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Comportamento

Para quem já perdeu melhor amigo, até gata de “herança” vira alento

Último "beijinho" jogado no ar, café com bolo em casa ou o azar da mensagem nunca lida, é a saudade que continua guardada no peito

Por Raul Delvizio | 16/01/2021 08:01
Como dar adeus aquele melhor amigo/amiga, nossa "cara metade"? (Foto: Arquivo Pessoal)
Como dar adeus aquele melhor amigo/amiga, nossa "cara metade"? (Foto: Arquivo Pessoal)

Há quem diga que sinônimo de sorte é ter pelo menos um melhor amigo na vida. Mas e quando ela é interrompida e o dizer adeus vira uma obrigação? Para alguns, é como se a parte mais fraternal fosse arrancada do peito – sem mais nem menos.

Ontem, dia 15 de janeiro de 2021, completou 1 ano que este repórter e outros colegas vêm lidando com esse sentimento. Quando Thiago Campos partiu dessa vida com apenas 25 anos, nos deixou pairando aqui na falta que faz a sua presença, porém finalmente compreendi – na tragédia da dor – que o amigo estava morto, mas que continua no peito como o melhor amigo que algum dia já tive.

Há 1 ano atrás, Thiago me deixou por aqui, assim como muitos outros amigos (Foto: Arquivo Pessoal)
Há 1 ano atrás, Thiago me deixou por aqui, assim como muitos outros amigos (Foto: Arquivo Pessoal)

Hoje, alguns relatos mostram homenagens a melhores amigos que também já se foram. Teve quem recebeu da melhor amiga um "beijinho" jogado no ar, sem saber que aquele seria o último. Na companhia do "brother" de infância, outro tomou café com bolo em casa – na tranquilidade de um momento exclusivo e especial aos dois. Ainda, até quem recebeu de "herança" a gata de estimação da grande amiga, e que agora serve de recado diário para os tempos de outrora.

A verdade é que, em todos os exemplos, o "sentir falta" é saber que valeu a pena ter compartilhado – nem que tenha sido por um curto período de tempo – o valor inestimável da amizade.

À esquerda Mariana com a amiga Daniele (Foto: Arquivo Pessoal)
À esquerda Mariana com a amiga Daniele (Foto: Arquivo Pessoal)

Depois de Dona Bernardete, foi a filha Daniele Caroline Gregio a 2ª vítima de um acidente envolvendo caminhonete e carreta no ano de 2016. Melhor amiga para Mariana de Oliveira Silva, a advogada "ganhou" a profissão que exerce hoje por incentivo de Dani, além da memória do último beijinho jogado no ar que nunca mais foi retribuído.

"Nos conhecemos na época da escola, na sétima série. Eu tinha 13 anos. Ela era uma menina divertida e engraçada, fazia amizade super fácil. A gente participava de uma mesma "panelinha", mas era Dani minha melhor amiga. Sempre muito decidida, era seu sonho estudar Direito. Como eu estava um pouco perdida no que fazer, resolvi seguir o conselho dela. Devo à Dani o caminho da profissão.

Super inteligente, sempre me ajudou a estudar e eu podia contar com ela pra qualquer coisa. Na época da faculdade, por exemplo, meus pais se separaram e ela me acolheu calorosamente como mais ninguém. Era comum viajarmos juntas, eu com a família dela e vice-versa. Costumávamos sair no 'Pagode do Bêbado' – até nisso a gente era parceira! – onde era ela quem fazia sucesso pela beleza sem igual. Nos dias de sossego, nossa sessão de cineminha em casa regada à sushi era indispensável. Mão cheia para a cozinha, me ensinou a receita de petit gateau que faço até hoje em sua homenagem.

Juntas, passaram a infância, adolescência e parte da vida adulta compartilhando a amizade (Foto: Arquivo Pessoal)
Juntas, passaram a infância, adolescência e parte da vida adulta compartilhando a amizade (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando ela partiu, foi um baque para todo mundo. Foi às vésperas de Natal, num acidente de carro junto da mãe. Dani era concurseira e no decorrer daquele ano viajou pelo Brasil para realizar as provas. Foi o período que menos nos encontramos presencialmente. No mês anterior, eu havia me mudado de casa, que ela fez questão de conhecer 2 dias antes. Passamos a tarde juntas. A sensação é de que tivemos a oportunidade de nos 'despedirmos'. Até hoje lembro da imagem: ela, antes de entrar no carro, parou, olhou pra mim e mandou um beijinho de longe.

No começo foi muito difícil assimilar a falta dela porque costumávamos conversar diariamente. Na época, me pegava escrevendo uma mensagem sendo que ela nunca mais iria ler nem responder. Eu havia perdido aquela pessoa que dividiu uma grande parte da minha infância, adolescência e vida adulta. Ela era minha memória viva. Fora a profissão, ela me deixou a vontade de batalhar, perseverar. Quando traçava um objetivo, era muito determinada, mas sem ser metida e arrogante no caminho. Tinha uma paixão nas coisas, sabe? E o riso, o cuidado com a família e o calor da fé. Carrego tudo isso no meu coração até hoje".

Jorge com sua melhor amiga Janine (Foto: Arquivo Pessoal)
Jorge com sua melhor amiga Janine (Foto: Arquivo Pessoal)

Já o engenheiro agrônomo Jorge Peres se despediu da melhor amiga Janine Tortorelli quando ela mal tinha 50 anos. De "herança", veio a gatinha Shane que, para ele, serve como uma recordação diária de sua presença.

"Conheci ela há uns 22 anos atrás em eventos de empreendedorismo e no trade turístico. Na época, eu prestava consultoria para o segmento hoteleiro e ela gerenciava um hotel aqui na Capital. Passamos a ver que tínhamos muita coisa em comum, não só pela profissão e na fé do espiritismo, mas também em outras afinidades. Éramos aquele tipo de amigos que fazíamos tudo juntos, inseparáveis, de viagens pelo Brasil até cineminha, baladas e vários encontros na casa um do outro, de churrasco à noite da pizza. Conheci sua família inteira, a qual acabei me tornando parte. Nossa amizade era baseada na cumplicidade, na parceria – o que eu sinto muita falta.

Tínhamos um cumprimento só nosso: "hi, there" (gíria para "olá" em inglês), em que cada um de nós respondia a mesma coisa. E o apelido "There" colou. Janine era extremamente popular. Mãezona pra muita gente, fazia de tudo para ajudar as pessoas até quando não podia. Sua generosidade era fora do comum.

Em cada encontro, uma nova lembrança a se guardar (Foto: Arquivo Pessoal)
Em cada encontro, uma nova lembrança a se guardar (Foto: Arquivo Pessoal)

Além do hipotireoidismo, já havia um tempo que o lúpus acompanhava sua vida. Com os anos, desenvolveu uma condição no coração que culminou na sua morte, na forma súbita de uma parada cardíaca. Não deu nem tempo de hospitaliza-la. Sua mãe me ligou e me contou a notícia, em que Janine foi encontrada na manhã seguinte sozinha em casa. Ficamos todos sem ação, uma tristeza profunda e inesperada.

Hoje vejo que os seus 49 anos de vida foram muito curtos em relação ao tempo em que compartilhamos amizade, porém completamente verdadeiros e bem aproveitados. No meu entendimento, a sensação da sua presença continua viva por mais não estando presente fisicamente – isso por intermédio da Shane, a gatinha 'seletiva' que ficou de herança para mim (eu era um dos poucos em que deixava fazer carinho). 'There' sempre a tratou muito bem e eu quis continuar com isso – uma das formas que tenho diariamente de relembrá-la no meu coração".

Jorge ganhou a gatinha Shane da "There" (Foto: Arquivo Pessoal)
Jorge ganhou a gatinha Shane da "There" (Foto: Arquivo Pessoal)

Muito jovem, Guilherme Kras Benatti perdeu a vida ao ser atingido por um carro de passeio. Tinha apenas 19 anos. Foi na mesma idade que Tiago Hernandes, hoje o advogado e empresário de 30, foi obrigado a se despedir do amigo.

"Desde criança estudei no Colégio Dom Bosco, lugar onde conheci o Gui. Ficamos mais próximos a partir do 1º ano do ensino médio e em diante. Eu passei em zootecnia e ele odontologia na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), então cursávamos na mesma instituição mas em unidades diferentes. Porém isso nunca foi motivo de perdemos contato. Nosso programa era sempre mais caseiro, a gente ia muito pra fazenda, tomávamos umas juntos e colocávamos conversar pra fora.

Inteligentíssimo, era uma pessoa de muito equilíbrio, não era de briga nem agressividade. Era uma coisa que eu admirava muito. Ele tinha uma característica forte de ser amável, querido – não tinha quem não o gostasse. Brincalhão pra caramba, fazíamos a nossa própria zoeira. Eu lembro bem das nossas farras. Afinal, perto dele, era só felicidade.

Aqui, único registro que Tiago ainda guarda do melho amigo (Foto: Arquivo Pessoal)
Aqui, único registro que Tiago ainda guarda do melho amigo (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando soube que havia morrido, fiquei desesperado. Não conseguia absorver a informação. Fui correndo para a Santa Casa, perguntei por ele na recepção e recebi, pela segunda vez, a notícia do seu óbito. O Tarik, um amigo nosso em comum, veio me abraçar e simplesmente desabei a chorar. Eu o amava muito.

Nossa última vez juntos foi lá em casa. Fizemos um rolê mais tranquilo, ele tomou café com bolo junto comigo e minha mãe. Ali já não houve necessidade de qualquer despedida. Estávamos em paz. Hoje, inclusive, sou espírita por causa do Gui. Quando olhei para ele no caixão, via apenas o corpo, a carne, porque o espírito, o sorriso, a energia boa, aquilo tudo já estava em outro plano. Se Deus o mandou pra mim, é porque eu fui merecedor de ser testemunha da sua vida".

No grupo de amigos, Thiago (ao fundo) era o "rei" (Foto: Arquivo Pessoal)
No grupo de amigos, Thiago (ao fundo) era o "rei" (Foto: Arquivo Pessoal)

Para finalizar, um último relato, agora do jornalista que voz escreve:

"Thiago era aquele garoto do bem, engraçado, com respostas na ponta da língua para driblar os 'shades' da vida. Energia era o que não lhe faltava. Parceiro de todas as horas, íamos juntos para nossa baladinha de quase todo final de semana. Quantas vezes não o busquei em sua casa, e eu dizia dentro do carro enquanto dirigia: 'você agora é o DJ, som na caixa!'. Mas também ele sabia curtir os rolês mais caseiros, com carteado e sinuquinha e bons drinks, especialmente as batidinhas – o que amava.

Ele era magro de ruim, porque sempre tinha uma fome escondida, ao melhor estilo 'Magali'. Talvez seja por isso que se encontrou no curso de Gastronomia do Senac, antes de ter passado pelo Jornalismo – onde nos conhecemos – e também Arquitetura & Urbanismo. Palmeirense de coração e virginiano nos astros, Thiago era metódico porém nem sempre organizado. Às vezes até confuso, mas ainda sim sempre prático.

Nossos desentendimentos eram raros, porque eu particularmente aprendi a deixá-lo ficar com a razão (e olha que para o leonino aqui isso é bem difícil). Tínhamos uma brincadeira: assim que uma música começasse a tocar, tínhamos que dizer o nome e o artista logo de cara. Eu sempre deixava ele ganhar. Ele odiava meus áudios gigantescos no WhatsApp – inclusive os só com minha risadas – mas ouvia todas. Amizade que se chama.

Cultuava Britney e amava Madonna, inclusive já indo em shows das duas. Tinha uma vontade de viajar e conhecer Portugal e Praga – seu maior sonho –, mas o destino lhe tirou esse prazer. Quem sabe não podemos fazer novos planos daí de cima, onde agora você se encontra?

Na vida de Thiago, momentos de boas risadas com os amigos não faltaram (Foto: Arquivo Pessoal)
Na vida de Thiago, momentos de boas risadas com os amigos não faltaram (Foto: Arquivo Pessoal)

Thiago conseguiu conhecer o apartamento em que eu morava no Rio de Janeiro e, melhor ainda, curtir sua última temporada de vida na Cidade Maravilhosa. Ele já estava bem diferente fisicamente, mas sem nunca perder a pose. Por menos de 1 semana, rimos, cozinhamos juntos, bebemos, dançamos. Aquela sim foi a nossa despedida.

Quando o visitei no hospital, jamais imaginei que aqueles seriam nossos últimos encontros. Ele estava bem! Inclusive, era o que sempre me dizia. Mas acabou que a vida deu outro rumo. Minha mãe me alertava: 'vá visitar seu amigo mesmo que ele não queira. Faça isso pelo Thiago, pela amizade de vocês'. Sábias palavras. Quem ama cuida, né? Durante 7 dias, passava apenas 1 hora do meu dia compartilhando ao seu lado o meu carinho e admiração – e continua forte.

Me pego de vez em quando lembrando das nossas histórias, principalmente quando alguma coisa aciona esse 'gatilho'. Hoje, completado 1 ano da sua morte, a saudade é grande – evidente – mas a gratidão por termos participado um da vida do outro, essa sim é bem maior".

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