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Campo Grande, Domingo, 23 de Setembro de 2018

09/04/2017 07:25

Do homem todo estropiado, ouvi o som que jamais vou esquecer na minha vida

Lenilde Ramos
Turma de músicos do bolicho.Turma de músicos do bolicho.

Algumas amigos que acompanham meu baú pedem para que esses textos sejam publicados em livro. Concordo e já estou com a mão na massa.

Mas, vale a pena dizer que algumas dessas histórias são pequenos trechos extraídos de meu primeiro livro "História sem Nome", que já teve duas edições em português, uma em italiano e em breve terá uma em espanhol, pela tradução da fantástica escritora paraguaia Ysapy Poty. O texto de hoje, por exemplo, faz parte desse primeiro livro. E, para quem se interessar, ele está disponível na Casa do Artesão.

Posso dizer que tive uma vida dupla na década de 1970. De um lado eu me dividia entre o movimento da cidade, os estudos, a vida cultural e o trabalho.

Na outra parte, eu vivia na antiga colônia de hansenianos, que o povo chamava de leprosário e que se transformou no que é hoje o grande Hospital São Julião. Ali fui professora, secretária, jornalista, ouvidora de fantásticas histórias e observadora de outras tantas.

Qualquer tempinho livre eu ia para o bolicho tocar com meus amigos internos, gente sofrida, de dedos retorcidos e de muito talento. Esses encontros aconteciam nos finais de tarde e os doentes se reuniam à nossa volta para apreciar as modas. Havia sempre um velho, todo estropiado, que caminhava com dificuldade e era um dos mais atentos, principalmente quando tocávamos polcas e guarânias.

Um dia ele foi chegando mancando bem devagar e trazendo alguma coisa embrulhada em panos velhos. Fiquei olhando ele tirar aqueles panos até que me espantei ao ver um violino. Então o velho o colocou no pescoço e com os dedos tortos tirou daquelas cordas o som de uma guarânia, que nunca mais vou esquecer na minha vida. 



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