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Campo Grande, Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

15/03/2017 07:38

Nem cegueira limita Sônia, que continua firme diante das câmeras na cozinha

Paula Maciulevicius
Com 68 anos de idade, Sônia Caldart tem 30 de TV e 9 de uma doença autoimune nos olhos. (Foto: André Bittar)Com 68 anos de idade, Sônia Caldart tem 30 de TV e 9 de uma doença autoimune nos olhos. (Foto: André Bittar)

Madrugada de sábado para domingo e a apresentadora Sônia Caldart estava firme e forte na fila esperando para entrevistar o cantor Leonardo, no show que ele fez ao lado de Eduardo Costa na Capital, no último final de semana. A surpresa não foi só encontrar Sônia, amparada por dois assessores e seus 30 anos de televisão a postos para a entrevista e sim perceber que o fato de não enxergar, não lhe trouxe limitação alguma, nem mesmo diante das câmeras.

Há nove anos, a dona de um rosto conhecido na programação local e do par de olhos verdes belíssimos, descobriu a retinopatia autoimune. Em dois anos, ficou cega e tratamentos nos Estados Unidos a cada seis meses tentam retardar a doença. Graças à injeções, a vista central chegou a voltar, mas a cada dia que passa, Sônia enxerga bem menos. 

Contra-luz, ela vê apenas o vulto do meu rosto e imagina onde possam estar meus olhos. Talvez por instinto ou pelos anos em frente às câmeras, Sônia conduz qualquer conversa como se estivesse vendo tudo o que se passa ao seu redor. Inclusive, quem não sabe, nem percebe que os olhos verdes veem escuridão.

Sônia na noite de sábado, junto dos assessores João e José que lhe acompanham por todo lugar. (Foto: Marcos Ermínio)Sônia na noite de sábado, junto dos assessores João e José que lhe acompanham por todo lugar. (Foto: Marcos Ermínio)

Paulista de nascença, Sônia está em Campo Grande há 32 anos. Veio junto do marido, empresário no ramo de madeireiras e nunca pensou que um dia fosse trabalhar na televisão. Recém-casada, ela conta que não sabia cozinhar nada, então ingressou em tudo quanto foi curso de culinária.

Já em Campo Grande, ganhou de presente um microondas da Panasonic e que à época, oferecia um curso para os clientes. Ao ligar, acabou passando de aluna para professora. "Eu fazia técnicas de congelamento e a Marisa Machado descobriu isso e veio fazer uma entrevista comigo. Eu me saí bem, de forma natural e então ela passou a me levar com ela para o programa. Era uma vez por semana, no SBT. Foi ela quem me colocou na TV", conta Sônia, de "68 anos, com prazer", brinca ao dizer a idade.

Era final dos anos 80, quando ela abriu a escola "Forno, freezer e companhia" e chegou a ter 5 mil alunos. Os cursos ensinavam não só receitas, como também o manuseio de muitos aparelhos que eram novidade na época.

"E nas aulas eu sempre tinha que repetir a mesma coisa, eram três turnos. Um dia eu vi um anúncio no jornal: 'gravação de vídeo, ligar na TV Guanandy'", recorda. Na ligação, ela explicou que gostaria de gravar as aulas para ter de entrar em cena, diante dos alunos, só quando fosse ensinar as receitas.

Apresentadora perdeu a vista periférica completamente em dois anos de doença. (Foto: André Bittar)Apresentadora perdeu a vista periférica completamente em dois anos de doença. (Foto: André Bittar)

"Eles disseram que queriam conversar pessoalmente e me contaram que a TV estava fazendo testes para um programa novo e se eu não queria fazer um piloto", conta. Ela topou, teve edição e o aval da diretoria da Guanandy.

"Me fizeram um contrato como se eu fosse a Xuxa. Se eu fosse lançar um produto, eles iam ganhar em cima. Eles viram em mim um potencial", detalha. O programa se chamava "Aprendendo com Sônia" e ia ao ar diariamente com receitas e entrevistas com artistas e a alta sociedade.

Na TV Guanandy, Sônia pulou para o SBT e também teve passagem pelos jornais impressos, A Crítica, Diário da Serra e Folha do Povo.

No estresse de gravações das 7h da manhã às 7h da noite e numa sequência de anos sem férias, Sônia resolveu parar com a televisão e foi trabalhar na madeireira da família como contadora, sua formação.

"Aí eu comecei a perder a visão do nada. Um dia fechei um cara e bati o carro. Desci e disse: 'mas da onde o senhor veio'? Quando minha filha foi ganhar neném, eu entrei na maternidade e perguntei: 'como que não tem ar condicionado no quarto?' Na verdade eu não tinha mais visão periférica", lembra.

Uma de tantas lembranças que marcam a trajetória do trabalho da apresentadora. (Foto: André Bittar)Uma de tantas lembranças que marcam a trajetória do trabalho da apresentadora. (Foto: André Bittar)

O primeiro diagnóstico foi de retinose pigmentar, no entanto, médicos dos Estados Unidos concluíram que apesar de todos os sintomas, a evolução que a deixou cega em dois anos, apontava retinopatia autoimune.

"De repente perdi as cores e no último ano comecei a perder todos os dias. Ontem eu enxergava melhor que hoje. Eu estou vendo um vulto em você", descreve. "Mas isso nunca me deixou deprimida, eu nunca chorei por mim, porque eu acho que quem perde um filho é pior do que perder a visão", se explica.

Emotiva, Sônia chora mesmo, mais pelos outros do que pela sua própria história. "Eu acho que em todos estes anos, eu consegui fazer com que muita gente se sentisse bem", acredita.

Pelas ruas, foram frequentes as vezes em que ouviu de conhecidos: 'ah, mas você nem me cumprimentou', quando na verdade, a apresentadora não enxergava.

"Antes eu andava de bengala, agora nem isso, proque eu estou ruim mesmo, mas as pessoas passavam por mim e comentavam depois que eu era metida. Aí eu comecei a dar oi em todos os lugares, às vezes não tinha ninguém. Mas por que que quando me viam, as pessoas não me diziam: oi Sônia", se questiona.

Há oito anos, já com o diagnóstico, Sônia recebeu o convite de um amigo que ela faz questão de dar nome, Adilson Santeli, de uma produtora que lhe apresentou um programa criado para ela. À época, a apresentadora estava na madeireira da família. A primeira resposta foi um 'não', seguido de um sim quando ela já não via mais os números no computador.

"Já era o Cenário Feminino. Começamos na Guanandy, onde a gente comprava a hora e lá foram 3 anos e meio, depois recebi o convite do SBT para mais quatro anos e agora estou na TV Conceito", resume.

Quem a assiste, nem percebe que ela não enxerga para onde está olhando. "Já me perguntaram isso, como eu consigo? Na verdade na câmera tem uma luzinha que pisca, então eu vejo quando ela acende e apaga, aí consigo olhar", explica.

Direcionada pelos dois assessores que produzem o programa, a levam até as entrevistas e participam da rotina da casa dela, Sônia toca o programa de 1h que vai ao ar aos sábados, das 12h às 13h.

E o motivo que a fez ir até o show do Leonardo, era para gravar uma mensagem para dona Guiomar, uma senhorinha de 98 anos, fã do cantor. "Algumas coisas facilitaram na minha vida, eu não fico na fila para entrevistas", brinca. "Mas acho que tudo tem um porquê na vida. Quando Deus tira uma coisa, ele dá outra e no fim, eu enxergo com o coração, não preciso dos olhos", encerra.

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Registro da entrevista com Leonardo e Eduardo Costa. (Foto: Arquivo Pessoal)Registro da entrevista com Leonardo e Eduardo Costa. (Foto: Arquivo Pessoal)


Fiquei emocionado, ao saber do problema de visão dessa mulher guerreira, nos de 1986 a 1993 quando vim para campo grande, conheci a sonia que dava cursos de culinária e fizemos uma parceria, na época eu gerenciava uma loja de eletrodomésticos, vendiamos os fornos de microondas e ela dava os cursos aos clientes.
Que Deus continue te guiando, e se não for + possivel ver com os seus lindos olhos que continue vendo as coisas com o olhar do seu coração.
 
Manuel S. Silva em 15/03/2017 12:34:13
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