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Comportamento

Depois de segurar caixa d'água no braço, doméstica ganha casa de sonho do patrão

Por Paula Maciulevicius | 26/06/2015 06:12
Regiane mora hoje com quatro filhos na casa que é dela. As mais velhas já se casaram. (Foto: Marcos Ermínio)
Regiane mora hoje com quatro filhos na casa que é dela. As mais velhas já se casaram. (Foto: Marcos Ermínio)

Da casa antiga ficaram as lembranças das rachaduras e do medo que a chuva trazia consigo. As nuvens carregadas e os ventos fortes tinham um só significado para Regiane: grávida ou não, ela tinha que subir no pé de abacate para segurar a caixa d'água. O medo era de que a ventania levasse a gambiarra e fizesse despencar o telhado que abrigava a toda família.

No Indubrasil, a casinha velha era de tijolo, mas recheada de histórias pelas rachaduras. Ao contrário da dona que, apesar da vida sofrida, os anos não lhe desgastavam, a casa de lá envelheceu. Empregada doméstica, Regiane Aparecida Maciel tem 40 anos, é mãe de sete filhos. Criou todos sozinha com o trabalho das diárias, enquanto o pai dos pequenos, ex-marido dela, alternava entrada e saída de presídios.

Nascida no Paraná, Regiane é dona de uma alegria que contagia. A gente dá risada até do drama que ela viveu. Não por ver graça no ocorrido, mas pela felicidade no rosto dela contando o passado que já se foi. "Eu morava numa casa muito simples. Era bem acabadinha. Tinha rachadura pra tudo que é canto por causa do trem e sempre dava um problema. Ou era meu poço que secava, ou caía a bomba", conta.

Empregada lembra de quando abraçava a caixa d'água no Indubrasil. (Foto: Marcos Ermínio)
Empregada lembra de quando abraçava a caixa d'água no Indubrasil. (Foto: Marcos Ermínio)

Quando o problema não era na água exatamente, era por conta dela. Se a chuva se fazia presente então... "Eu subia em cima de casa. Ficava segurando uma lona no telhado para não molhar minhas crianças. Minha caixa d'água era um tambor que ficava amarrado com arame em um pé de abacate. Eu subia e ficava abraçada nela quando ventava, porque se caísse, estourava todo meu encanamento e ia quebrar toda minha casa".

A narração vem carregada até mesmo de saudade. "Mas eu sempre fui muito feliz e muito grata a Deus. Você nunca me vê triste, ou chorando de raiva - aí faço um parênteses porque chorar de emoção, Regiane chora o tempo todo - quando ela retoma a fala, diz que quando vê alguém com problema, acredita logo que o seu sorriso pode ser o remédio. É o que ela tem a oferecer, de graça.

Ela criou os filhos sozinha limpando, às vezes, até três casas por dia. "Tinha dia que eu chamava as crianças e elas me perguntavam: - Mãe, mas para que levantar? Para ficar com fome?" Sinal de que a família, volta e meia, flertou com a fome.

Há seis anos Regiane foi ser empregada doméstica fixa. Coisa que ela define como "a colheita do pouquinho que plantei dia a dia. Eu procurei dar o meu melhor para a casa e em troca, o patrão deu o melhor dele pra mim. Eu falo, não existe patrão 100% se você não for um empregado 100%".

As lágrimas caem, mas por felicidade e gratidão. (Foto: Marcos Ermínio)
As lágrimas caem, mas por felicidade e gratidão. (Foto: Marcos Ermínio)

Depois que ela conseguiu a casa na Vila Adelina, pelos programas do Governo, ali na saída para São Paulo, é que de fato começa a história que virou sonho. "Meu patrão tinha me dado uns armários. Ele me perguntou se cabia na minha casa. Como eu queria muito, eu disse 'claro que cabe'. Mandaram entregar e veio o montador junto. Eu falei que a casa estava suja, pra ele me dar três dias que eu ia arrumar. É que na verdade não cabiam os armários, mas eu também não queria devolver", narra.

No dia seguinte, Regiane chamou um pedreiro e pediu um orçamento para ampliar a casa como desse, ao modo mais barato. "Aí eu levei para o meu patrão me ajudar a comprar os materiais como ele pudesse, por causa do meu nome. Ele de cara me perguntou: 'Mas Rê, sua casa é eternit?' Eu disse que era de telha, mas que eu não tinha condição de comprar as telhas que faltavam", lembra.

O patrão pediu um tempo e depois a planta do imóvel. Numa brincadeira, a empregada respondeu 'pobre não tem planta de casa não. Só tenho a planta que o senhor me deu'. Então uma arquiteta visitou o imóvel, a pedido do patrão, que ordenou que ela alugasse uma outra moradia para dar tempo e liberdade aos pedreiros. O imóvel não deu certo, e ele então a levou com as crianças para morar no sobrado ao lado de sua casa, que faz parte do mesmo terreno.

"Um dia ele me ligou e disse que ia ter que dar um armário lá para a minha filha, que não cabia. Depois minha filha me liga agradecendo pelas coisas. Aí eu perguntei, mas que coisas? TV, rack, fogão... ".

No quarto que as meninas dividem. Cômodo erguido na reforma. (Foto: Marcos Ermínio)
No quarto que as meninas dividem. Cômodo erguido na reforma. (Foto: Marcos Ermínio)
Banheiro de Regiane transformou quarto da empregada em suíte. (Foto: Marcos Ermínio)
Banheiro de Regiane transformou quarto da empregada em suíte. (Foto: Marcos Ermínio)
Cozinha espaçosa tem armários planejados e não falta comida. (Foto: Marcos Ermínio)
Cozinha espaçosa tem armários planejados e não falta comida. (Foto: Marcos Ermínio)

Quando a casa ficou pronta, Regiane entrou chorando. Os agradecimentos eram a Deus e ao patrão, que ele havia colocado em seu caminho. "Aí eu fui me lembrando da minha história. Ele me deu dinheiro e eu fui com a minha patroa comprar sofá e tapete. Eu lembro até hoje, eu só chorava".

Da história eu ainda não sabia a metade e as lágrimas, tanto de Regiane quanto as minhas, já escorriam pelo rosto. "Eu vim fazer a faxina e ele ficou aqui, inspecionando tudo e me apressando. De repente, encostou um caminhão das Casas Bahia com tudo: máquina, micro-ondas, minhas camas..."

"Quando você não tem nada em casa, quando sua cama é um colchão e você ganha cama box para você e seus filhos, é uma coisa grandiosa", explica a empregada.

Ela conta que sempre ouviu dos vizinhos que a casa onde morava, para as crianças dela, tinha um muro imaginário. "Eles não saíam do portão pra fora e nem tinha portão. Eram dois pedaços de pau"...

A casinha que de dois quartos, um banheiro e sala e cozinha juntas, da planta original, passou a ter quatro quartos, uma ampla cozinha, a sala separada e ainda uma varanda na frente e os fundos todo gramadinho.

"Eu perguntei para o meu patrão, eu posso ter um banheiro no meu quarto? Eu sempre sonhei em ter um banheiro. Ele me perguntou se eu queria uma suíte. Eu disse que sim. Sabe por quê? Porque eu faço o serviço na casa dos outros como se fosse na minha. Fica tudo limpinho, cheirosinho e eu dizia: 'ficou linda'. Mas eu ia embora. Era como brincar de casinha. Eu tinha a minha casinha, o meu barraquinho, que sempre foi limpinho. Só que quando me deram essa casa e eu olhei pra ela... É minha. Eu não preciso mais brincar de casinha".

Talvez a alegria e a gratidão formem a decoração mais requintada. "Se minha casa é minha cara? É, porque é minha casa de verdade. Na cozinha não tem tijolo sendo armário, tem armário mesmo. Minha casa tem porta, minhas casas nunca tiveram porta. Eu acordo até hoje, de madrugada, agradecendo e as pessoas me falam 'não sei como você consegue ser assim Rê'. Eu resolvi viver, eu resolvi ser feliz e a minha casa, é parte disso".

A arquitetura é também feita pelos moradores, por quem dá alma ao lugar que escolheu chamar de lar. (Foto: Marcos Ermínio)
A arquitetura é também feita pelos moradores, por quem dá alma ao lugar que escolheu chamar de lar. (Foto: Marcos Ermínio)
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