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Campo Grande, Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

24/04/2017 07:24

Fogo em trem fez ator italiano e atriz uruguaia criarem raízes históricas em MS

Paula Maciulevicius
Na fachada do hotel Santullo, em Miranda, Paschoal é o penúltimo e mais baixinho, entre os hóspedes. (Foto: Arquivo Pessoal)Na fachada do hotel Santullo, em Miranda, Paschoal é o penúltimo e mais baixinho, entre os hóspedes. (Foto: Arquivo Pessoal)
Nos álbuns de família, a história dos Santullo é contada em palavras e imagens preto e branco.Nos álbuns de família, a história dos Santullo é contada em palavras e imagens preto e branco.

A vinda ao Brasil seria só de passagem, mas a apresentação marcada para acontecer em São Paulo nem chegou a se realizar. Um incêndio no vagão de trem encerrou a carreira artística para começar uma família que se tornaria sul-mato-grossense. As histórias de famílias sempre encantam o Lado B por ser uma forma de preservar o passado e levar a memória para o futuro. Os Santullo trazem consigo o palco, a interpretação e a bagagem de teatro, além de serem a ponte entre Mato Grosso do Sul e uma das maiores artistas sul-americanas, Maruja Santullo.

O porta-voz desta narrativa é o neto, Oswaldo Santullo, que aos 71 anos revê o que já adiantou do livro da família. "Em um certo tempo, li um historiador brasileiro que dizia o seguinte: a cada três gerações, um membro da família se interessa por conhecer a história. Olha que pouco? Seria eu o único assim?", se perguntou Oswaldo. E como ele estava no limiar entre os mais velhos e os mais novos, se viu na obrigação de deixar a história escrita. 

Paschoal e Virgínia se conheceram no Uruguai. Uma história que alcança, ano que vem, o centenário. "Os Santullo eram uma família bem estabelecida, produtora de queijo e vinho na Itália e havia um riacho que alimentava as propriedades daquela região, mas que a igreja resolveu desviar e os agricultores passaram a ficar sem água", conta Oswaldo. A escassez trouxe conflitos e a decisão de deixar a Itália e seguir para a América do Sul.

Em 1913, Paschoal Santullo, quando à época era ator no Uruguai. Em 1913, Paschoal Santullo, quando à época era ator no Uruguai.
Nos anos 30, com toda família em Miranda. (Foto: Arquivo Pessoal)Nos anos 30, com toda família em Miranda. (Foto: Arquivo Pessoal)

Para o Uruguai, Paschoal foi com outros três irmãos e no país vizinho nasceu o caçula, que viria a ser o pai da atriz Maruja. "Meu avô conheceu minha avó nestes cafés literários, onde eles faziam declamações de poesia e representações teatrais e juntamente formaram a companhia de teatro Paschoal Santullo", narra o neto.

A trupe viajava com grandes produções assinadas por autores espanhóis e argentinos, quando veio para o Brasil em comitiva. De trem, a primeira cidade por onde passaram foi São Borja, no Rio Grande do Sul, onde à época Getúlio Vargas era prefeito, e de lá seguiram para São Paulo.

"Acontece que em Ponta Grossa, parece que uma faísca da Maria Fumaça atingiu o vagão onde estava todo o cenário. Eles perderam tudo e foram ajudados até resolverem voltar para o Uruguai, mas pelo Rio Paraguai", relata Oswaldo.

Para a viagem pelo rio, o casal apanhou um trem da Noroeste e chegou até Miranda. A pausa que seria somente para a abastecida, trouxe enjoos a Virgínia que estava no comecinho da gravidez do primeiro filho. "Aí eles resolveram ficar até ela se restabelecer, mas nisso foram fazendo amizades", comenta o neto.

A pensão onde os atores moravam foi vista com outros olhos por Paschoal, que não só estendeu a permanência até o primogênito nascer, como pensou em investir no estabelecimento. A hospedaria foi comprada por eles e passou a se chamar Hotel Santullo.

"O que ele percebeu, que não tinha recursos adequados para atender toda classe política do Estado, que quando viajava, se hospedava lá. Ele criou uma Jardineira, um automóvel que fazia a linha Miranda - Bela Vista até o porto e levava passageiros e mercadorias nesta região", conta Oswaldo.

Paschoal e Virginia, o casal que trocou as artes pela hospedaria em Miranda. (Foto: Arquivo Pessoal)Paschoal e Virginia, o casal que trocou as artes pela hospedaria em Miranda. (Foto: Arquivo Pessoal)

O trajeto foi feito e refeito durante anos. A vida dos palcos se transformou em gerir negócios até a morte de Paschoal, de infarto, em 1949, com pouco mais de 60 anos de idade. Do teatro, Virginia contou ao neto que eles tinham saudade, mas se adaptaram rapidamente à sociedade de Miranda.

"Eles eram atores de comédia, mas uma comédia que não significava humor. Eram comédias da vida, dramas, mais nesta linha de altíssimo padrão", diz Oswaldo. 

Virginia morreu em 1985, aos 95 anos, lúcida e deixando a história falar por si só. "Eles eram artistas, revolucionários e o Uruguai vivia um certo tumulto naquela época. Com filho pequeno, eles acharam mais cômodo permanecer no Brasil, onde meu avô conseguia sustentar a família. Então, eles simplesmente optaram por abandonar a carreira artística e pelo que a minha avó conta, sem nenhum embate". 

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