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Comportamento

Em sala lotada, público vai embora do cinema para 20 crianças curtirem sessão

Gesto comoveu quem estava no cinema nesta sexta-feira e garantiu que crianças de uma escola pública assistissem ao lançamento

Por Thailla Torres | 14/12/2019 07:45
Crianças assistiram filme que fala de maneira poética sobre o medo.
Crianças assistiram filme que fala de maneira poética sobre o medo.

Alguns gestos fazem a gente acreditar no mundo melhor amanhã. Prova disso foi a cena presenciada na noite desta sexta-feira (13), durante uma sessão exclusiva de lançamento da série de animação “O menino que engoliu o sol”, de Ricardo Câmara, Patricia Alves Dias e Joel Pizzini, no Cinemark do Shopping Campo Grande.

A sala de 150 lugares estava lotada minutos antes da exibição dos 13 episódios. No entanto, 20 crianças de uma escola pública de Campo Grande estavam para fora do cinema, impedidas de entrar porque não havia mais lugares disponíveis na sessão.

Elas foram convidadas pelos próprios produtores da série. Mas com a falta de lugares inesperada, e sem autorização para que qualquer um sentar-se na escada, o jeito foi fazer um apelo.

Debaixo do telão branco, Ricardo Câmara, escritor de livro que deu nome e vida a série, falou sobre a possível decepção das crianças caso elas ficassem de fora. A fotógrafa Elis Regina Nogueira foi além, pediu a quem pudesse que cedesse lugares para outras crianças.

Sala do Cinemark de Campo Grande ficou lotada. (Foto: Toninho Souza)
Sala do Cinemark de Campo Grande ficou lotada. (Foto: Toninho Souza)

Não foi preciso muito diálogo. O primeiro se levantou em direção às escadas, em seguida, outras 19 pessoas saíram da sala, sem nenhuma chateação. “Eu posso assistir em outro momento, as crianças merecem”, disse uma produtora enquanto andava até a porta.

O grupo de adultos foi aplaudido pelas crianças e convidados que estavam nas poltronas do cinema, como plateia. Loraine Barros, professora da Escola Municipal Vanderlei Rosa de Oliveira, no Jardim Novos Estados, ficou emocionada. “Primeiramente eles merecem e isso prova que as pessoas ainda sabem disso. Em segundo lugar, me emociono pela valorização da cultura. Essas crianças nem sempre tem acesso ao cinema e arte sul-mato-grossense. Um momento como esse mexe com o coração da gente”.

Autor do livro “O menino que engoliu o sol” que inspirou a produção cinematográfica saiu duplamente satisfeito, primeiro pelo lançamento que contou com a presença de amigos e do cantor Ney Matogrosso, que é narrador da série. Depois a emoção veio com o gesto do público.

O cantor, após a produção, resumiu como “importante” o gesto do público e lembrou-se do encanto das crianças que torciam pelo personagem e vibraram com a conquista dele nos últimos episódios. “Elas estavam ansiosas pela conquista dele e quando isso aconteceu elas enlouqueceram, ou seja, vale muito à pena que elas tenham acesso a isso”, disse Ney.

Isso acentua mais a necessidade de ter um cinema público que pudesse acomodar todos, lembra o cineasta Joel Pizzini. “O shopping foi muito bacana porque abriu um espaço para nós. Até tentamos uma sala maior, mas não tinha como. O cinema estava repleto de uma programação mais comercial e isso é compreensível. Então acredito que precisamos de uma cinema de rua, porque o cinema de shopping tem outra vocação. E me deixou muito feliz o gesto de amigos que deram oportunidade a crianças de escolas, escolas da periferia que talvez nunca tenham entrado em um cinema. Ao mesmo tempo fiquei triste porque alguns amigos ficaram de fora”, disse o cineasta. 

“O Menino que Engoliu o Sol” é a primeira série de animação de Mato Grosso do Sul. Narrada pelo cantor Ney Matogrosso, a série, com 13 episódios de sete minutos, é uma adaptação do livro infantil homônimo de Ricardo Pieretti Câmara que lembra o universo de Manoel de Barros e fala de maneira poética sobre o medo.

Para saber mais sobre a animação, leia a reportagem Com olhar poético, “O menino que engoliu o sol” fala sobre o medo. (Clique aqui).

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