mas gostaria também de relatar o renascimento incrível que acontece a todos que assistem a um parto. No caso do meu parto foi maravilhoso o presente para toda a família. Uma experiência extraordinária, transformadora e carregada de amor, receber uma criança em casa é pura luz, entrega, confiança e amor. 

Um parto transforma vidas. 



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