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Campo Grande, Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018

12/08/2018 08:31

Flávia não tinha pai, até descobrir que tem três e deu chance à vida sem mágoas

Ela foi criada pelo avô e pelo padrinho, só conheceu o pai biológico aos 15 anos, mas deixou de lado o passado e deu uma chance a ele

Thailla Torres
Flávia e o pai em novo momento da vida, longe dos ressentimentos. (Foto: Arquivo Pessoal)Flávia e o pai em novo momento da vida, longe dos ressentimentos. (Foto: Arquivo Pessoal)

Mais do que qualquer dia do ano, o Dia dos Pais é marcado pelo ressentimento. Primeiro porque, geralmente, é o homem que abandona o filho para ser criado apenas pela mãe. O realidade de muita gente transforma a ausência em revolta e tristeza, uma história que pdoeria se repetir na  vida da professora de Artes e bailarina Flávia Laís de Araújo Alarcom Costa, de 29 anos, que só encontrou com o pai biológico pela primeira vez aos 15 anos.

Flávia foi criada pelo avô e pelo padrinho. Ouviu inúmeras versões sobre a própria história de vida. E durante muito tempo a relação entre pai e filha nunca existiu. Mas a partir do momento que ela entendeu todos os fatores que os levaram aquela distância, deixou de lado o passado e quis dar uma nova chance ao pai biológico. Foi quando descobriu a beleza de ganhar um nova família e as dores da ausência ganharam um peso menor. Como encontrou soluções para caminhar ao lado do pai de um jeito mais leve ela conta aqui no Voz da Experiência.

Aproximação fez Flávia ganhar uma nova família. (Foto: Arquivo Pessoal)Aproximação fez Flávia ganhar uma nova família. (Foto: Arquivo Pessoal)

Minha historia começa sendo filha de uma mãe solteira que engravidou aos 18 anos, enquanto meu pai tinha 17. Naquele tempo uma gravidez inesperada era uma verdadeira confusão em família. Os pais eram mais rígidos, exigiam casamento dos filhos e não era todo mundo que reagia bem a esse tipo de história.

Era 1988 quando minha mãe se mudou para São Paulo em busca não ficar em Campo Grande com aquela vergonha de ter engravidado. Por isso, sou a única da família que nasceu em Guarulhos (SP).

Quando eu ainda era um bebê, minha avó foi me buscou e me trouxe de volta para Campo Grande. Naquela época minha mãe se mudou novamente e fiquei de vez com meus avós, que não nos deixava ir embora.

Nesse caminho o meu pai biológico nunca apareceu e a minha primeira referência paterna sempre foi o meu avô. Cresci ouvindo mais de uma versão da minha própria história, a família dizia muitas coisas e eu tinha muita raiva disso, tudo aquilo não cabia na minha cabeça.

Cada dia que passava, as relações eram mais complicadas. Eu detestava Dia das Mães e Dias dos Pais. Ouvia inúmeras coisas na escola, de coleguinhas que não entendiam o porquê eu não tinha um pai.

O meu padrinho, foi quem assumiu minha criação ao lado dos meus avôs, foi um homem incrível que fez exatamente o que foi proposto no batismo. Ajudou nos meus estudos, na minha saúde, no meu comportamento. Apesar de tudo, eu ainda chorava muito e todas aquelas comemorações eram uma tortura. Hoje, trabalhando em escola pública, vejo muitas crianças sem pais e, em alguns momentos, esse tipo de comemoração é muito complicado.

Até que um dia, sem saber quem era meu pai biológico e nem nunca ter visto uma fotografia, minha avó, preocupada com detalhes mais burocráticos como a faculdade, resolveu ir atrás do meu pai.

Estava com 14 anos quando ela entrou na justiça para saber o paradeiro dele e foi nesse processo que ele apareceu. Estava vivendo em Brasília naquele tempo.

O vi pela primeira vez aos 15 anos, na rua em que minha mãe morava. Eu estava naquela fase rebelde da adolescência e, com toda carga do nosso passado, não ouvir e nem falar nada para ele.

Houve um pedido de DNA logo em seguida. E para uma adolescente esse foi um dos primeiros momentos mais difíceis. Lembro-me que fui fazer o exame e falei que nunca mais ia esquecer aquele furo que ele me fez receber na vida.

 

E aos poucos, pai e filha estão se conhecendo. (Foto: Arquivo Pessoal).E aos poucos, pai e filha estão se conhecendo. (Foto: Arquivo Pessoal).

O resultado de DNA deu positivo, mas a raiva não havia passado e demorou anos para passar. Entrei naquela fase de conhecer restante da família e diante da rebeldia, eu não queria conhecer ninguém.

Foi minha avó materna que me aconselhou a dar uma chance, mesmo assim aquela dor e raiva não passavam. Ele (pai) não desistiu. Chamou-me a festas de família, esteve na minha festa de 15 anos naquele mesmo ano, mas era aqui e ele lá, sem nenhuma aproximação.

As coisas começaram a mudar de verdade, aos 18 anos, quando eu fiquei grávida do meu primeiro namorado. Naquele momento minha casa caiu porque eu cresci ouvindo para não cometer as mesmas atitudes que a minha mãe cometeu. Sai da casa dos meus avós, fui morar com a minha mãe e meu pai começou a se aproximar de mim. Quando meus pais souberam da gravidez, eles reviveram a própria história, minha mãe recordou que passou pela mesma situação.

Mas a surpresa é que desta vez o discurso foi diferente. Foi ele quem falou que eu não precisava casar se eu não quisesse, meu deu o maior apoio do mundo e agora ele tem os netos para dar todo amor que um dia não deu na minha infância.

Posso dizer que a maternidade me ajudou perdoá-lo. Comecei a entender que a gente não tem o controle de tudo na vida. Às vezes, a gente não faz uma coisa porque é ruim, mas porque as circunstâncias contribuíram para que nada desse certo naquela época. Busquei pensar que meu pai e minha mãe eram dois adolescentes naquele tempo.

Não vou mentir que sofri durante muito tempo. Mas parei de olhar tudo que faltou no passado e percebi tudo o que a vida havia me dado a mais no presente. Tive a sorte de ser criada por um avô incansável pela felicidade dos netos, um padrinho que nunca me deixou faltar nada e agora um pai biológico, que mesmo em pouco tempo de convivência, está em busca de recuperar o tempo perdido.

Hoje consigo viver sem ressentimentos. Nosso primeiro Dia dos Pais de verdade foi há dois anos. Ganhei dele uma família enorme, cheia de primos, tios e amigos que amam curtir a vida.

Hoje até me arrisco dizer que puxei isso e aquilo do meu pai. Aliás, foram muitos anos até chama-lo de pai. Ainda lembro quando cantamos o primeiro parabéns juntos para o aniversário dele, nem ele esperava um momento daquele ao lado de todos os filhos.

Olho para minha história e penso que poderia ter sido tudo diferente, mas não foi. Queria ter meu pai desde criança? Queria. Mas sei que não adianta remoer o passado. Passei a viver os momentos de hoje porque sei que são essas memórias que vão construir nossa vida juntos. Hoje quero aproveitar as oportunidades de estar ao lado dele.

Algumas coisas ainda são complicadas, até hoje não sei o que comprar de presente para ele no Dia dos Pais. As pessoas deduzem que isso é algo fácil, mas para quem nunca cresceu ao lado do pai, isso é difícil. Mas por outro lado, tenho descoberto o que ele gosta de fazer. Sei que ama churrasco, gosta de animais, se diverte em ir para a chácara, tem paciência de ouvir as pessoas e vejo em muitas coisas que pareço com ele. É... Aos poucos, cada detalhe faz todo sentido.

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