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Campo Grande, Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

05/02/2017 07:25

Na investida pesada da indústria, bola da vez é "sofrência, Cerveja & Sertanejo"

Richie Beauvais*
Marca de cerveja investe, por exemplo, em pocket show de  Zé Neto e Cristiano.Marca de cerveja investe, por exemplo, em pocket show de Zé Neto e Cristiano.

Há anos não ouvia tanto o rádio e quando ouvia era sintonizado apenas enquanto dirigia – ou quando sintonizava no programa do amigo Clayton Sales, o “Blues & Derivados”, que vai ao ar aos sábados, na “hora do esquenta”.

Desde o “Winamp“ passei a selecionar o que ia ouvir. Vieram os “MP3” – uma alternativa a quem não tinha grana para um Ipod – e o “PirateBay”, depois os smartphones e, por fim, está tudo nas nuvens. Eu que acompanhei isso com naturalidade, mesmo não sendo um geek, voltei a ouvir rádio durante o meu “período sabático”, não por vontade própria devo salientar, mas por imposição do coletivo.

Sendo um “homem de mídia” – como aprendi a me intitular, imitando um grande amigo e jornalista – eu não conseguiria “ouvir sem escutar” e fazer a crítica enquanto análise dos aspectos técnicos e simbólicos das programações e das músicas. Mudei de rádio preferida neste processo. A qualidade (da programação, das vinhetas, das entradas ao vivo) foi fator decisivo. Cheguei também a uma suposição que talvez seja uma constatação em relação ao conteúdo musical: há uma investida de recursos das indústrias de bebidas alcoólicas e a bola da vez é o “sertanejo”.

Seria sectário delegar ao estilo a responsabilidade única de agente indutor do consumo de álcool pelas indústrias de bebidas. O próprio título deste artigo faz referência ao principal mote dos roqueiros há décadas: “Sexo, Drogas e Rock’n’Roll!”. A expressão que nasceu no movimento hippie foi aproveitada pela indústria das drogas lícitas e ilícitas desde então.

A indústria da música incita comportamentos, lança moda e dita a vibe do momento. Logo, a “parceria” entre a indústria da música e das drogas não é nova e, ora se dá abertamente enquanto campanha de marketing, ora de maneira a passar uma associação natural entre uma coisa e outra. Há um investimento da indústria para incentivar o seu consumo em campanhas cada vez mais bem elaboradas e atrativas, vendendo a ideia de alegria, sinônimo de festa e diversão.

Nos idos dos anos 90 a indústria do tabaco associou sua imagem a um público avesso ao que considera moralismos: os fãs do bom e velho Rock’n’Roll. Houve no Brasil um famoso Festival de Rock em que uma das principais bandas do mundo naquele momento era uma das principais atrações: a Nirvana.

Quem não se lembra de Kurt Cobain entrando no palco do “Hollywood Rock”, trajando um vestido, sentado em uma cadeira de rodas - empurrada por João Gordo, vocalista da banda Ratos de Porão - por não conseguir andar após fazer uso de Heroína?

Certamente não era essa a imagem que a marca pretendia ao realizar o evento, mas certamente o risco valeu a pena e a marca ainda está nas prateleiras de toda conveniência, boteco e supermercado.

O próprio Sertanejo foi usado pela indústria de tabaco. A imagem do cowboy cavalgando sob o entardecer fumando um cigarro ajudou a tornar uma das marcas de tabaco à preferida de muitos fumantes até hoje. Neste interim, o Sertanejo à época estava incorporando elementos do Country, o que veio bem a calhar para a proeminente marca de cigarro.

Mais tarde a veiculação de propagandas de marcas de cigarro na Televisão, Rádio, outdoors e o patrocínio de eventos esportivos e musicais viriam a ser restrita por lei. Como fumante – sim, eu sei que é péssimo e causa diversas doenças – reconheço que mudança da lei e o aumento dos preços inchados pelo imposto para a Saúde foi um tremendo avanço.

Não dá para saber quem veio primeiro: a união das maiores duplas sertanejas dos anos 80 e 90 em um super-encontro para a maior rede de TV do Brasil ou a campanha de marketing de lançamento de uma marca de cerveja utilizando uma paródiada música, gravada pelos próprios cantores e com a presença deles na campanha para Televisão, Rádio, Outdoors. Os “amigos” Chitãozinho e Chororó, Leandro e Leonardo e Zezé di Camargo e Luciano foram protagonistas destes dois momentos, ou seria de um único momento?

Não há elementos para afirmar categoricamente que há relação de financiamento de uma para a outra de maneira tão sinérgica a ponto de as letras das músicas serem escritas para endossar ou incentivar o consumo de álcool, porém números simples me fazem inferir a ligação. Das 20 músicas no topo das mais tocadas nas rádios em outubro 2016 - monitorado pela Spybatentre 01 a 31 de outubro -18 são “Sertanejas” e boa parte cita bebidas alcoólicas ou situações relacionadas às mesmas, principalmente na “dor de cotovelo” ou na sensação de liberdade causada pelo fim de um relacionamento, no fim de uma paixão.

Tanto para a comemoração quanto para a “sofrência”, o álcool é tido como um parceiro de primeira hora, sem o qual sentir somente as alegrias e tristezas de uma paixão não seria o bastante. Aí mora o risco para se chegar à dependência.

O fato é que o mercado absorve e se renova a cada mudança nos valores e consequentemente do comportamento de todos os setores da sociedade. Se a moda é o “Sertanejo”, então ele será instrumentalizado – novamente – pela indústria das bebidas alcoólicas.

O importante é aprender a desvencilhar as coisas e curtir o som sem adquirir comportamentos que não são próprios de cada um. Eu mesmo estou curtindo alguns sertanejos e não é por isso que vou aumentar o som da minha caminhonete e sair por aí com o mesmo no último volume – mesmo porque não tenho caminhonete. O “não é porque ‘todo mundo’ faz que você tenha que fazer” ainda é um dos melhores conselhos de nossas mães que deveríamos seguir.

Até mais!

* Richie Beauvais - ou “Ritch Bové” como costuma ser chamado após tentar corrigir a pronúncia do seu sobrenome – é um pseudônimo ou um alterego (!). Tem 30 anos, é jornalista, pai e após “um período sabático de autoconhecimento” em uma Comunidade Terapêutica para tratamento de sua dependência química decidiu escrever sobre o assunto. É “viciado” em música, revistas em quadrinhos, séries, filmes e Carnaval. Escreve semanalmente na coluna “Fim de Carreira” sobre dependência química e assuntos correlatos (ou não).



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