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Comportamento

Na ausência do pai, mãe cria "Dia das Meninas" para celebrar o amor

Dia das Meninas foi a maneira sensível e amorosa de comemorar a data entre mãe e filha que Mariana encontrou

Por Paula Maciulevicius Brasil | 09/08/2020 07:38

Dia dos Pais. Coluna das mães. Ainda estava perdida sobre o que escrever hoje, quando uma amiga me chama no Whats. A Mariana Castelar é jornalista, mãe da Helena, e de longe uma das mulheres mais incríveis que eu conheço. No "Oi" dela, lembrei que o segundo domingo do mês de agosto é especial para aquelas duas e pedi então que ela relatasse, para acolher as mães que também são pais e não sabem como reagir diante do choro dos filhos. Mari, que você inspire outras mães como faz com a nossa família. Abaixo, o texto dela:

Depois de quase dez anos em São Paulo, optei em voltar pra Campo Grande. Helena estava com cinco anos e há pouco mais de dois e eu tinha me separado do pai dela. Nossa vinda aconteceu em meados de julho de 2015 e era tanta novidade: escola, passeios, amiguinhos, família, que aquele dia dos pais passou batido pra ela.  

No ano seguinte, maior, já ambientada e entendendo a questão das comemorações (das quais, eu particularmente sempre achei péssimas porque grande parte dos professores e das escolas lidam como se todas as crianças tivessem pais e mães), ligou para o pai logo após o Dia das Mães falando sobre sua apresentação e perguntando se ele viria  em agosto para vê-la. Ele disse que sim. Dali em diante, ela falava pra todo mundo que o pai viria. Falou para os professores, amiguinhos da escola, meus amigos, e até pra pessoa na rua que ela nem conhecia. Não parava de perguntar quantos dias faltavam para ver o pai, que em toda ligação confirmava que viria. 

Dia das Meninas 2019 - Como sempre falam: "ao infinito e além uma para outra", Mariana encomendou uma alpargata com desenhos do universo para as duas. (Foto: Arquivo Pessoal)
Dia das Meninas 2019 - Como sempre falam: "ao infinito e além uma para outra", Mariana encomendou uma alpargata com desenhos do universo para as duas. (Foto: Arquivo Pessoal)

Os meses passaram e na quarta-feira, véspera do Dia dos Pais, Helena, não se aguentando de ansiedade, pediu para ligar pro pai. Ao atender ela perguntou que horas ele chegaria, que ela já tinha falado pra todo mundo e no meio da conversa ele pediu pra falar comigo. Quando atendi, ele perguntou se eu teria como ajudá-lo na passagem pra ele vir. Fiquei desesperada ao saber que ele nem tinha comprado a passagem e que estava perguntando aquilo só agora, mas me contive pra evitar uma briga. Falei que não tinha como ajudar porque estava recomeçando em outro Estado, que os gastos eram grandes e que ele não ajudava financeiramente com R$1 há quase um ano. Ele, disse que então não viria e que era para eu comunicar a Helena porque a culpa era minha, já que eu tinha mudado de cidade e não quis ajudar nem ser parceira. 

Lembro que desliguei o telefone, entrei no banheiro, fechei a porta, coloquei a toalha na boca e gritei. Gritei de ódio, de revolta, de frustração e de desespero. Como falaria aquilo pra ela? Pelo histórico e ausência dele, eu sabia que isso era possível, mas não imaginaria que ele iria tão longe. Fiquei ali alguns minutos, ela me chamou em seguida, lavei o rosto e sai como se estivesse tudo bem. 

No dia seguinte, mais firme, liguei para o pai dela, disse verdades que precisavam ser ditas e exigi que ele se responsabilizasse pelos seus atos, ligasse e contasse a Helena. Naquela noite quando o telefone tocou ela correu pra atender e eu pro banheiro já pra lavar o rosto que já tava todo inchado. Quando atendeu, ela começou a falar sem parar. Perguntava toda feliz se ele já tinha chegado, quantos dias ia ficar, que ela ia apresentar ele pra todo mundo da escola.... Mas de repente ela foi se calando, o sorriso foi indo embora, os olhos se encheram, ela bateu telefone no gancho e foi para o quarto chorando muito dizendo que odiava o pai dela.  

Bolo e os docinhos do Dia das Meninas de 2018. (Foto: Arquivo Pessoal)
Bolo e os docinhos do Dia das Meninas de 2018. (Foto: Arquivo Pessoal)

Até hoje sinto um aperto no meu coração e uma vontade de chorar quando lembro desse dia.  Helena estava com 6 anos, uma idade que lembra das coisas. Sabia que aquela era a primeira de muitas frustrações que minha filha teria com o pai. Cheguei no quarto tentando amenizar a situação. Disse que era por conta do trabalho, que ele não havia se programado, mas ela só chorava e falava que ele a tinha enganado, que podia ter falado antes, que ele nunca se programava pra nada dela, que os amiguinhos iam achar que ela era mentirosa, que não tinha pai, que não ia ter ninguém pra vê-la dançando. Eu a coloquei no meu colo e ela me abraçou forte. Por fora eu estava firme, mas por dentro completamente destruída em vê-la daquele jeito.  

Minutos depois Helena me olha e pergunta se podia chamar o tio Carlos (nome fictício) de pai. Minha voz embargou, porque sabia onde essa conversa chegaria. Perguntei por qual motivo, e ela disse que se o pudesse chamar assim, poderia apresentá-lo para os amigos na sua apresentação. Lembro até hoje daqueles olhos de jabuticaba inchados e tristes. Expliquei a ela que não seria legal ela substituir uma pessoa. Que ela precisava entender que muita gente não tinha pai, outros não tinham mães, outros não tinham os dois....

Naquela hora lembrei de mim, da minha infância. Perdi meu pai aos dez anos, e desde então o Dia dos Pais era uma data muito triste pra mim. Lembro da minha mãe tentando amenizar aquilo tudo, mas sempre era muito triste. Ela não tinha perdido, mas a ausência era tanto quanto. Foi aí que tive uma ideia. 

- Filha, já sei! Eu entendo a sua dor de verdade. Como você sabe, a mamãe perdeu o vovô quando era um pouco maior do que você e, desde então, essa data foi muito triste. Nem você, nem eu nem ninguém precisa provar nada para os outros. Sei que você ensaiou pra apresentar, mas pra que ir lá se você não quer?A gente não precisa passar essa data de forma triste. E se a gente criasse neste dia o Dia das Meninas? Seria o nosso dia e comemoraríamos da forma que a gente quisesse: indo ao cinema, comendo bobeira, passeando ou não fazendo nada. O que acha?

- Mãe, eu posso fazer uma lista de coisas pra gente fazer nesse dia?  

- Pode! A gente vai poder fazer o que quiser.

Ela enxugou o rosto e começou a planejar tudo. Na sexta à noite fomos na casa de uma amiguinha pra ela brincar. No domingo fizemos um acampamento na sala, fomos ao cinema, comemos pipoca, chocolate, brincamos no parquinho e voltamos pra casa ainda a tempo de ver um filminho debaixo da coberta. 

Desde então o segundo domingo de agosto é o nosso dia. O dia de lembrarmos que, independente do tempo, de pessoas e de qualquer outra situação temos uma a outra sempre, e isso é o mais importante!  

Neste ano, Helena está com 10. O pai é cada vez mais ausente. Pouco fala no whats e não a vê há cerca de um ano e meio. Essa semana ela me perguntou quando era o Dia dos Pais, disse a ela, que me respondeu:

- Vou mandar uma mensagem de Dia dos Pais para o meu pai porque quero mostrar a ele que eu tô fazendo a minha parte, e porque você me ensinou assim. Ele nunca participa de nada, não fala nada. Eu sei também que a gente tá no caminho certo e tá tudo bem. A gente é muito feliz e isso que importa.

Assim como eu, há muitas mães por aí que são julgadas por homens e, principalmente mulheres. Mães, não se culpem achando que você poderia ter escolhido um pai melhor. A escolha foi dele em não participar, e entenda que só ele que tem a perder. Não aceitem qualquer julgamento ou comentários machistas porque essas e tantas outras pessoas que apontam o dedo nunca vão te ligar perguntando se seu filho, sua filha ou se você precisa de alguma coisa (um colo pra chorar que seja). Eu sei! Dá medo, cansa, tem horas que é frustrante, desesperador, parece que a gente não vai conseguir, mas acredite porque você é capaz de criar uma pessoinha incrível e lá na frente ela será grata por tudo que fez a ela <3

Feliz "Dia das Meninas" para todas as mães. Obrigada, Mari, por contar sua história. Tem uma sugestão para o próximo domingo? Me mande por e-mail: paulamaciulevicius@gmail.com.