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Campo Grande, Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018

22/01/2018 06:05

Paula guardou o desejo de ser mãe por conta da deficiência, mas Alice nasceu

Vários médicos negaram qualquer possibilidade dela engravidar, mas Paula não desistiu e virou uma super mãe cadeirante

Thailla Torres
Após 6 anos se privando de ser mãe, Paula decidiu mudar o caminho de sua vida. (Foto: Kivia Maria Fotografia)Após 6 anos se privando de ser mãe, Paula decidiu mudar o caminho de sua vida. (Foto: Kivia Maria Fotografia)

Paula Zanata, de 38 anos, nasceu com uma doença degenerativa que ao longo da vida fez ela crer que nunca poderia realizar o sonho de ser mãe. Foram 6 anos sufocando o desejo de ter uma criança nos braços, até que um dia, tomou coragem de dar o grande passo. Mas a caminhada não foi fácil, Paula enfrentou resistência da família, preconceito e olhares de quem não acreditava que ela seria capaz de cuidar uma criança. Como superou todos os obstáculos, ela fala aqui no Voz da Experiência sobre a beleza de descobrir que pode realizar o sonho que quiser. 

Primeira vez que segurou Alice nos braços. (Foto: Arquivo Pessoal)Primeira vez que segurou Alice nos braços. (Foto: Arquivo Pessoal)

Nasci com Amiotrofia Muscular Espinhal, uma doença degenerativa de origem genética, que foi diagnosticada antes de completar 1 ano de idade. Os médicos disseram aos meus pais que eu sobreviveria, somente, até os 18 anos. Isso porque a doença tem níveis, do 1 ao 4, sendo o primeiro, caracterizado como o mais grave, por apresentar sintomas desde a vida intra-uterina, com o comprometimento do sistema respiratório e muscular. No meu caso, estou entre o nível 1 e 2, com uma progressão mais lenta.

Desde a infância faço acompanhamento com  fisioterapia motora e respiratória, o que proporciona mais qualidade de vida. Da infância até a adolescência, também nunca soube dessa expectativa de vida até os 18. Meus pais sempre me pouparam dessa informação, assim como o meu irmão que tem a mesma doença e hoje leva uma vida normal como eu.

Por isso, a deficiência nunca foi um obstáculo para ter uma vida normal. Minha mãe sempre me colocou em escola de ensino regular e fez questão que eu tivesse a mesma rotina dos meus colegas. Isso fez com que, ao longo da vida, entendesse que poderia fazer coisas que o restante do mundo fazia, entre elas, realizar o sonho de ser mãe.

Superei as expectativas, passei dos 18 anos, entrei na faculdade, passei em um concurso na Polícia Federal, encontrei um grande amor e casei.

Estamos juntos há 9 anos e de casamento são 7. Logo depois da nossa união, fui ao ginecologista saber mais sobre a gravidez na minha condição. A primeira profissional foi taxativa, disse que eu não poderia engravidar e sugeriu, ainda, que o meu marido fizesse a vasectomia.

Deixei o consultório desnorteada, depois de também ouvir da minha neuropediatra que eu deveria cuidar para não ficar grávida, devido a deficiência.

Família unida depois do nascimento de Alice. (Foto: Arquivo Pessoal)Família unida depois do nascimento de Alice. (Foto: Arquivo Pessoal)

 

 

Foram tantas negativas, que a gestação tornou-se um assunto proibido na família. As pessoas me cortavam a todo momento para que eu não falasse o que sentia. Por isso, durante seis anos de casamento, sufoquei o sonho da gravidez ao lado do meu marido.

Reviravolta - Há um ano, tudo mudou. Conheci outra ginecologista na cidade, que me encheu de esperança. Cheguei no consultório para falar sobre o uso do DIU, mas aproveitei para perguntar a opinião dela sobre a gravidez. A resposta foi sim, de que eu podia engravidar se tomasse todos os cuidados necessários.

Naquele dia sai do consultório surpresa e assustada com a posição dela. Passei dias com receio de engravidar, porque sabia que teria muita coisa para enfrentar pela frente. Por isso, decidi dentro de mim, que iria arriscar tudo para ser mãe.

Quando recebi o resultado positivo, foi aquela mistura de sentimentos, mas me senti realizada. Ali começou um nova etapa, cheia de esperança, mas também de um acompanhamento rigoroso com cinco especialistas para que eu tivesse uma gestação tranquila.

Fiz fisioterapia motora, hidroterapia diária, fisioterapia respiratória, tomei injeções para a circulação, fiz dieta a base de suplementos para não perder força muscular e proteína, além de um acompanhamento mensal com um cardiologista. Mas apesar da correria e rotina intensa de médicos, não tive contratempos durante os sete meses e meio que Alice esteve na minha barriga.

O mais difícil foi lidar com o comportamento das pessoas. Onde eu passavam elas me olhavam com cara de espanto. Muitos perguntaram porque eu havia engravidado e como iria cuidar de uma criança.

Nas lojas de roupas  infantis, eu não tinha acesso por falta de rampa e a cadeira de rodas não entrava, cheguei a comprar uma calça da calçada.

Alice veio ao mundo com 7 meses e meio de gravidez, porque tive um aumento do líquido aminótico que poderia romper a bolsa. Depois do parto, fui para o quarto e ela para UTI Neonatal porque nasceu com o sistema respiratório comprometido.

Duas semanas depois ela se recuperou e eu dei início, dentro de casa, a minha rotina como mãe. Hoje, tenho duas cuidadoras que me auxiliam com ela, mas sou eu quem faço questão de dar banho, fazê-la mamar e dar carinho a qualquer hora do dia.

Quando olho para Alice e me recordo de todos os olhares que recebi durante a gravidez, acredito que ela é um milagre. Cada dia mais me sinto privilegiada por ela estar com saúde, sorridente e feliz ao nosso lado. É fácil ser mãe cadeirante e enfrentar o olhar das pessoas toda vez que estou com ela? Não, não é fácil, mas a gente supera, cresce e criança ensina.

Depois de tudo que eu consegui, a única pergunta que tenho é: Quem vai ter coragem de falar que não posso tentar? Hoje sou uma mulher plena e realizada em viver tudo isso. Descobri na vida que é preciso tentar e fazer acontecer. Alice é o fruto disso.

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