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Comportamento

Na dor de perder o filho para covid, pai soube falar de esperança

Amor e sorriso que filho esbanjava foram forças para o pai celebrar homenagem mesmo longe do corpo dele

Por Thailla Torres | 25/03/2021 06:11
Everton ao lado do pai, quando comemorações eram possíveis (Foto: Arquivo Pessoal)
Everton ao lado do pai, quando comemorações eram possíveis (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando Everton Ricardo Santos, de 44 anos, saiu de casa em outubro de 2020 para uma pescaria, o pai e a família tinham certeza que seria só mais um entretenimento. Mas a volta para casa após um fim de semana no Pantanal rendeu um diagnóstico doloroso: covid-19. Dez dias depois, a notícia da morte arrasou o coração de quem o amava e só as boas lembranças foram capazes de segurar a dor na hora da despedida.

Além de uma trajetória pautada pela simpatia e a amor à família, na despedida de Everton um episódio chamou muito atenção. Sem a chance de um velório, o pai que é pastor decidiu celebrar um culto na igreja em que frequenta, mesmo longe do corpo do filho, para prestar as últimas homenagens.

Em meio à dor de perder um filho, amigos e familiares se surpreenderam com a força de seu Darci dos Santos, que iniciou a homenagem com pedido diferente. “Eu pedi a deus que me desse uma chance naquele momento de ser 90% pastor e somente 10% pai, para que eu pudesse me despedir do meu filho com a força que ele sempre teve e pudesse amparar minha família”.

Everton ao lado do irmão Denison, quando eram crianças (Foto: Arquivo Pessoal)
Everton ao lado do irmão Denison, quando eram crianças (Foto: Arquivo Pessoal)

Ainda que o coração explodisse de saudade e a indignação tomasse conta, ele preferiu usar a voz para levar esperança e frases que conscientizassem sobre uma doença que mata.

“Embora eu sinta a dor da separação, eu sou um homem de fé, que acredito que meu filho esteve até nos seus últimos instantes da vida com Deus. Lembrar-se do Everton que foi sempre amigo e companheiro me trouxe força, confiança e um controle emocional para conseguir falar dele da maneira que eu falei naquela hora”, diz o pai.

Todos que conhecem Darci sabem ele é um “homem emotivo e chorão”, diz ele. “Então permanecer firme naqueles minutos e conseguir falar mais de esperança do que de perdas realmente foi algo transformador”.

A homenagem foi transmitida nas redes sociais do filho Denison Santos e teve mais de 7 mil visualizações até hoje. Após as palavras do pai, poucas pessoas da família puderam comparecer ao enterro.

As lágrimas caíram depois do culto, não nega Darci. Ainda hoje, ele e a esposa sofrem com a ausência do filho, mas procuram forças em tudo o que ele deixou. “Eu guardo com carinho os momentos bons do Everton. Era um menino gentil, amável, pai, companheiro, amigo, bom filho e tudo de bom que você puder imaginar. Isso ameniza um pouco a nossa dor”.

Seu Darci ao lado dos filhos Everton e Denison (Foto: Arquivo Pessoal)
Seu Darci ao lado dos filhos Everton e Denison (Foto: Arquivo Pessoal)

A morte do filho e as conversas com amigos até fizeram seu Darci rever as opiniões sobre a vacina, que ele teve a oportunidade de tomar na manhã de ontem (24). “No início da pandemia, com tanta conversa sobre a doença, eu tinha tomado uma posição de que eu não ia me vacinar. Mas, depois de buscar informações e conversas com pessoas bem informadas, eu decidi tomar e fiquei muito contente. Infelizmente meu filho não está aqui para acompanhar, mas creio que ele está com Deus”, diz.

Everton foi vítima da covid-19 em outubro do ano passado. Contraiu a doença após uma viagem de pescaria ao Pantanal. Das 18 pessoas que viajaram juntas, 13 tiveram covid, mas ele foi o mais grave, sendo internado dias depois do diagnóstico com 50% do pulmão comprometido e não resistiu.

Para o irmão, o empresário Denison dos Santos, o que ficou é uma história de companheirismo. “Fomos criados como gêmeos. Quando ele entrou na escola eu entrei junto na mesma série, adiantado, e assim estudamos até o ensino médio. Mudamo-nos na faculdade, ele foi para engenheira agrônoma e eu para administração. Mas sempre nos falávamos. Meu irmão era o cara mais companheiro que já conheci na vida”, lembra.

O sorriso é o que vai ficar para sempre, diz o irmão. “Era uma pessoa de bem que gostava de alegrar o ambiente. A gente se surpreendeu com tanta mensagem emocionante em sua partida. Isso provou o quanto ele foi amável”.

Apesar de toda a dor, o irmão também prefere acreditar que Everton cumpriu sua missão por aqui, mas não abre mão de deixar um apelo. “Que todas as pessoas se cuidem. E que a mensagem de esperança chegue a todos, mas que a gente faça nossa parte para um amanhã melhor”, encerra.

Everton deixou esposa e dois filhos.

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