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Comportamento

Libélulas estão por toda parte e uma delas carrega o nome de Zielma

Fascínio da bióloga virou pesquisa, coleção, tatuagem de família e até batismo científico de uma espécie

Por Amanda Ferreira | 13/09/2026 07:25
Libélulas estão por toda parte e uma delas carrega o nome de Zielma
Alguns itens que Zielma tem que ela ganhou de amigos, alunos e famíliares (Foto: Amanda Ferreira)

Tem libélula na roupa, na toalha, nos quadros, nos presentes, na tatuagem da filha e até no nome científico de uma espécie. O que começou como tema de pesquisa virou parte da vida da professora e bióloga Zielma de Andrade Lopes, de 54 anos.

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A bióloga e professora Zielma de Andrade Lopes, de 54 anos, transformou sua paixão por libélulas em uma marca de vida. Fascinada pelo inseto desde 1984, ela carrega o tema em roupas, quadros e objetos. Em 2015, recebeu a maior homenagem: uma espécie foi batizada como Oxyagrion zielmae em sua honra, embora o exemplar tenha sido perdido no incêndio do Museu Nacional, em 2018.

Fascinada pelo inseto desde 1984, no início da carreira, ela levou as libélulas para o mestrado e nunca mais se afastou delas. Ao longo dos anos, ganhou exemplares vivos e mortos, homenagens de alunos e objetos de todo tipo. A coleção afetiva cresceu tanto que chegou à própria família e também à ciência, com uma libélula batizada em sua homenagem e registrada oficialmente.

A paixão pelas libélulas começou quase por acaso, no fim da graduação em Biologia. No último ano do curso, enquanto fazia o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) com anfíbios, ela começou um estágio no Pantanal e passou a ajudar um professor da área de invertebrados nas coletas de campo. Foi ali que o inseto, até então apenas mais um entre tantos que estudava, começou a ganhar outro espaço na vida dela.

“Eu comecei a conhecer a biologia das libélulas, como era o habitat, a interação delas com a natureza e a importância delas dentro da ecologia. Então, aí eu comecei a me apaixonar por elas”, conta. Com o tempo, Zielma também passou a observar como a presença das libélulas ajuda a contar a história dos ambientes onde vivem.

Libélulas estão por toda parte e uma delas carrega o nome de Zielma
Objetos com libélulas vieram de diferentes partes do mundo, como México, países da África, Uruguai, Chile e Argentina (Foto: Amanda Ferreira)

Segundo ela, por muitos anos, as libélulas foram associadas principalmente a locais bem preservados e com equilíbrio ambiental. Hoje, os estudos mostram que o cenário é mais complexo. “Existem algumas libélulas que ficam em locais que mostram justamente o contrário, que estão em desequilíbrio. Mas, em geral, elas são associadas a lugares onde a natureza está conservada”, explica.

Libélulas estão por toda parte e uma delas carrega o nome de Zielma
Mesa reúne alguns dos itens com libélulas da bióloga (Foto: Amanda Ferreira)

O vínculo ganhou um novo capítulo anos depois, quando o professor com quem ela havia trabalhado encontrou uma libélula ainda não descrita pela ciência. Taxonomista, ele iniciou o processo de classificação da espécie e decidiu batizá-la em homenagem a Zielma. O inseto foi incluído no gênero Oxyagrion e recebeu o nome científico inspirado no nome da bióloga: Oxyagrion zielmae.

A espécie também combina, segundo Zielma, com a própria personalidade. A libélula pertence ao grupo das mais finas e delicadas, diferente daquelas de corpo mais robusto, que costumam ser mais conhecidas pelo público. “Ela é bem vermelhinha, bem fininha, bem delicada. Inclusive, ele falava assim: ‘Zi, parece você, superdelicadinha’, porque ela é bem delicadinha.” O exemplar foi encontrado na região de Camapuã, em uma área preservada.

Libélulas estão por toda parte e uma delas carrega o nome de Zielma
Primeiro e segundo quadro são feitos pela filha artista visual de Zielma, Ellie Irineu (Foto: Amanda Ferreira)

O material usado para a identificação da espécie foi depositado no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Anos depois, porém, veio uma notícia triste: o exemplar estava entre o acervo perdido no incêndio que atingiu a instituição em 2018. Zielma ainda mantém a esperança de que novos indivíduos sejam encontrados. “Espero que ainda façam outras coletas e ela seja encontrada na natureza”, diz.

A notícia chegou como presente de Natal, em 2015, e virou motivo de brincadeira na família. “Meus cunhados ficaram falando: ‘Poxa, cunhada, todo mundo chega aqui com uma joia, uma bolsa, um sapato, e você ganha uma espécie’”, lembra. Para Zielma, porém, nenhum presente poderia competir. “Foi o melhor presente de todos, porque é um presente para a eternidade.”

Libélulas em todos os lugares – Depois disso, a paixão só aumentou. Hoje, as libélulas aparecem por toda parte na vida de Zielma, de roupas e acessórios a quadros, toalhas, objetos de decoração, pratos, talheres, xícaras, canecas, esculturas, artesanatos e joias. Entre os quadros, uma das filhas, que é artista, pintou alguns.

Libélulas estão por toda parte e uma delas carrega o nome de Zielma
Da esquerda para a direita, tatuagem de Beatriz Irineu, filha do meio de Zielma, e de Thaís Lopes, aluna da bióloga, com homenagem à libélula e uma frase da professora(Foto: Amanda Ferreira)

“Aqui praticamente virou a casa das libélulas, porque tudo tem um toquezinho de libélula. Tudo que eu vejo que remete a libélula eu acabo não resistindo. Tento não fazer uma casa tipo casa de Papai Noel, tento me segurar, mas acabo não resistindo”, brinca.

A paixão também passou para as filhas. Uma delas decidiu fazer a primeira tatuagem justamente com uma grande libélula no braço, em homenagem aos pais e à relação da família com o inseto. “Ela acabou herdando essa paixão pela libélula e me acompanha em adorar tudo que é libélula”, conta. O vínculo também passa pela trajetória do pai da jovem, que pesquisava o mesmo grupo de insetos e se tornou referência na área.

Libélulas estão por toda parte e uma delas carrega o nome de Zielma
Libélula batizada em homenagem a Zielma se assemelha à espécie mostrada na imagem (Foto: Reprodução)

Mesmo depois de tantos anos, Zielma garante que não há espaço para enjoar. No mestrado, ela própria estudou a distribuição das libélulas na Bacia do Alto Paraguai, trabalho que depois serviu de referência para outras pesquisas.

Hoje, continua em contato com pesquisadores da área e lembra que identificar uma espécie exige atenção a detalhes mínimos. “Às vezes são pequenas estruturas do aparelho reprodutor ou pequenas nervuras nas asas que diferenciam uma da outra. É um estudo muito específico. Então, é difícil até enjoar de tão específico que ele é”, finaliza.