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Comportamento

Na Dom Aquino, o guardador de carros faz crochê, ensina e ainda aceita encomenda

Por Paula Maciulevicius | 08/11/2013 06:23
Entre uma vaga e outra, o cuidador ainda dá dicas de como fazer o 'bico' do pano de prato às mulheres que perguntam. (Fotos: Marcos Ermínio)
Entre uma vaga e outra, o cuidador ainda dá dicas de como fazer o 'bico' do pano de prato às mulheres que perguntam. (Fotos: Marcos Ermínio)

A gente que adora conversar, ouvir histórias e depois conta-las volta e meia se apresenta às personagens que estão pelas ruas de Campo Grande. São protagonistas anônimos, que vivem o cotidiano à própria maneira. Mas que por um olhar mais atento, de quem quer ver além de enxergar, valem uma tarde de prosa.

Dia desses o Lado B prestou atenção numa figura conhecida na Dom Aquino, entre as ruas Pedro Celestino e Rui Barbosa. Mas quando foi atrás, custou um pouco a achar. Nessa semana descobrimos o porquê. Anselmo cumpre expediente das 10h às 15h, horário de almoço e que o movimento nos restaurantes daquele trecho é mais intenso.

Trabalhando na rua há 18 anos, não é o fato de ele ser cuidador de carros que nos chamou a atenção. E sim porque enquanto um olho está atento às vagas na rua, o outro acompanha a agulha de crochê.

Hoje com 35 anos, Anselmo de Oliveira Jara, aprendeu a técnica em 2003, no ‘hotel’, quando passou por problemas. “Aí eu aprendi e me interessei. Eu gosto e sou meio viciado em fazer isso aqui”, conta.

O trabalho quase pronto ele faz questão de mostrar. No dia da entrevista, dois já tinham sido vendidos.
O trabalho quase pronto ele faz questão de mostrar. No dia da entrevista, dois já tinham sido vendidos.

A maleta de trabalho é uma sacola de supermercado com panos de prato, linha e agulha de crochê. Ele sai do bairro Los Angeles às 9h e chego no Centro às 10h20. O tempo que está no ônibus começa o serviço e às vezes fica só o bico para ser arrematado na rua.

“Hoje eu fiz esse no ônibus e já vendi dois. Se ficar parado em casa, faço mais um. Quando não está lotado aqui, vou trabalhar no crochê, mas fico olhando, quando vejo uma vaga eu já seguro. E pode perguntar de mim no restaurante que todo mundo sabe quem é o Anselmo cuidador”.

O serviço na rua ele explica que consiste em arrumar vaga, ajudar a estacionar e manobrar e cuidar. Sem muita noção de quantos carros passam por ali diariamente, ele chuta uma média de 40. Mas não são todos que contribuem. Perguntei o que seria pagar bem a um guardador, ele responde R$ 2. “Mas tem gente que dá R$ 1, moedinha, a gente aceita”.

Por estar na rua durante a semana, ele já fez amigos, como uma funcionária de uma financeira ali no Centro. “Eu tenho uma amiga do BMC, que antes ela só estacionava de frente, hoje até com uísque na cabeça ela estaciona de ré e fala para todo mundo que foi o Anselmo quem ensinou”, brinca.

A verdade é que o crochê complementa a renda no fim do mês. Anselmo é casado, pai de três filhos e desperta muita curiosidade para quem passa por ali.

“Tem mulher que para e diz que não consegue fazer crochê. Pede dicas mesmo. Perguntam você não me ensina? Eu falo que não tenho muito tempo, mas se ela parar aqui, dou o início e depois ela vai fazendo”, explica.

O guardador de carros e fazedor de crochê também aceita encomendas. “Faço tapete, caminho de mesa, pano de prato, o que for de crochê e pode pedir”, anuncia.

Anselmo é casado, pai de três filhos e desperta muita curiosidade para quem passa por ali. Não é para menso né?
Anselmo é casado, pai de três filhos e desperta muita curiosidade para quem passa por ali. Não é para menso né?
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