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Campo Grande, Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018

20/05/2017 07:15

Do óvulo emprestado de uma baiana nasceu Bento, filho de mãe gaúcha e pai goiano

Ovodoação é pegar emprestado o óvulo de outra mulher, fecundar com o esperma do pai, e implantar no útero da mãe. Uma baiana abençoada me permitiu realizar o sonho de ser mãe

Paula Maciulevicius
O Bento é fruto do sonho de sermos pais e exigiu de nós bem mais do que estão acostumados a fazer homens e mulheres por aí para gerar um bebê.O Bento é fruto do sonho de sermos pais e exigiu de nós bem mais do que estão acostumados a fazer homens e mulheres por aí para gerar um bebê.

Ana Raquel Copetti é jornalista e mãe de Bento. Gaúcha que hoje voltou ao Estado de origem, Ana se formou na UFMS, trabalhou em Campo Grande e chefiou equipes por onde passou, de Porto Alegre até Salvador. Ao lado do marido, Gustavo Telles, escreve o Nós 2 Por Aí. Na semana que passou, ao comemorar o primeiro Dia das Mães, Ana Raquel escreveu este texto para dizer que o dia é para todas.

"Há exatamente um ano um beta de 641 confirmava o sonho: eu estava grávida. Pelo menos um dos dois embriões implantados no dia 30 de abril tinha se agarrado às paredes do meu útero e estava pronto para crescer. Uma semana depois do primeiro teste, um segundo exame de sangue tirava qualquer dúvida que poderia restar. A primeira ultrassom não tinha som, mas mostrava com nitidez o batimento acelerado de um coração minúsculo.

O Bento é fruto do sonho de sermos pais e exigiu de nós bem mais do que estão acostumados a fazer homens e mulheres por aí para gerar um bebê. Foram dois anos de tratamento, dezenas de tentativas frustradas, agulhadas, lágrimas e paciência. Muita paciência.

Uma alteração hormonal num exame de rotina acendeu a luz vermelha e nos levou ao consultório da ginecologista. Ainda morávamos em Porto Alegre e estávamos a poucas semanas do nosso casamento quando a médica abriu o resultado e deu o diagnóstico: seu problema é mais grave do que eu posso tratar. Procure uma clínica de fertilidade.

Começava ali, em março de 2014, uma jornada lenta e nada prazeirosa. Descobrir-se infértil está fora da cartilha de possibilidades para uma mulher que sonha ser mãe de um filho gerado dentro dela. Um casal nunca está preparado para ouvir que não vai engravidar só porque está com vontade.

Como bons nômades que nos tornamos, levamos o projeto Filho de um canto a outro, no meio de todas as caixas de muitas mudanças. Dois óvulos congelados em Porto Alegre atravessaram o Brasil de avião para que uma médica baiana tentasse fazer deles um embrião. Outro óvulo congelado em Salvador trocou de clínica para que também pudesse ser testado. Nada. Meu problema era a baixa produção ovariana. Uma provável menopausa precoce. Sem diagnóstico exato. Sem um tratamento para reversão.

Ouvimos de tudo ao longo dessa caminhada. A pior frase foi dita por um médico bem velhinho e muito experiente. "Mulheres com o seu perfil dificilmente engravidam e, quando isso acontece, abortam". Saí do consultório arrasada e trabalhei o dia todo de cara inchada. Não sei se há um meio termo entre verdade e sensibilidade, mas faltou um jeito melhor de falar. Mudei de médico. Foi aí que a Isa entrou na minha vida. Isa Rocha, médica do IVI Salvador. Linda, simpática, sorridente, sensível e equilibrada na medida certa. Confiante. De fé. "A gente só não fábrica óvulo, o resto dá pra resolver". Aquela baianinha arretada nos segurou pela mão e não deixou desistir. Nos abraçou. E juntos encaramos muitos ciclos na tentativa de um óvulo. Nada. Mais agulhas, mais remédios. Nada. Choro. Franqueza. Numa segunda-feira pós menstruação, cheguei ao consultório dela decidida a mudar de estratégia, mas que a sugestão viesse dela. "Ana, eu acho que é hora de pensarmos em ovodoação". Eu e Gustavo confirmamos com um balançar imediato de cabeça. Era o que queríamos.

Ovodoação é pegar emprestado o óvulo de outra mulher, fecundar com o esperma do pai, e implantar no útero da mãe. E o Bento foi feito assim. Uma baiana abençoada me permitiu realizar o sonho de ser mãe. Por isso o Bento é filho de mãe gaúcha, pai goiano, é baiano de feitio e paulistano de nascimento.

Quando se faz ovodoação, o bebê não traz consigo as características físicas da mãe. O que significa? Que o Bento não pode se parecer fisicamente comigo. Traz toda minha carga genética, menos o fenótipo. Isso me preocupava quando comecei a pensar no método. Não tem a menor importância hoje. Tenho certeza que, mesmo contando aqui, ainda vou ouvir que ele se parece comigo. Outro dia um amigo disse a melhor coisa que eu poderia ouvir. "Incrível como - com os seus olhos - ele faz o olhar da Ana". Precisa mais?

Mas pra quê contar a verdade? Porque é quase Dia das Mães e muita mulher não pode ter filhos porque não tem óvulos. E porque, desde que engravidei, ouvi muitas histórias de mulheres que não consideram a ovodoação uma hipótese porque os maridos não querem filhos de outras mulheres, parecidos com outras pessoas.

A medicina de reprodução humana é maravilhosa. Avança vertiginosamente pelo mundo. Foi feita pra gente como eu e como você, que tá lendo e nem pensou que tinha uma saída pro seu problema. Foi feita pra sua prima, amiga, cunhada, irmã. Há um tempo, só era opção pra quem tinha muito dinheiro. Sei bem que dá pra gastar a grana de muitos carros populares em cada tratamento. Mas hoje dá pra fazer pelo SUS. E também dá pra ser doadora voluntária de óvulos e ter o tratamento pago integralmente por quem precisa do óvulo doado.

Tem jeito, tem solução, tem sempre uma saída. Se é o seu sonho, não desista. Vale cada agulhada na barriga. Cada hormônio. Cada exame. Vale a pena sempre. Senti que valia a pena quando vi aquele 641 indicando positivo no meu exame de gravidez em 12 de maio de 2016. Naquele dia eu nem imaginava o quanto era bom ouvir o primeiro choro de um recém-nascido, na sala de parto. Não sabia como era quentinho o corpo dele encostado no meu, logo depois de ser retirado da barriga. Não sabia que mais importante que o tipo de parto é realmente esperar pelo nascimento. Não sabia que perderia a noção do tempo ao vê-lo crescer. Não sabia quanto significava um mês até comemorar cada um que ele completa. Não sabia que ser mãe dava um trabalho danado. Não sabia que ficar sem dormir me deixaria mal humorada. Não sabia que o sorriso dele curaria qualquer dor. E que inventaria sons estranhos e olhares engraçados só pra fazê-lo gargalhar.

É Bento. Abençoado. Bendito. Meu."



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