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Comportamento

Líder indígena, Catarina recebe título honoris causa aos 73 anos

Artesã recebeu o título em solenidade na noite desta segunda-feira (27), no Teatro Glauce Rocha

Por Idaicy Solano | 29/11/2023 07:22
Catarina Guató, homenageada com o título de doutora honoris causa na UFMS, em solenidade nesta segunda-feira (27) (Foto: Arquivo/Augusto Dauster)
Catarina Guató, homenageada com o título de doutora honoris causa na UFMS, em solenidade nesta segunda-feira (27) (Foto: Arquivo/Augusto Dauster)

Catarina Guató, artesã indígena, vencedora da 35ª edição do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), recebeu o título de doutora honoris causa, pela UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul), em solenidade na noite desta segunda-feira (27), no Teatro Glauce Rocha.

A entrega do título foi feita para personalidade de destaque em direitos humanos, no fortalecimento da identidade sul-mato-grossense e no desenvolvimento do setor industrial de Mato Grosso do Sul.

Mulher canoeira e artesã, Catarina é um símbolo de força, resistência e luta. Catarina é uma das poucas mulheres difusoras do artesanato com o aguapé, uma planta aquática da região. A prática é uma tradição dos indígenas da etnia guató.

Em discurso, a artesã agradeceu a Deus, família, e a todas as pessoas importantes, que de alguma forma marcaram sua trajetória até este momento importante em sua vida. Catarina aproveitou para pedir respeito à natureza e aos povos originários.

Quero fazer um pedido a vocês, homens e mulheres de letras e ciência, às autoridades do nosso Brasil e aos jovens: Olhem, respeitem e cuidem do nosso Pantanal, dos rios Paraguai, Taquari, São Lourenço, das baías e dos corixos!

Respeitem e cuidem dos animais, das onças, do tuiuiú, dos biguás, de todos os bichos; das plantas, dos carandás e paratudos, dos aguapés; mas olhem, cuidem e respeitem também o ser humano, especialmente o meu povo Guató, que vive lá, desde que Deus criou o Pantanal”.

Além de Catarina, foram homenageados o juiz aposentado e fundador do Instituto Luther King, Aleixo Paraguassu, e o líder do setor industrial Sérgio Longen.

Luto - Catarina veio pela primeira vez para Campo Grande por ordem do marido. Durante a cerimônia, relembrou que a viagem custou a vida do filho Ananias, de apenas 1 ano e sete meses. “Nunca tinha saído do Pantanal, tive de pegar meu filho e embarcar no trem para Campo Grande. Eu não sabia nada, nem falar direito, não tinha conhecidos aqui, não tinha dinheiro, eu e meu nenê passamos fome, pegamos sol e chuva, vento frio e, assim, perdi meu filhinho”.

Superação - Durante a solenidade, Catarina agradeceu à sogra, Josefina, mulher responsável por ajudar a artesã a quebrar o ciclo de violência sofrida pelo marido, filho de Josefina. “Ela me deu força pra eu me libertar da violência doméstica e me tornar uma mulher independente. Foi graças à Josefina que aprendi a arte do trançado de Aguapé que me levou para tantos lugares, que deu espaço para eu poder falar para tantas pessoas sobre a cultura do meu povo Guató. Foi essa arte que me trouxe até aqui”.

Trajetória - Antes de caminhar até o palco do teatro para receber a merecida homenagem, Catarina trilhou uma trajetória de dificuldades, luta e superação da violência sofrida pelo ex-marido.

Aos sete anos, a artesã deixou os estudos, em uma escola no destacamento do Exército no Pantanal. Catarina chegava atrasada nas aulas para ajudar a mãe, pescadora, e por conta disso, era castigada com palmatória. Para não sofrer mais no regime autoritário da escola, abriu mão de estudar. Aprendeu a ler quando já era mulher feita e mãe dos sete filhos.

A artesã sofreu nas mãos do marido, que se tornou cruel ao se tornar dependente de bebidas alcoólicas. Quebrou o ciclo de violência com ajuda da sogra, que lhe encorajou a deixar o marido. “Ele me batia muito, me humilhava, me explorava. Me colocava para trabalhar e fazer tarefas difíceis".

Pelas mãos de Catarina, tradição se tranforma em cestas e bolsas (Foto: Arquivo/Campo Grande News)
Pelas mãos de Catarina, tradição se tranforma em cestas e bolsas (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

Depois de muitos anos, a artesã teve seu trabalho reconhecido fora do Pantanal, após ganhar uma reportagem em uma revista de renome. Catarina também colaborou em um projeto de cursos para comunidades do Pantanal, Porto da Manga e Porto Esperança. Em seguida, foi convidada para trabalhar em um projeto no Moinho Cultural,

Em 2015, ao lado da juíza federal Raquel Domingues, participou do Projeto Expedição da Cidadania da Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil). O projeto percorreu de Ladário até Cáceres, levando cidadania e as oficinas de trançado de Aguapé para as crianças e mulheres das comunidades.

Durante a expedição, foi fundada a Associação Renascer das Mulheres Artesãs da Barra do São Lourenço, em parceria com a ECOA. “A ECOA ajudou a associação a ganhar máquinas, usina de 12 energia solar e um barco. Hoje elas também já ganham um dinheirinho com a arte do trançado de Aguapé”, relembra a artesã.

Em 2022, Catarina recebeu o prêmio do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), ficando em primeiro lugar na categoria “Pessoas Físicas”, com o projeto “Sabedorias Compartilhadas/Corumbá (MS)”.

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