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Comportamento

Jacinto acreditou na vacina até o fim, mas não sobreviveu para tomá-la

Jacinto era de Douradina, teve três filhos e trabalhava como auditor no Tribunal de Contas

Por Letícia Ávila | 11/03/2021 06:25
Jacinto não tinha um fio de cabelo branco, mesmo aos 70 anos, o que lhe rendeu o apelido de "gurizinho" (Foto: Arquivo Pessoal)
Jacinto não tinha um fio de cabelo branco, mesmo aos 70 anos, o que lhe rendeu o apelido de "gurizinho" (Foto: Arquivo Pessoal)

Luiz Jacinto do Nascimento, o vovô Jacinto, era conhecido como “gurizinho” por algumas pessoas. Ele não gostava do apelido, gostava era de colocar apelido em todo mundo nos 70 anos que viveu neste mundo. O da filha Alice era Popó, dos netinhos, Eros e Enzo, era Fumico e Polaco. Por trás de cada apelido tinha uma história. “O Fumigo era porque ele nasceu parecendo uma formiguinha, com o cabelo e os olhos pretinhos, e o Polaco porque era muito branquinho. O meu era de uma bonequinha antiga, que eu gostava”, conta Alice.

Quem via o senhor Jacinto na rua jamais daria os 70 anos de idade que ele tinha. O apelido de Gurizinho veio justamente daí, pois ele não tinha um cabelo branco. Solteiro e com os três filhos criados, gostava de andar na nave, o Honda Civic xodó do Jacinto. “Meu pai gostava de sair para passear na nave, mas com a Covid, resolveu ficar em casa porque sabia que era muito perigoso”.

Ele amava dar passeios em seu carro, que carinhosamente batizou de "nave" (Foto: Arquivo Pessoal)
Ele amava dar passeios em seu carro, que carinhosamente batizou de "nave" (Foto: Arquivo Pessoal)

Se muitos idosos hoje em dia ficam receosos com a vacina, Jacinto tinha era muita fé na ciência. “Meu pai sonhava com a vacina. Ele dizia que quando ela chegasse, ele queria ser o primeiro a tomar. Ele tinha tanta fé na vacina e eu não, tinha dúvida. Ele falava que não, que a gente não podia bobear porque ele queria viver”, relembra Alice.

As coisas com Jacinto eram 8 ou 80, pois o que era certo, era certo, e o que era errado, era errado. A personalidade meio turrona foi herdada pelo Polaco, o Enzo, de 11 anos. O netinho mais novo, Fumico, de apenas um ano e sete meses, tinha um amor tão grande que chegou até na primeira palavra do Fumigo: vovô.

“Quando eu fiz o chá de revelação, meu pai queria muito uma menininha, mas eu queria um menino. Quando o Eros nasceu, ele dizia: nossa, não tem neném mais bonito que o meu Fumigo!”.

Apesar do apelido Popó, os dois eram mesmo Pop Pai e Pop Filha, a dupla dinâmica inspirada no pai e filho do desenho animado Bibo Pai & Bibo Filho. “Meu pai era uma figura. Era muito bondoso e ao mesmo tempo que se irritava fácil e não tinha paciência, se acalmava muito rápido porque não era orgulhoso”.

Jacinto e seu netinho Eros, mais conhecido como "Fumigo", pelos cabelinhos e olhinhos pretos (Foto: Arquivo Pessoal)
Jacinto e seu netinho Eros, mais conhecido como "Fumigo", pelos cabelinhos e olhinhos pretos (Foto: Arquivo Pessoal)
Jacinto queria uma menina, mas morreu de amores quando seu netinho Fumigo nasceu (Foto: Arquivo Pessoal)
Jacinto queria uma menina, mas morreu de amores quando seu netinho Fumigo nasceu (Foto: Arquivo Pessoal)

Seu Jacinto tinha um coração do tamanho do mundo. Apesar do jeito meio explosivo, perdoava rápido e logo esquecia quem tinha lhe feito alguma coisa. Seu jeito leve de levar a vida era tão presente que ele até mesmo virou amigo do novo marido de sua mulher. “Quando minha mãe e ele se divorciaram, ela foi viver com outro homem. Meu pai no começo queria matar ele, mas logo perdoou e ainda por cima, os dois viraram melhores amigos”, conta Alice.

Quando o padrasto de Alice teve um problema no coração, vocês acreditam que quem cuidou dele foi logo o Seu Jacinto?! “Meu pai não só foi ajudá-lo no hospital como também o acalmava, dizendo que não seria nada”. O padrasto de Alice, Wolfei Nogueira, sobreviveu ao problema de saúde, e seguiram grandes amigos.

“Meu pai contraiu a Covid e foi internado dia 3 de dezembro. Meu padrasto ficou muito preocupado com ele”. Infelizmente Wolfei também contraiu a Covid, e assim que foi internado, não resistiu à seriedade da doença. Wolfei morreu dia 12 de dezembro de 2020. Seu Jacinto ficou internado 26 dias até ser levado por uma parada cardíaca, no dia 29 de dezembro.

“Agora tá chegando a época dele tomar a vacina… Ele tinha certeza que tomaria, nossa, como ele tinha certeza da vacina!” Se até então Alice tinha dúvida, hoje ela também tem a certeza de que a vacina salva vidas.

“Se você quiser, eu mando até o boletim médico dele, para as pessoas saberem que precisam se vacinar. Estão aglomerando, indo para festas, não querem respeitar o decreto, e inclusive passam a doença para as pessoas que amam. Meu bichinho não conseguiu esperar a vacina dele…” conta Alice, com uma tristeza de só quem perdeu alguém que ama pela covid pode entender.

Jacinto com seu neto Enzo e sua filha Alice, para quem ele era seu melhor amigo (Foto: Arquivo Pessoal)
Jacinto com seu neto Enzo e sua filha Alice, para quem ele era seu melhor amigo (Foto: Arquivo Pessoal)

“Meu pai era meu confidente, meu melhor amigo. A gente conversava sobre qualquer coisa, qualquer coisa mesmo”. Jacinto era um baixinho ligeiro, que mesmo com as filhas crescidas, mandava até pão se elas precisavam e aparecia pra tomar café e conversar.

Jacinto era de Douradina, teve três filhos e trabalhava como auditor no Tribunal de Contas da 5° Inspetoria. Ele era tão simpático que, como conta a Alice, “conversava com desde o cara que estava varrendo a rua, até o presidente do Tribunal”.

“Ele dizia que tudo nessa vida é passageiro, e que por isso, a gente não podia tratar mal ninguém. Eu lembro como se fosse ele falando agora; a frase que mais falava era que o plantio é livre, mas a colheita é obrigatória. Meu pai sempre falava isso”.

Alice tinha acabado de arrancar o dente quando conversou comigo. Antes de perder o pai, ela morria de medo de dentista, de ter que sentir dor, mas agora, arrancou o dente e nem sentiu. “A dor da perda era maior”, disse, lembrando sempre da frase de seu pai de que “dor é passageira”.

Pop Pai e Pop Filha, como Alice e seu pai Jacinto eram conhecidos: uma dupla inseparável (Foto: Arquivo Pessoal)
Pop Pai e Pop Filha, como Alice e seu pai Jacinto eram conhecidos: uma dupla inseparável (Foto: Arquivo Pessoal)

A Covid-19 não poupa nossos amores, nossas famílias, nossas amizades e nem mesmo nossos pais. O sentimento de frustração era muito grande para lidar, vindo com o luto. “Eu fiquei muito chateada por ele ter morrido”.

Ela começou a fazer terapia, que está lhe fazendo tão bem que decidiu virar terapeuta. “Estou aprendendo que a matéria acaba, mas o espírito é eterno. Temos que entender que todo mundo tem um tempo na Terra, assim como ele dizia”.

“Meu passarinho voou”, ela reflete. O que fica de quem partiu? De seu Jacinto, fica a saudade e o amor eterno.

Evangélico fervoroso, ele sempre dizia “honra teu pai e tua mãe para que prolongue teus dias na Terra”. “Abraça seu pai”, ela falou pra mim, e é a frase que eu também dedico pra vocês.

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