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Campo Grande, Domingo, 26 de Maio de 2019

13/12/2018 08:47

No Santa Carmélia, casinha florida guarda 1º amor que já completa 67 anos

Os dois se conheceram ainda na juventude e ensinam que companheirismo, paciência e tolerância são receitas para o amor de uma vida inteira

Kimberly Teodoro
Amor de infância pode sim durar a vida toda e Sebastião e Terezinha são a prova (Foto: Kimberly Teodoro)Amor de infância pode sim durar a vida toda e Sebastião e Terezinha são a prova (Foto: Kimberly Teodoro)

A casinha verde água construída em 1978 no Bairro Santa Carmélia é a representação de um amor que começou na infância e durou a vida inteira. Quase escondida entre as folhagens coloridas do jardim, quem passa pela região no fim da tarde talvez até tenha sorte e veja Terezinha Felix Borges, de 84 anos, e Sebastião Machado Borges, de 93 anos, entre os tons de rosa e verde, cuidando juntos das flores plantadas há tantos anos.

Ele, nascido em Goiás, e ela em Minas Gerais, vieram de carro de boi e se encontrar em Mato Grosso do Sul ainda na infância. O primeiro a chegar foi Sebastião, que conta ter deixado a cidade natal acompanhando a família por uma decisão do pai, atraído pelos boatos de terras produtivas e desocupadas por aqui. “Diziam que quem chegasse e construísse uma morada, ficava com a terra. Então deixamos tudo para trás e enfrentamos 1 mês de estrada no carro de boi, só paramos pelas bandas de Corguinho, onde meu pai construiu a Fazenda Promissão”, relembra Sebastião.

 

Terezinha ajudou Sebastião a vida toda no trabalho da fazenda, hoje é ele quem ajuda a esposa no jardim (Foto: Kimberly Teodoro)Terezinha ajudou Sebastião a vida toda no trabalho da fazenda, hoje é ele quem ajuda a esposa no jardim (Foto: Kimberly Teodoro)
Hábitos da fazenda que Sebastião nunca abandonou, até hoje planta, colhe e tritura o próprio café (Foto: Kimberly Teodoro)Hábitos da fazenda que Sebastião nunca abandonou, até hoje planta, colhe e tritura o próprio café (Foto: Kimberly Teodoro)

A família de Terezinha veio seguindo o mesmo ideal, usando o mesmo meio de transporte e, por acaso ou destino, foi parar na fazenda vizinha à propriedade da família de Sebastião. Como ela chegou ainda criança e ele já era quase um rapaz, o interesse não foi imediato, os dois se aproximaram aos poucos, observando um ao outro pelas frestas da cerca até o encanto infantil virar interesse amoroso.

Quando Tereza passou de “engraçadinha” à “moça bonita” aos olhos de Sebastião, ela já era quase mulher. Os olhares de longe passaram a visitas na sala da casa dela, sob a vigilância do pai, homem bravo. Daí em diante foram 3 anos de namoro e 1 ano de noivado no estilo “um lá e outro cá”, com flerte de antigamente e longas conversas para se conhecerem sem pressa, até surgir a certeza de que estavam prontos para passar o resto da vida juntos.

Alianças de casamento ainda são as mesmas de 67 anos atrás (Foto: Kimberly Teodoro)Alianças de casamento ainda são as mesmas de 67 anos atrás (Foto: Kimberly Teodoro)

“Primeiro pedi pra ela, perguntei se realmente gostava de mim e queria se casar. Quando ela disse sim, fui conversar com o meu pai. O que ele me disse eu guardo até hoje: Casamento é para homem de verdade, se não estiver disposto a honrar o compromisso e o nome, não era pra casar. A segunda coisa, ele me chamou na varanda e disse para olhar bem para a cara dela, se eu fosse tirar ela de casa, precisava tratar ela bem, melhor até que o pai dela. Por último a conversa foi sobre como manter a família, ele perguntou quantos sacos de arroz eu achava que ia precisar para sustentar nós dois, meu cálculo foi de 10 sacos de 60 quilos para durar até a colheita do ano seguinte e o que ele falou depois foi acertado. Além dos 10 sacos pra mim e pra ela, ainda tinha que ter outros 5, para receber as visitas da família e dos amigos, e foi como ele disse que ia ser”, conta Sebastião.

Durante o noivado, ele construiu a primeira casa do casal, feita de madeira com telhado de palha em um cantinho da fazenda do pai. Ali, apesar da vida dura, o casal foi feliz por muitos anos, entre as paredes de tábuas. Longe da cidade, um ajudava o outro e durante a gravidez de Tereza, Sebastião cuidava pessoalmente da alimentação da esposa, fazendo canja de galinha bem gorda e farinha de milho triturada no pilão, tudo produzido por eles mesmos, dieta exclusiva que ela começava a seguir cerca de 4 dias antes do parto. Além da comida, Sebastião também fazia unguento com mentrasto, erva medicinal encontrada no mato, para passar nas pernas de Tereza na noite anterior ao nascimento do bebê, para facilitar a “boa hora”.

Mulher forte e corajosa, Tereza deu a luz aos 5 filhos, sem ajuda de um médico ou parteira e conta ter aceitado a dor do parto sem gritar uma única vez. Para ela, era uma questão de honra, "Se eu escolhi ter um filho, não ia fazer um escândalo quando eles saíssem de mim", conta ela.

Ao fim do caminho das flores, o casal ainda namora na varandinha azul da casa construída em 1978 (Foto: Kimberly Teodoro)Ao fim do caminho das flores, o casal ainda namora na varandinha azul da casa construída em 1978 (Foto: Kimberly Teodoro)

Sem medo do trabalho pesado da fazenda, Tereza ajudou o marido na lida diária do campo, desde a ordenha e alimentação dos animais, até nas viagens para a Campo Grande, que no carro de boi levavam 4 dias para chegar, 1 dia de compras de mantimentos e ferramentas, mas só o que não podia ser produzido por eles e mais 4 dias para voltar, jornada com paradas apenas para deixar o gado descansar, comer e dormir no mato a beira da estrada em um colchão fino.

O ouro gasto das alianças, que ainda são as mesmas de 1951, é cúmplice do companheirismo, paciência e tolerância um com o outro, ingredientes da receita para que o amor dure uma vida inteira. Foram 67 anos de casamento em que o casal se orgulha de ter resolvido a maioria das diferenças sem briga e em todo esse tempo, não ter dormido uma única vez separados, “mesmo se tínhamos alguma briga durante o dia, ia chegando a tardezinha fazíamos as pazes porque se tem uma coisa que não pode é dormir brigado”, revela Tereza.

Saudoso dos tempos na fazenda, Sebastião confecciona miniaturas de carros de boi (Foto: Kimberly Teodoro)Saudoso dos tempos na fazenda, Sebastião confecciona miniaturas de carros de boi (Foto: Kimberly Teodoro)

Os dois foram morar na cidade depois da venda da Fazenda Promissão, Sebastião já tinha a casa de alvenaria pronta e a necessidade de estudo dos filhos fez com que se adaptassem à vida urbana. Sebastião passou a comprar leite e cana de chácaras próximas ao Santa Carmélia e fazer queijos, rapaduras e doces para vender na rua, de porta em porta. Mesmo depois da aposentadoria não parou, passou a construir réplicas dos carros de boi que aprendeu com o pai ainda na infância, época que relembra com lágrimas nos olhos.

Acostumado com a vida simples no campo, Sebastião ainda tem no jardim de casa um pé de café, que ele mesmo colhe, tritura e torra preservando os antigos hábitos e sabores da fazenda, de uma época em que se adoçava o cafezinho com rapadura, só se usava banha de porco para cozinhar e todo o alimento da mesa era produzido pelo casal.

Namorados até hoje, Sebastião acorda cedo para passar o café, Tereza acorda quando já está tudo pronto e divide a primeira refeição sentada no colo do marido, um costume dos dois que nunca morreu e vem desde a lua de mel.

Consciente do envelhecer juntos, Tereza conta que ele tem ciúmes até hoje, mesmo com a juventude deixada para trás como passar dos anos e aumento das marcas da idade terem “deixado só a carcaça”, o que para Sebastião é uma besteira, “Nós dois estamos velhos e chegamos até juntos, não foi? Então estamos iguais, ela é a primeira e a única mulher que eu tive e vai continuar sendo assim. Ela era a mulher mais linda que já tinha visto quando éramos novos, para mim ela continua sendo”, coloca um ponto final na questão, deixando Tereza sem jeito e com um sorrisinho bobo que só os apaixonados conhecem.

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Em 67 anos de casado, eles nunca dormiram uma única noite separados (Foto: Kimberly Teodoro)Em 67 anos de casado, eles nunca dormiram uma única noite separados (Foto: Kimberly Teodoro)
Beleza de Terezinha ainda é a mesma aos olhos de Sebastião que tem ciúmes até hoje (Foto: Arquivo pessoal)Beleza de Terezinha ainda é a mesma aos olhos de Sebastião que tem ciúmes até hoje (Foto: Arquivo pessoal)


Como gosto de conhecer as historias do povo de Campo Grande... de gente como a gente.
 
Catarina Rodrigues em 15/12/2018 12:40:28
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