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Campo Grande, Domingo, 23 de Setembro de 2018

23/08/2017 06:05

Para quem vivia de laboratório fotográfico, nostalgia agora é a atração

Nilson usa saudosismo para performance como retratista dos anos 30, mas também sabe lucrar e viver bem na era digital da fotografia

Eduardo Fregatto
Nilson gosta de explicar como funcionavam as câmeras analógicas. (Foto: João Paulo Gonçalves)Nilson gosta de explicar como funcionavam as câmeras analógicas. (Foto: João Paulo Gonçalves)

O empresário e fotógrafo Nilson Carvalho, de 59 anos, é um homem que sabe transitar entre o passado e o presente. Um dos proprietários remanescentes de laboratório fotográfico na região central, ele soube lidar bem com a decadência da fotografia analógica e a chegada do digital.

Nilson desempenhando o papel de retratista, com a câmera dos anos 1930. (Foto: Acervo Pessoal)Nilson desempenhando o papel de retratista, com a câmera dos anos 1930. (Foto: Acervo Pessoal)

Hoje, uma de suas ocupações, é se vestir como um antigo retratista, daqueles do inicio do século passado, e virar atração de festas como casamentos, formaturas, e, principalmente, comemorações de bodas. É o que nos chamou a atenção e, assim que chegamos para conversar, encontramos um homem apaixonado pela fotografia, que não hesita em nos explicar, detalhamente, como acontecia todo o processo de revelação de imagens das câmeras analógicas.

Revivendo um momento ainda anterior à sua própria existência, Nilson utiliza uma câmara dos anos 1930 para simular a realização de um retrato à moda antiga, com direito à pólvora e explosão. "É uma performance, a gente põe um grupo de pessoas, eu faço simulação, mas não sai a foto de verdade, porque não tem mais o negativo de vidro", explica. "Tem muita procura, as pessoas gostam muito. Já me chamaram até fora do Estado, mas eu não vou, eu tenho minhas ocupações aqui", justifica.

A atuação é completa, com direito ao traje típico que os profissionais utilizavam na época. Ao mesmo tempo em que vive da nostalgia e do passado, Nilson também é aberto ao mercado novo, do digital. "Como vou reclamar? Foi a fotografia que me deu dinheiro. Sou apaixonado cada vez mais", afirma.

Ele mostra sua primeira câmera, que comprou logo após a desilusão fotográfica. (Foto: João Paulo Gonçalves)Ele mostra sua primeira câmera, que comprou logo após a "desilusão fotográfica". (Foto: João Paulo Gonçalves)

O amor pela fotografia, que viria a determinar toda a vida de Nilson, teve inicio após o que ele chama de "desilusão fotográfica". Eram os finais dos anos 1970, quando ele tinha por volta de 18 anos. Estava com amigos, numa beira de rio, quando um deles mostrou a novidade: uma pequena e moderna câmera fotográfica. "Eu pedi pra ele fazer uma foto minha e ele disse não, falou que tinha pouco filme", recorda. "Eu passei vontade", resume.

Inconformado, Nilson juntou dinheiro e, na Avenida 14, comprou sua primeira câmera, uma Kodak Instamatic. O preço foi tão alto que ele nem consegue dar uma estimativa de quanto pagou, mas valeu à pena. "Reuni alguns amigos, num campo de futebol e, na 'cagada', eu fiz uma foto perfeita, enquadramento certinho, a luz estava do lado certo", lembra. "Eu vendi 14 cópias daquela foto, todo mundo pediu".

Foi naquele momento que Nilson percebeu que, além de uma paixão, a fotografia também poderia ser um grande negócio. Mas o lugar que mais encontrava clientela, quando começou a carreira de fotógrafo, eram as zonas da cidade. "As mulheres tinham dinheiro todos os dias, então eu ganhava todos os dias".

Nilson mostra um negativo de vidro, da sua coleção de câmeras e objetos antigos. (Foto: João Paulo Gonçalves)Nilson mostra um negativo de vidro, da sua coleção de câmeras e objetos antigos. (Foto: João Paulo Gonçalves)

Criando contatos e fazendo clientes, logo começou a crescer no ramo e chegou a ter 5 lojas na região central. A primeira foi aberta em 1987, na Rua Aquidauana. Hoje, só sobrou uma, na 14 de Julho com a 15 de Novembro.

O último laboratório químico de Nilson, montado por R$ 700 mil, foi vendido a R$ 5 mil. "O negócio 'desaconteceu', não é? Agora a gente vive de impressão. Mas está bom, está melhorando. A maioria das pessoas imprime muita foto, de 500 a 1000", garante. Além disso, a loja também virou ótica, há 10 anos, quando o mercado analógico já estava em decadência.

Velho pelo novo - "Naquele tempo, precisava ter mais técnica e talento pra fotografar. Tinha que ter conhecimento. Hoje, se não ficou bom, é só deletar. A digital faz tudo", analisa. Mesmo assim, não guarda mágoas nem rancor da nova era da fotografia. "Eu gosto do saudosismo e gosto do moderno. Dinamizou, popularizou, todo mundo tem acesso. Acho ótimo", defende.

O fotógrafo e empresário pretende tirar um ano sabático, após tantos anos dedicado à fotografia. (Foto: João Paulo Gonçalves)O fotógrafo e empresário pretende tirar um ano sabático, após tantos anos dedicado à fotografia. (Foto: João Paulo Gonçalves)

Vez ou outra, ainda faz bico como fotógrafo, especialmente de casamentos. Também faz festas de aniversários de 15 anos, quando convidado pelo pai da aniversariante. "Mas as meninas geralmente não me querem", diz Nilson, e aponta a cabeça parcialmente careca.

"Elas querem alguém jovenzinho, é normal. Fica feio pra elas, alguém como eu fotografando. Por isso eu levo o Max comigo, um fotógrafo novo. Faço umas fotos, e o Max vai entrando e eu vou embora. Ninguém nunca reclamou da minha ausência", diz, como quem acha graça da constante troca do velho pelo novo.

Após tantos anos de trabalho expressivo na fotografia, Nilson agora também pensa em descansar e, aproveitando a calmaria nos negócios, trazida pela era digital, quer até descansar por um ano. "O trabalho pra mim é diversão, não é fardo. Mas quero tirar meu ano sabático. Estou com projeto de ficar um ano morando ou em Teresina ou em João Pessoa", promete. "Mas acho que não vou conseguir ficar sem trabalho. Qualquer coisa, eu pego um carrinho de picolé e saio vendendo", conclui.

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