Riedel nacionaliza disputa e antecipa duelo ideológico com o PT
Fábio Trad critica modelo, busca apoio de Lula, aposta em racha na direita e vê 2º turno

Eduardo Riedel voltou de Brasília não apenas com agendas administrativas cumpridas, mas com um recado político cristalino: a eleição de 2026 em Mato Grosso do Sul, ao menos na disputa pelo governo do Estado, já tem roteiro — e adversário definido.
RESUMO
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A disputa eleitoral de 2026 em Mato Grosso do Sul já tem contornos definidos. O governador Eduardo Riedel antecipou que enfrentará o PT, nacionalizando o embate e associando Fábio Trad à rejeição histórica do partido no estado. Com avaliação positiva próxima de 80%, Riedel aposta no continuísmo desenvolvimentista. Fábio Trad, por sua vez, estrutura sua pré-candidatura criticando o modelo de gestão atual. Ele questiona o foco excessivo em metas fiscais e defende maior atenção às políticas sociais. O cenário pode se complicar com possíveis candidaturas do campo bolsonarista, que ameaçam fragmentar o eleitorado conservador.
Ao afirmar que enfrentará “o PT” no Estado, o governador antecipou a estratégia central de sua pré-campanha: nacionalizar o embate e associar Fábio Trad à rejeição histórica do partido no eleitorado sul-mato-grossense, majoritariamente conservador. Não se trata apenas de uma disputa entre nomes, mas entre campos ideológicos.
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“Vai ser uma eleição contra, lá no Estado, o PT”, afirmou. E completou: “Eu vou apoiar o adversário do presidente Lula.” A declaração desloca o eixo da eleição estadual para o plano nacional e sugere que 2026 será tratada como extensão da polarização presidencial.
Até agosto do ano passado, a relação entre Riedel e o PT era institucional. Durante 32 meses, o partido integrou formalmente o governo estadual, ocupando espaços como a Agraer e estruturas vinculadas à agricultura familiar e cidadania. O rompimento transformou a antiga convivência em narrativa eleitoral: o PT sustenta que deixou a base após o governo se mover para a extrema direita; aliados de Riedel afirmam que o embate ideológico era inevitável diante da resiliência da polarização nacional.
Na prática, Riedel deixa de enfrentar apenas Trad como indivíduo e passa a enquadrá-lo como símbolo partidário. A intenção é clara: transferir para o candidato a rejeição ao PT no Estado, onde Luiz Inácio Lula da Silva foi derrotado na última eleição presidencial por margem expressiva.
Continuidade como ativo
A leitura encontra respaldo nos dados apresentados pelo diretor do NovoIbrape, Paulo Catanante Filho. Segundo ele, a eleição parte de um dado estruturante: há sentimento majoritário de continuidade.
Riedel registra avaliação positiva próxima de 80% e rejeição baixa, entre 5% e 6%, na convergência das pesquisas recentes. Em cenários assim, a oposição larga em desvantagem, porque o eleitor não manifesta desejo consolidado de mudança. Trad aparece com rejeição em torno de 25%, o que, na leitura do instituto, estabelece um teto inicial de crescimento.
Some-se a isso a estrutura territorial. O PT possui capilaridade limitada no interior, onde tradicionalmente se decide a eleição estadual. Em um Estado que votou majoritariamente contra Lula na última disputa presidencial, a tendência é que a polarização nacional se reproduza localmente.
O secretário de Governo e Gestão Estratégica, Rodrigo Perez, reforça essa percepção ao reconhecer que o adversário ideológico é o PT. Ele admite que podem surgir candidaturas “da direita ou da extrema-direita”, mas sustenta que o eixo central da disputa será contra o campo petista. Sobre Trad, adota tom institucional: “É um cara preparado, conhecedor, jurista. Espero um debate de bom nível.”
A fala sinaliza que o governo não pretende subestimar o adversário, mas enquadrá-lo politicamente. Para Riedel e o ex-governador Reinaldo Azambuja, a ideia é colar no candidato a rejeição ao PT e consolidar a narrativa de continuidade administrativa.
O contraponto de Trad
Do outro lado, Fábio Trad estrutura sua pré-candidatura como crítica direta ao modelo que governa o Estado há 12 anos sob a liderança de Reinaldo e Riedel. Para ele, o crescimento do PIB e os indicadores macroeconômicos não se converteram automaticamente em melhoria concreta da qualidade de vida.
Trad questiona o que classifica como modelo “empresarial” de gestão, excessivamente concentrado em planilhas, metas fiscais e renúncias tributárias bilionárias, enquanto parte significativa da população — algo em torno de 60% — vive com renda média próxima de R$ 2.400. Na sua avaliação, o aumento da carga sobre o consumo, via ICMS, teria pesado proporcionalmente mais sobre os mais pobres, ao mesmo tempo em que áreas como saúde, educação e segurança não teriam recebido investimentos compatíveis com o crescimento econômico do Estado.
Ele ingressou no PT após o rompimento da legenda com o governo estadual, o que lhe permitiria fazer oposição sem vínculo com decisões administrativas anteriores, mas defendendo a posição do partido diante da guinada do governo mais à direita.
A saída do PT do governo estadual, segundo Trad, se deu pelo posicionamento de Riedel e Reinaldo a favor de “ideias extremistas” de uma direita que o partido rejeita.
Também não acredita que a disputa esteja restrita a dois polos, avaliando que candidaturas da direita ideológica podem fragmentar o campo conservador e empurrar a eleição para o segundo turno.
Nesse cenário, a eventual presença de Luiz Inácio Lula da Silva na campanha estadual é vista por aliados como elemento capaz de consolidar o eleitorado progressista e transformar Mato Grosso do Sul em vitrine simbólica da disputa nacional.
Dois modelos em confronto
O contraste entre os projetos começa a ganhar nitidez.
Riedel aposta no continuísmo desenvolvimentista, ancorado na agroindústria, grandes obras de infraestrutura e no discurso de estabilidade administrativa. Trabalha para consolidar uma frente ampla de centro-direita, com dois objetivos claros: evitar fragmentação interna e impedir que surja, à direita, um nome competitivo que divida o eleitorado.
Trad, por sua vez, tenta deslocar o debate para o campo social, argumentando que crescimento econômico não basta se não houver redução de desigualdades e fortalecimento de políticas públicas. A disputa, portanto, tende a oscilar entre dois eixos: alinhamento ideológico nacional ou avaliação concreta do modelo estadual. O pré-candidato do PT terá um encontro com Lula nos próximos dias. Ele pretende conduzir uma campanha baseada no alinhamento com a pauta nacional, mas sem ignorar as peculiaridades e demandas regionais do Estado. Quer saber, em síntese, que palanque Lula deseja no Estado.
Se prevalecer a lógica da continuidade, o governador larga como favorito. Se o debate migrar para prioridades sociais, modelo tributário e qualidade dos serviços públicos — e houver um eventual racha nas forças conservadoras — a oposição pode encontrar terreno. Sinais de descontentamento interno já há: Os deputados Marcos Pollon (federal) e João Henrique Catan (estadual) já manifestam o desejo de uma candidatura pelo bolsonarismo raiz. A liderança mais expressiva desse campo, o ex-deputado Capitão Contar, tem expectativa de que Reinaldo lhe garanta legenda para o Senado, mas trata-se de areia movediça porque ambos disputam fatias do mesmo eleitorado.
Por ora, o desenho aponta para um duelo anunciado — e cada vez mais nacionalizado.

