Depois de quase 80 anos, Maria encara desafio de ser crocheteira
Professora aposentada decidiu aprender crochê para sair de casa e reviveu lembranças da avó
Ao contrário do que muitos acreditam, idade não é sinônimo de saber fazer crochê. Tem muita avó que nunca pegou numa agulha e muito jovem que faz peça digna de desfile de moda. Maria Aparecida Melo Miranda, de 79 anos, queria ser daquelas crocheteiras de mão cheia, mas só aprendeu agora com quase 8 décadas.
RESUMO
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Maria Aparecida Miranda, de 79 anos, realizou o sonho de aprender crochê ao participar do Café com Crochê, evento criado por Anne Barros para afastar as pessoas das telas e redes sociais. O encontro, realizado em uma cafeteria de Campo Grande, reuniu 35 participantes e teve aulas ministradas por Juliana Ferreira, que ensina crochê desde os 6 anos. A próxima edição está prevista para 27 de junho.
Neste sábado (16) ela encarou um desafio de recordar como fazer os poucos pontos que aprendeu ainda na infância com a avó. Tudo aconteceu na 1ª edição do Café com Crochê, evento criado para relaxar a mente de quem vive grudada nas telas e nas redes sociais. A ideia é trazer as pessoas de volta para o mundo real e criar conexões.
Conhecida como dona Cida, a professora aposentada do ensino fundamental decidiu aprender crochê agora não por obrigação, tradição familiar ou para “passar o tempo”. Foi por vontade própria. Ela é a mais velha da mesa.
“Estou muito feliz de estar participando porque minha avó me ensinou quando era criança a fazer correntinha. Eu fazia metros e metros mas não passei disso. Vim porque quero aprender a fazer crochê. de verdade".
Depois disso, o crochê desapareceu da rotina. A mãe fazia peças muito bem, mas ensinar não era exatamente o forte dela. “Ela não gostava muito de ensinar porque eu atrapalhava muito”, brinca dona Cida.
O convite para participar do evento, realizado em uma cafeteria que mistura aula, conversa e pausa nas atividades massantes, chamou a atenção. “Também é um motivo para eu sair, encontrar pessoas. Para mim, é ótimo”.
Natural de Bela Vista e morando há anos em Campo Grande, dona Cida trabalhou nas escolas estaduais, na São Francisco e na Severino de Queiroz. Agora encara um aprendizado completamente novo. “Estou conseguindo fazer o que ela está pedindo. Vou fazer bem certinho e vou ser uma ótima crocheteira.”
A professora responsável pelas aulas é Juliana Ferreira, de 35 anos, que começou no crochê aos 6 e nunca mais parou. Segundo ela, hoje o principal obstáculo não é aprender os pontos, mas lidar com a ansiedade criada pelas redes sociais.
"A gente enfrenta atualmente a questão que performar bem. Começam a fazer e já querem sair com negócio pronto logo no começo, sem ter um processo. Ninguém começa sabendo. Por causa da internet, querer mostrar o negócio pronto. As alunas querem muito o final e não vivem o processo".
Pós-graduada em moda, ela destaca que o crochê voltou a ganhar espaço muito além dos tradicionais tapetes e panos de prato feitos pelas avós.
"Ele sempre esteve em paralelo ao universo da moda e agora tem destaque nas passarelas nacionais e internacionais. A gente que trabalha com crochê é incrível ver que uma arte manual está voltando. Porque se ninguém fizer vai se perder o conhecimento,. Antigamente era só tapete, bico de pano de prato e hoje conseguimos ver que podemos fazer uma peça para passear, para trabalhar, bolsas".
Fora das redes
A organizadora do projeto é Anne Barros, de 37 anos. Ela explica que a ideia nasceu justamente da percepção de que as pessoas estão cansadas de viver conectadas o tempo todo.
"Eu adoro as atividades manuais, eu faço crochê e algumas outras coisas também e eu estava, eu eu pratico essas atividades, mas eu percebo que o celular hoje em dia, as redes sociais, ela rouba bastante a o nosso tempo".
Anne conheceu Juliana em um workshop de crochê e percebeu que havia espaço para criar encontros menores, presenciais e focados em atividades manuais. Assim nasceu o projeto “Desliga Cria - Café com Crochê”.
A proposta é simples: poucas vagas, café, conversa e celulares um pouco esquecidos sobre a mesa. Quase um ato de rebeldia em tempos de rolagem infinita.
"A a gente precisa buscar uma vida mais equilibrada. Eu acho que hoje em dia as pessoas acabam não lembrando que existem esse tipo de atividades, que a gente pode se encontrar e conhecer pessoas novas, se conectar".
Ela ressalta que ali o objetivo é ser um clube de hobbies, sem cobranças ou perfeições. "Hoje as pessoas estão cansadas das telas. É uma atividade nova para desligar um pouco do celular, das telas, se conectar com pessoas, conhecer pessoas novas e também ter um momento agradável, tomar um café bom, comer uma comidinha".
Confira a galeria de imagens:
Ela conta que as vagas da primeira edição acabaram rapidamente e que a procura surpreendeu. A aula dura das 14h às 17h. O investimento foi de R$110. Ao todo, 35 pessoas fizeram a inscrição.
"A gente vê pelo número de eventos como esses crescendo aqui na nossa cidade e no Brasil também. Eu acho que tem também uma questão da moda. Nos últimos anos a gente vê as peças em crochê na alta moda voltando com tudo, pegando a geração Z".
A próxima edição já tem data para ser realizada: 27 de junho. A ideia é circular por cafeterias da cidade e continuar apresentando hobbies manuais para um público cada vez mais interessado em desacelerar e se desconectar, pelo menos, por algumas horas.
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