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Campo Grande, Terça-feira, 18 de Setembro de 2018

18/04/2017 06:43

Foram 4 meses de idas ao asilo onde Luana ganhou o melhor dos abraços

Thailla Torres
A situação de asilado, muitas vezes está associada ao abandono familiar e, por que não, virar uma neta? Ou uma prima? Tia? Amiga! (Foto: Luana Alfonso)A situação de asilado, muitas vezes está associada ao abandono familiar e, por que não, virar uma neta? Ou uma prima? Tia? Amiga! (Foto: Luana Alfonso)

Luana Afonso tem 24 e veio de Minas Gerais realizar o sonho de cursar Jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Longe da segurança da família, foram quatro anos, crescendo e aprendendo com a vida.

Mas para fechar um ciclo e começar uma nova etapa, ela optou por narrar histórias de pessoas que muita gente já esqueceu. Na troca de experiências com idosos do Asilo São João Bosco, Luana viu um sentido para viver e na troca de olhares ganhou muito mais do que que capítulos para um livro.

Em quatro meses ela viu nas diferenças e maturidade um novo caminho que agora ela conta no Voz da Experiência.

A experiência poderia ter sido, basicamente, a vivência de um local como esse, mas eu tinha decidido que precisava conhecer mais quem eram aquelas pessoas."A experiência poderia ter sido, basicamente, a vivência de um local como esse, mas eu tinha decidido que precisava conhecer mais quem eram aquelas pessoas."

"A terceira idade é intrigante. Enquanto o senhor Francisco carrega arduamente o peso das próprias pernas, dona Maria sequer lembra quem ela é. Com certa curiosidade sobre as batalhas diárias de idosos, resolvi dedicar meu tempo e o tema do meu TCC para eternizar um pouquinho a história de alguns senhores do asilo São João Bosco. Principalmente para que aquela pessoa não seja só um dado do último censo do IBGE, que aponta o crescimento da população velha, mas que possamos saber quem é, o que fez e faz e o perfil de alguns, agora em situação asilar.

Foram 4 meses de visitas, divididas em algumas vezes por semana. Na primeira ida ao asilo, reparei nas barras de metal de apoio pelos corredores, nas paredes brancas e nos diversos senhores e senhoras sentados em cadeiras de rodas esperando o tempo passar entre uma refeição e outra.

A experiência poderia ter sido, basicamente, a vivência de um local como esse, mas eu tinha decidido que precisava conhecer mais quem eram aquelas pessoas. Após conversar com a assistente social, definimos quem seriam meus entrevistados, o critério era a lucidez. Para quem não sabe, poucos idosos no asilo São João Bosco ainda têm controle pleno sobre a mente.

“Boa tarde, senhor Crispim, o senhor poderia conversar comigo para uma entrevista de faculdade”, quanta formalidade! Mal sabia eu (e ele) que viraríamos amigos em tão pouco tempo. Sentamos para uma conversa.

Em alguns minutos eu já tinha ouvido ele falar sobre a casa da infância com teto de babaçu, sobre a juventude de trabalho em fazenda e sobre a contrariedade e solidão que o levaram a residir no asilo. Solidão essa que o acompanha sempre.

Acorda no mesmo horário, toma os mesmos remédios, vai direto pegar o café preto e senta sozinho no quintal da frente, onde fica por horas olhando o movimento da rua. A rotina se repete no turno da tarde. E no outro dia novamente. Crispim tem alguns ressentimentos e desentendimentos que cultivou nos anos de asilo, mas ele é um doce. Meu amigo. Quando vou ao asilo, ele é o primeiro que procuro para um abraço, para saber como foi o dia dele, mesmo que eu já saiba.

Depois que conclui a parte do trabalho com o Crispim, mas, vejam bem, não deixei de visita-lo por isso, fui andar um pouco mais pela ala masculina do asilo e encontrei três senhores risonhos jogando baralho. Em um primeiro momento, acanhada, passei direto por eles e, de longe, só observei. Dias depois resolvi que era a hora e precisava disto. Sentei e... Desafiei eles em uma partida de Pife.

Quando vou ao asilo, ele é o primeiro que procuro para um abraço, para saber como foi o dia dele, mesmo que eu já saiba. (Foto Luana Alfonso)Quando vou ao asilo, ele é o primeiro que procuro para um abraço, para saber como foi o dia dele, mesmo que eu já saiba. (Foto Luana Alfonso)

Logo avisei que era boa nas cartas, sem ressentimentos. Dali, não saí até o fim do horário de visitas. Jogamos muito, rimos muito e soube um pouquinho sobre cada um. Jorge: o viúvo malandro. Zé: o mineiro cheio de adereços. Ribeiro... Bom, após alguns meses de convivência com o senhor Ribeiro, ele teve um derrame e nunca mais foi o mesmo. Trocou sorrisos por olhares distantes.

As mãos, agora fracas, já não seguram mais tantas cartas de baralho, mas, mesmo assim, em uma visita, ele me reconheceu. Meu viu chegar perto e chamou o meu nome. Perguntei se estava bem, mas a saúde não permitiu responder. Nem tudo é bonito ou encantado lá dentro. Em um dia, histórias e risadas, noutros o idoso está indisposto e precisa ficar acamado.

Em 4 meses escrevi um livro-reportagem e fiz seis grandes amigos e amigas. Tudo porque me permiti conhecer. A situação de asilado, muitas vezes, está associada ao abandono familiar e, por que não, virar uma neta? Ou uma prima? Tia? Amiga! Para quem tem interesse, o asilo São João Bosco é aberto para visitas e novos projetos de apoio. Quem sabe os Jorges, Josés, Anas, Marias e tantos outros idosos possam viver um pouquinho mais, com suas lembranças, dentro de nós?

Tem uma experiência transformadora para contar? Manda pra gente no Facebook do Lado B.



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