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Campo Grande, Quarta-feira, 26 de Junho de 2019

29/05/2019 08:14

Nem farra com 1,4 mil amigos em casa atormentava Léia que amava uma festa

Mãe de quatro filhos, avó de oito e mãezona de outras tantas pessoas, Léia se tornou uma querida por distribuir alegria

Thailla Torres
Sempre elegante e vaidosa, Léia gostava de ousar nos cabelos. (Foto: Arquivo Pessoal)Sempre elegante e vaidosa, Léia gostava de ousar nos cabelos. (Foto: Arquivo Pessoal)

Irléia Tavares do Couto Manzione é mãe de Luiz, Fernando, Patrícia e Juliana e avó de oito. Amiga de muita gente, tia e “mãezona” de outras tantas pessoas, tinha um cabelo platinado desde à década de 1990 e já impressionava os conservadores. Inesquecível tanto quanto a sua risada, mesmo diante da farra dos filhos dentro de casa, nunca perdeu o título de querida. Há 9 dias, Campo Grande disse adeus a mulher alegre que sabia impressionar. Foi rápido, cinco meses depois do diagnóstico de câncer no intestino.

Hoje, o que ficou para os quatro filhos e toda a família é a estranha responsabilidade de ser feliz sem a sua presença. Isso porque Irléia, carinhosamente chamada de Léia, era um “presente na vida todos”, garantem. “Nossa mãe era muito alegre, sorridente, animada. Uma das pessoas nessa cidade que amava festas e não tinha receios de fechar a rua para fazer um movimento”, conta um dos filhos, o empresário Fernando Tavares Manzione, de 46 anos.

Os filhos botam a cabeça no travesseiro e lembram dos passos de Léia sorrindo, brincando, arrumando a mesa do almoço e do jantar para receber a família, os amigos, os amigos dos amigos, sem nenhuma distinção. A cada lembrança, os quatro não têm dúvidas, é a vida mostrando que eles precisam seguir, nem que seja para perpetuar a alegria que a mãe ensinou.

Irléia (meio) ao lado dos filhos Juliana, Patrícia, Fernando e Luiz no aniversário de 69 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)Irléia (meio) ao lado dos filhos Juliana, Patrícia, Fernando e Luiz no aniversário de 69 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)

Pelos relatos, é possível acreditar que Léia soube tornar Campo Grande uma cidade menos chata. Apaixonada por Carnaval, Natal, Ano Novo e aniversários, ela não poupava esforço para fazer uma festa. Quando os filhos cresceram, a farra não acabou. Léia abria a própria casa para receber os amigos dos filhos, o que a tornou famosa entre os festeiros.

“Uma vez fizemos uma festa e chegamos a colocar 1,4 mil pessoas dentro de casa, no jardim dela, que era enorme. As pessoas não tinham acesso a parte de dentro da casa, mesmo assim era muita gente e ela recebia todos com muito carinho”, lembra Fernando.

Da infância o filho recorda o esforço que ela fazia para deixar todo mundo feliz. “Eu tenho uma boa recordação de quando a gente era criança. Ela pedia autorização para fechar parte da rua, comprava um freezer de picolé e a gente se divertia durante o dia juntos”.

No período do Carnaval, todos os pré-carnavais foram na casa de Léia, que à época, ainda na década de 90, se mudou para o Itanhangá, mas não se intimidava com o status de bairro nobre. “Não tínhamos muitos vizinhos. Mas ela também não se importava de fazer festa. Gostava de ver a casa cheia, animada e todo mundo sorrindo”.

Léia (meio) ainda criança, ao lado da família. (Foto: Arquivo Pessoal)Léia (meio) ainda criança, ao lado da família. (Foto: Arquivo Pessoal)
Além de festeira, paulistana amava viajar. (Foto: Arquivo Pessoal)Além de festeira, paulistana amava viajar. (Foto: Arquivo Pessoal)

Na companhia de um dos melhores amigos, o produtor cultural Gustavo de Arruda Castelo, de 47 anos, os filhos lembram de um bloco que fazia sucesso nos carnavais do Rádio Clube e ganhava apoio exclusivo de Léia. Assim, Gustavo acabou virando “filho”. “Eu estava sempre aqui aprontando na casa dela, ela já me considerava de casa e eu tinha muito respeito por ela. Acho que nunca conheci uma mulher tão animada”, descreve.

E olha que nem na hora da bagunça de Gustavo ela perdia alegria. “Uma vez quebrei uma pia do lavabo dela, pia lindíssima que ela amava. Ficou doida comigo, mas me perdoou como uma mãe”, acrescenta Gustavo.

Depois de anos fazendo festa por aqui, Léia e o esposo decidiram mudar para Bonito, a 296 quilômetros da Capital. A natureza era outra paixão da empresária que nasceu no interior de São Paulo e mudou para Mato Grosso do Sul quando o pai decidiu investir no agronegócio.

Em Campo Grande ela foi dona de boutique trazendo grandes marcas para cidade, em Bonito continuou com seu negócio vendendo artesanatos. Dona de uma casa belíssima em meio a natureza, Léia usou do seu dom da alegria para fazer grandes amigos no interior. “Ela chegou em Bonito sem conhecer ninguém, em pouco tempo, ela foi fazendo amizade com todo mundo. Sua casa virou cenário perfeito para receber os amigos, virou uma querida na cidade”, descreve a filha Patrícia Tavares Manzione Mujica de Kamis, de 44 anos.

Léia e as filhas Patricia e Juliana. (Foto: Arquivo Pessoal)Léia e as filhas Patricia e Juliana. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ela, assim como a irmã, era mais que filha de Léia. “Éramos muito amigas, mamãe adorava conversar comigo, nunca deixamos de nos falar. Ela amava que eu fizesse a maquiagem e o cabelo dela”, lembra, emocionada.

O amor pelos netos também é outro detalhe indiscutível, embora a vida tenha levado um dos oito netos há sete anos, após um trágico acidente de carro, Léia nunca deixou de falar que tinha oito amores, esses que foram parar em seu punho, representados por corações e eternizados na pele com a tatuagem. “Foi a única tatuagem que ela fez na vida, inclusive, com a minha filha. Foram escondidas fazer a tatuagem”, conta Patrícia.

Quando a gente pergunta o que ficou de quem partiu? Não há nada materializado. Os filhos carregam no peito o que a mãe ensinou: “o sorriso e a alegria”, diz Fernando.

Nove dias depois da morte, após 69 anos de muitas alegrias de Léia, nunca foi tão difícil para a família decidir ser feliz, mas entre dois caminhos, um que leva ao choro e outro que faz o coração ficar leve, os quatro decidiram sorrir, mesmo na dor. “Acho que era isso que ela iria querer. Inclusive, nos últimos dias de vida, quando ela bastante debilitada, ela não deixou que ninguém a visse. Justamente porque desejava deixar na memória dos amigos a mulher feliz que ela sempre foi”, conclui Fernando.

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