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Comportamento

No país da piada pronta, um novo meme: "É que eu moro em Paris, na verdade"

Por Elverson Cardozo | 10/05/2013 07:21
Declaração do assessor ao repórter do Fantástico. (Foto: Reprodução/Facebook)
Declaração do assessor ao repórter do Fantástico. (Foto: Reprodução/Facebook)

Uma declaração raivosa nas redes sociais e pronto: o linchamento virtual acaba com o sujeito. Em 2013, quem falou o que queria, ouviu em dobro. O professor universitário Kleber Kruger perdeu até o emprego por conta do desabafo no Facebook.

Ao chegar na universidade, teve uma reação radical ao encontrar paredes pichadas nos corredores da UFMS. Colocou a culpa em acadêmicos de turmas que considera “coloridas”, pediu o fim dos cursos formadores de “bichonas”, acusou alunos de “veados” e tantos outros sinônimos nada amistosos, sem nenhum receio de ser taxado de homofóbico.

Acabou pedindo as contas, exclui os posts agressivos e na retrospectiva de 2013, proposta pelo Facebook, deixou de fora os dias turbulentos de repercussão nacional. Hoje, Kleber trabalha em uma empresa privada e segue a vida, sem postagens polêmicas.

O professor se meteu em um tipo de assunto que sempre rende confusão. No ano que passou, Nell Isabelle Bezerra Abrego, 18 anos, provocou um levante pelo direito de usar o banheiro feminino da Escola Joaquim Murtinho. Ela nasceu Pablo Henrique Ferreira Abrego, mas nunca se sentiu um menino, por isso o desconforto em usar o banheiro masculino.

Apesar de apoios públicos e cobranças, na prática nada mudou. “O diretor disse que poderia usar, mas se alguém reclamasse ia me chamar na diretoria e ver no que daria”. Sem querer pagar para “ver”, a solução foi simplista: “Abandonei a escola”, diz Isabelle, dez meses depois.

Página "É que eu moro em Paris, na verdade". (Foto: Reprodução/Facebook)
Página "É que eu moro em Paris, na verdade". (Foto: Reprodução/Facebook)

No Facebook, internautas criaram a página “É que eu moro em Paris, na verdade”, que começa a se espalhar pela rede. A Torre Eiffel foi colocada como imagem de topo. O perfil, que classifica o "personagem" como "humorista", exibe o print do vídeo, no momento exato em que Alcides fala que mora na “Cidade Luz”.

As atualizações, postadas com a colaboração de internautas, são de montagens com a foto e a “célebre frase”. Uma delas faz referência ao incêndio que destruiu a Loja Planeta Real, no centro de Campo Grande, na tarde de terça-feira (7).

“Que incêndio é esse que todo mundo está falando? Não estou sabendo... É que eu moro em Paris, na verdade”.

“Ai, gente, não consigo me acostumar com esse clima... “É que eu moro em Paris, na verdade”, diz o texto de outra.

Até o incêndio no centro foi citado por internautas, que se aproveitaram da situação. (Foto: Reprodução/Facebook)
Até o incêndio no centro foi citado por internautas, que se aproveitaram da situação. (Foto: Reprodução/Facebook)

Bombou na internet – Assim como o meme que surgiu com a justificativa do assessor, há outros exemplos país afora. No início do ano passado, “Menos Luíza, que está no Canadá”, virou uma das frases mais reproduzidas em todo o Brasil. A “bomba” também estourou na TV e surgiu de um comercial veiculado na Paraíba.

Com a repercussão, jornalista recebeu até presentes. (Foto: Reprodução/Internet)
Com a repercussão, jornalista recebeu até presentes. (Foto: Reprodução/Internet)

A propaganda, feita pelo colunista social e pai de Luíza, Geraldo Rabello, era sobre o lançamento de um prédio em João Pessoa.

No vídeo, ele conta aos telespectadores que o sucesso do empreendimento é tanto que resolveu convocar toda a família para apresentação do negócio. Neste momento, avisa que Luíza não estaria presente porque estava no Canadá.

Ao vivo - “Que deselegante” é outra frase que virou bordão na internet. Foi dita pela jornalista Sandra Annenberg.

Junto com Evaristo Costa, na bancada do Jornal Hoje, ela precisou interromper uma transmissão ao vivo depois que um homem empurrou a repórter Monalisa Perrone na porta do Hospital Sírio Libanês.

A jornalista apresentava um boletim sobre a saúde do ex-presidente Lula quando foi atacada. Diante da situação, Sandra, sem saber de fato o que havia acontecido, “protestou”.

O valor para entrar em uma briga pode variar bastante. Munhoz e Mariano mobilizaram amigos artistas em uma campanha improvisada para realizar show de lançamento do DVD da dupla no Jóquei Clube de Campo Grande, depois de proibição da prefeitura. Conseguiram liminar favorável, mas a sorte virou e a dupla teve de enfrentar a morte de um fã no estacionamento, episódio ainda cabuloso.

Cerca de 400 alunos do curso de Direito da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), por exemplo, também foram à luta, mas pelo direito de pagar meia-entrada no Cinemark, usando as carteirinhas de identificação estudantil com o selo do Daclobe (Diretório Acadêmico Clóvis Bervilaqua), o que até então não era aceito pela rede.

A professora universitária Dolores Ribeiro travou uma batalha contra inimigo bem mais poderoso. Mãe da jornalista Juliana Ribeiro Campos, de 24 anos, ela conseguiu, na Justiça, que o Facebook excluísse a página da filha na rede social, um ano após a morte da jovem, por complicações em uma cirurgia de redução de estômago.

Para Dolores, ler mensagens de amigos sobre a saudade que sentiam de Juliana soavam como tortura.

O ano provou mais uma vez que as redes sociais são implacáveis. É bom não dar a deixa, porque se a pessoa escapa do sofrimento ou se livra de ser linchada, acaba virando Meme.

“É que eu moro em Paris, na verdade” é uma das frases descabidas que caíram na rede em diferentes versões. O autor da declaração é Alcides Nascimento, assessor do ex-diretor do HU (Hospital Universitário), José Carlos Dorsa Vieira, investigado na operação “Sangue Frio”, aquela que revelou desvio de dinheiro público no Hospital do Câncer.

Para escapar das perguntas de repórter disse que não conhecia o programa Fantástico porque morava em Paris e virou a gracinha da semana no País da piada pronta.

Com 2014 abrindo a porta, quem quer apostar que os personagens vão mudar, mas os velhos temas continuarão gerando grandes barracos.

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