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Comportamento

Motociclistas viajam 312 km para animar veterano da 2ª Guerra

Justino estava cabisbaixo por conta do isolamento, mas ao ver as visitas, colocou o uniforme e mostrou as medalhas no peito

Por Alana Portela | 14/07/2020 06:49
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Os motociclistas do Germanus MCLE (Moto Clube Law Enforcement) encararam 312 quilômetros no último fim de semana, para homenagear Justino Pires de Arruda, que participou da Segunda Guerra Mundial, na década de 40. De Campo Grande, eles pilotaram até Ponta Porã, onde levantaram o astral do veterano, que estava meio cabisbaixo por conta do isolamento social causado pela pandemia do coronavírus.

“Conversando com os familiares, disseram que ficaria feliz. Devido à pandemia, ele não está recebendo visitas, por isso, estavam bem pra baixo. Então, nos deslocamos até lá”, conta o Policial Militar, Ivan Souza de Andrade de 39 anos.

Ele é o presidente regional grupo e relata que o clube foi criado para homenagear os veteranos da FEB (Força Expedicionária Brasileira). “ Germanus significa irmão. O intuito da criação é levar adiante a história dos veteranos de guerra, que lutaram pelo Brasil na Itália, contra os nazistas durante a 2ª Guerra Mundial. Essa batalha foi travada na cidade de Montese”, lembra.

As motos dos integrantes do Germanus MCLE (Moto Clube Law Enforcement) estacionadas em Ponta Porã. (Foto: Arquivo pessoal)
As motos dos integrantes do Germanus MCLE (Moto Clube Law Enforcement) estacionadas em Ponta Porã. (Foto: Arquivo pessoal)

“Infelizmente, os brasileiros não têm a cultura de cultuar seus feitos históricos. Muitos já ouviram falar dos [soldados] boinas azuis, pracinhas, mas não sabem da história, nem como aconteceu. Se não tivermos quem, alguém ou um grupo para falar, esse histórico poderá cair no esquecimento, pelo fato dos veteranos vivos terem em média de 90 a 105 anos”.

E justamente por saber da importância desses guerreiros, que o grupo quer manter a história viva. O clube é formado por profissionais das forças de segurança e tem membro da Polícia Militar, Corpo de Bombeiros Militar, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Civil, Exército Brasileiro, Guarda Municipal e até Ministério Público do Estado.

Trajado e com as medalhas no peito, Justino Pires de Arruda cumprimenta os visitantes. (Foto: Arquivo pessoal)
Trajado e com as medalhas no peito, Justino Pires de Arruda cumprimenta os visitantes. (Foto: Arquivo pessoal)

Justino tem 100 anos e afirma que é lúcido de tudo. Animado, ele fala sobre o orgulho que sente por ter lutado na segunda guerra. “Tinha 21 anos quando fui convocado, em 1942. Lembro que muitos colegas fugiram para o Paraguai porque ficaram com medo de ir”.

Na época, ele prestava serviço militar no 11º Regimento de Cavalaria Mecanizado de Ponta Porã. “Saí daqui e fomos para São Paulo. De lá, pegamos um navio até o Rio de Janeiro. Quando chegamos na Itália, fomos substituir os americanos na linha de frente da defesa dos italianos, onde ficamos por três meses”, recorda.

O combate foi intenso e Justino jura que foi atingido pelo adversário, mas escapou da morte. “Jogaram uma granada, ela acertou minha cabeça e furou o capacete. A sorte que só me causou arranhões, mas vi muitos companheiros morrerem por lá”.

Hoje, oito décadas depois do conflito, ele guarda várias medalhas por ter representado o Brasil na guerra. “Tenho umas dez, tem medalha de campanha, outra de guerra, medalha da vitória e até de bravura”.

Justino ficou em pé para receber a homenagem. (Foto: Arquivo pessoal)
Justino ficou em pé para receber a homenagem. (Foto: Arquivo pessoal)

Os anos se passaram, mas ele destaca que não gostaria que sua história caísse no esquecimento. Ainda declara que estava meio chateado pelo isolamento, mas ao ver os rapazes do clube em frente ao portão de sua casa, se animou. Vestiu o uniforme e colocou as medalhas no peito. Apoiando-se na bengala, ficou em pé para agradecer pelo carinho.

Por questão de segurança, todos usaram máscara de proteção e mantiveram a distância segura do veterano. Na varanda, os 28 integrantes do clube fizeram uma homenagem, cantando a Canção do Expedicionário para Justino. “Gostei muito, foi um prazer vê-los aqui, me dando valor. Me agradeceram e bateram continência, dando-me parabéns por tudo”, diz Justino.

O genro, Gilberto Lopez viu tudo de perto e comenta que conhece Justino há 40 anos. “É um orgulho tê-lo na família. Mora com minha família há 20 anos e sempre foi tranquilo, vivemos em harmonia”.

Gilberto tem 64 anos, é aposentado e relata que já ouviu muitas histórias de guerra contada pelo sogro. “São tantas. De uns anos pra cá, começou a desfilar no quartel e até escreveram um livro sobre ele”.

A homenagem durou cerca de uma hora e em seguida, os integrantes do moto clube retornavam para Campo Grande.

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