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Comportamento

Nair chega aos 100 anos com memória afiada, bom humor e muita história

Mãe de 5 filhos, ela celebra o centenário cercada de aprendizados e boas lembranças

Por Amanda Santos | 17/08/2026 08:11
Nair chega aos 100 anos com memória afiada, bom humor e muita história
Lembrança do segundo casamento de Nair. (Foto: Arquivo pessoal)

Conversar com Nair Savietto é quase como abrir um álbum de fotografias. Aos 100 anos, recém-completados no último sábado (15), ela lembra de nomes, lugares, pessoas e acontecimentos com uma facilidade que surpreende. E, entre uma lembrança e outra, ainda encontra espaço para brincar, se corrigir, dar risada e puxar mais uma história.

RESUMO

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Nair Savietto completou 100 anos celebrando uma vida dedicada à educação, à família e à fé. Natural de Itararé, ela chegou ao então Mato Grosso ao lado do marido, professor de português, e atuou como alfabetizadora em diversas cidades do estado. Mãe de cinco filhos, 12 netos e 18 bisnetos, ela ainda faz crochê, usa WhatsApp e mantém a memória surpreendentemente preservada. A festa reuniu cerca de 70 pessoas, entre familiares e filhos de antigos alunos.

Nair fala com espontaneidade, se emociona, reclama das pernas e, em seguida, volta a sorrir. Bastam alguns minutos ao lado dela para entender por que é tão querida pela família e por todos.

Natural de Itararé (SP), ela chegou a Mato Grosso do Sul quando o Estado ainda era Mato Grosso e Campo Grande estava muito longe da Capital que conhecemos hoje. Veio ao lado do marido, o professor de português Benedito Azamor, e aqui construiu uma vida marcada por viagens e por uma família de 5 filhos, 12 netos e 18 bisnetos.

Ela chegou quando Campo Grande ainda tinha ruas sem asfalto e poucas escolas. O marido havia sido convidado inicialmente para trabalhar como jornalista, mas encontrou uma vaga como professor. Ela também passou a lecionar.

A professora percorreu diferentes regiões de Mato Grosso do Sul. Deu aula em Miranda, Aquidauana, Jaraguari e na Furna dos Dionísios. Em uma época em que o acesso à educação era limitado, chegou a ser chamada para trabalhar com pessoas que ainda não sabiam ler e escrever.

Nair chega aos 100 anos com memória afiada, bom humor e muita história
Aos 100, Nair esbanja simpatia e mostra que guarda muita história para contar. (Foto: Victoria Costacurta)

Nair era alfabetizadora. Em uma das histórias que guarda desse período, conta que chegou a ensinar moradores da Furna dos Dionísios a assinar o próprio nome e até a escrever o nome do candidato em quem pretendiam votar.

A cidade também cresceu diante dos olhos dela. Vieram novas escolas, hospitais, comércio e universidades. “Hoje em dia está muito diferente. Mudou tudo”.

Talvez não exista uma fórmula para chegar aos 100 anos com a memória de Nair. Ela mesma não fala em vitaminas ou em uma rotina de exercícios. Destaca que sempre trabalhou muito. Foi professora, trabalhou com um médico, aprendeu a aplicar injeções, abriu um ateliê de costura após se aposentar e se dedicou durante anos à Igreja Católica. Também sempre gostou de ler e incentivou os filhos a fazerem o mesmo.

Até hoje, faz crochê e gosta de aprender coisas novas. As filhas contam que ela fez questão de entender como mexer no WhatsApp para continuar conversando com familiares e amigos.

Iaci Azamor, de 63 anos, e Iacita Azamor, de 69, não escondem a admiração pela memória da mãe. “Ela tem toda uma bagagem, ela tem coisas, histórias para contar, porque ela vivenciou isso. Não é uma coisa que ela viu na mídia social”, conta uma das filhas.

Nair chega aos 100 anos com memória afiada, bom humor e muita história
Iaci e Iacita herdaram da mãe o gosto pela leitura, pelos trabalhos manuais e o cuidado com o próximo. (Foto: Victoria Costacurta)

A leitura sempre foi uma companheira da mãe. Desde que os filhos eram pequenos, ela fazia questão de incentivar o hábito em casa e, mesmo aos 100 anos, continua valorizando isso. Para as filhas, esse contato constante com os livros também ajuda a explicar a memória tão preservada dela.

Falar dos dois maridos ainda aperta o coração. O primeiro morreu quando ela tinha apenas 26 anos. Os dois ficaram juntos por sete anos e tinham um filho pequeno. Seu esposo sofria do coração, mas Nair não sabia que a doença era tão grave. “Estávamos na praia, ele passou mal e morreu, quase fiquei doida”, lembra.

Anos depois, a vida lhe apresentou outro amor dentro de uma sala de aula. Benedito Azamor era seu professor de português. Ela percebeu que ele olhava muito para o seu lado durante as aulas. Quando se deu conta, os dois já estavam juntos, vieram para Mato Grosso do Sul após uma proposta de trabalho e ficaram casados por 42 anos.

Nair fala dele com o carinho de quem ainda sente sua presença. Diz que era uma pessoa educada, distinta e muito culta. E quando perguntam qual era o segredo para um casamento tão longo, ela explica que talvez fosse pelo fato de atuarem na mesma profissão.

Viagens nas férias e passeios para a praia eram o programa favorito do casal. Mas o casamento também foi marcado por uma longa batalha contra o câncer. Benedito enfrentou oito cânceres ao longo de mais de 20 anos e Nair esteve ao lado dele durante todo o tratamento, viajando para São Paulo, acompanhando cirurgias e internações.

As filhas contam que, quando o pai entrava no hospital e depois acordava, a primeira coisa que ele fazia era chamar pelo nome da esposa. Em 1995, ele morreu, aos 69 anos. “Eu tive sorte, porque o segundo casamento também foi bom. Muita sorte. Só que agora fiquei sem eles, sem os dois”, diz, emocionada.

Nair chega aos 100 anos com memória afiada, bom humor e muita história
Nair ao lado de Benedito, seu segundo marido. (Foto: Arquivo pessoal)

As filhas acreditam que, de certa forma, o pai continua presente por meio da mãe, nos ensinamentos, nas histórias e nas pequenas atitudes do dia a dia. “Às vezes ela conta as coisas e a gente tem a impressão que ele vai entrar ali na porta”, contam.

Depois de tantas perdas, Nair encontrou na fé um refúgio. Católica desde criança, participou da Legião de Maria, fundou um grupo e dedicou parte da vida ao trabalho na Igreja. Para as filhas, a fé é uma das características mais marcantes da mãe. “Ela é uma mulher de muita fé. De muita fé. Tudo ela coloca a fé na frente”, diz Iacita.

Outro ensinamento foi sobre trabalhar e ajudar os outros. As filhas dizem que herdaram dela o gosto pelos trabalhos manuais, a disposição para ajudar e até a mania de anotar as coisas para não esquecer. “Quando ela quer algo, vai até o fim. É determinada. Leonina, né? Personalidade forte desde sempre”, conta Iaci.

Nair chega aos 100 anos com memória afiada, bom humor e muita história
Nair mostra que a idade não tirou o bom humor nem a vontade de aproveitar a vida. (Foto: Arquivo pessoal)

Hoje, quando olha para trás, Nair não fala apenas de um século de vida. Fala de pessoas, dos dois homens que amou, dos filhos, alunos e tantos amigos que já se foram. E talvez seja por isso que, durante a entrevista, entre uma lembrança emocionante e outra, ela consegue fazer todo mundo rir. Aos 100 anos, ela não parece interessada em encerrar a história.

O aniversário também será celebrado em um buffet, ao lado de quem fez parte de tantos momentos. A festa reúne cerca de 70 pessoas, entre elas, familiares e até filhos de antigos alunos. A presença deles ajuda a dimensionar o carinho que a professora deixou por onde passou.

Nair chega aos 100 anos com memória afiada, bom humor e muita história
Entre filhos e netos, Nair reúne parte da família que é hoje um dos maiores legados de seus 100 anos. (Foto: Arquivo pessoal)


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