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Comportamento

Gafes e prejuízos de quem sobrevive escrevendo placas de promoções nos mercados

Por Elverson Cardozo | 18/12/2013 06:37
Na profissão desde 88, Marcos já errou bastante, mas as gafes serviram de experiência. (Foto: Elverson Cardozo)
Na profissão desde 88, Marcos já errou bastante, mas as gafes serviram de experiência. (Foto: Elverson Cardozo)

“Atenção. Coloque a mão no saco para pegar o pão”. Na padaria, diante de um aviso como esse, o que você, homem, pensaria? Não responda. É melhor. A foto do recado inusitado, no mínimo indiscreto, é um desses registros absurdos que a gente vê circular no Facebook. Parece brincadeira. Neste caso, pode ser. Ninguém sabe. Na internet a gente encontra de tudo. No supermercado também. Acredite. Em Campo Grande, vire e mexe, algum cliente atento flagra pérolas desta natureza. Coitado dos “cartazistas”.

Na profissão há 25 anos, 15 deles dedicados a uma única empresa da Capital, Elias Antônio da Silva, de 48 anos, já passou por algumas saias justas. Nunca chegou a elaborar frases com duplo sentido, como o da “mão no saco”, mas já saiu no prejuízo.

Outro dia, por conta de um anúncio errado, ele teve de pagar a conta de um cliente. “Eu coloquei R$ 2,99 o quilo da cereja e o valor era por 100 gramas. O cara quis levar”, conta.

Oferecer a alface por quilo também já aconteceu, mas o gerente, na época, conseguiu contornar a situação, relembrou. Nem todo mundo cede. Muita gente, amparada pelo Código de Defesa do Consumidor, não quer saber se foi um erro, se o cartazista é gente ou robô. Não importa.

Na boca do caixa, qualquer diferença é lucro. “O mundo é assim. Um quer tirar vantagem do outro”, filosofa. A diferença de preço, na gôndola e no cartaz, é um erro clássico e de maior prejuízo entre esses profissionais, mas há outras “mancadas”. Assassinar o português é uma delas.

Até descobrir a grafia correta, Elias escrevia berinjela com G. Beneficente era outra palavra complicada. Ela teimava em registrar “beneficiente”, com “I”. Foi preciso um amigo alertá-lo.

Depois disso, Elias, que estudou só tem o ensino fundamental completo, resolveu pesquisar. Hoje ele anda com um dicionário e, sempre que tem uma dúvida, faz uma consulta rápida.

Com as promoções de final de ano, cartazes são trocados com frequência. Erros podem aparecer. (Foto: Elverson Cardozo)
Com as promoções de final de ano, cartazes são trocados com frequência. Erros podem aparecer. (Foto: Elverson Cardozo)

“Tem que ter um pouco de noção, senão você escreve exceto com S”, comentou. “Tem palavras que são complicadas”, acrescentou. O amigo de ofício, Marcos Lopes Netos, de 41 anos, sabe bem o que é isso. Na profissão desde 88, ele também possui um “portfólio” de erros. Nada que seja crime. “Escrevi uma vez, em uma parede bem grande: “Brail Central”. Era Brasil Central. Tive que refazer tudo”, contou.

Em cartazes de promoção Marcos também já errou. Ele sabe que dá problema, por isso, dobra a atenção. Apesar das dores de cabeça, os erros serviram de ensinamento. Os anos de experiência mostram que, por mais que estejam agindo dentro da legislação, alguns clientes, inflexíveis, gostam de sair ganhando.

“Se o produto está 0,99 centavos no cartaz e 0,89 na gôndola, as pessoas vão enxergar o mais barato. Agora, se for ao contrário, vão querer pagar pelo preço do cartaz. Isso é tirar vantagem”, disse.

A vingança - Para os cartazistas, quando a desatenção reflete no bolso é sempre pior, mas, em épocas de comunicação instantânea, a vingança por parte dos consumidores vem, muitas vezes, de outra forma, geralmente em registros fotográficos.

Registro da "promoção" postada pela publicitária Thaís Munhoz. (Foto: Reprodução/Facebook)
Registro da "promoção" postada pela publicitária Thaís Munhoz. (Foto: Reprodução/Facebook)

Na semana passada, a publicitária Thaís Munhoz, ao ver um erro em um cartaz, não pensou duas vezes e compartilhou a gafe no Facebook, citando o nome do hipermercado.

Na gôndola, o sabonete líquido foi anunciado por R$ 5,25, mas, no panfleto colado abaixo, o mesmo produto aparecia na “promoção” por R$ 5,99. “Tirei a foto porque achei a situação engraçada. A gente nunca espera encontrar essas gafes em supermercado. [...] Já vi na internet, mas nunca tinha presenciado uma”, afirmou.

A desatenção, diz ela, é o grande problema, mas, às vezes, é falta de conhecimento mesmo. “O pior é que isso é fácil de resolver, com uma pesquisa rápida na internet”, sugeriu.

Para a jovem, essas “pérolas” incomodam. Se for por causa do preço, justificou, não dá para saber o real valor do produto. “Dependendo da gafe, me sinto enganada como, por exemplo, anunciar na promoção um produto por R$ 3,99 e ver que antes ele custava R$ 3,25”.

Sim, a raiva é praticamente inevitável, mas, em alguns casos, a compreensão e o bom senso podem aplacar o furor. Não fosse a observação do colega, Marcos Lopes iria desejar, dia desses, um “Própero ano novo” - sem o “S” – a todos os clientes do supermercado onde trabalha.  Acontece. O que vale é a intenção. Herrar é umano.

Placas publicadas no Facebook dizem tudo.
Placas publicadas no Facebook dizem tudo.
Gafes e prejuízos de quem sobrevive escrevendo placas de promoções nos mercados
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