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Campo Grande, Domingo, 26 de Maio de 2019

06/11/2018 07:38

Pernambucano que sobreviveu a 3 AVCs agora dá entrevista fazendo repente

Há 62 anos, ele trocou Pernambuco por Campo Grande, mas é só chegar em sua porta para perceber que um pedacinho do Nordeste ainda vive ali

Thailla Torres
Pernambucano chamou atenção no último de semana, pelo estilo diferente sentado na porta de casa. (Foto: Anny Malagollini)Pernambucano chamou atenção no último de semana, pelo estilo diferente sentado na porta de casa. (Foto: Anny Malagollini)

Bater palmas em uma portinha da Vila Margarida é como visitar um velho amigo. Em um boteco simples aparece Pedro Alves de Lima, de 84 anos. O homem que dá as caras com óculos diferentes é o pernambucano mais conhecido da vila, um sobrevivente a três Acidentes Vasculares Cerebrais nos últimos anos, mas com uma força para dominar a entrevista com seus versos e poesias.

Apesar da pressa para um compromisso, gentilmente, ele senta para uns minutos de conversa. Não demora muito para provar que um pedacinho do Nordeste ainda mora ali com a família. Desde que chegou a Campo Grande, em 1956, ele nunca abriu mão do repente, que por muitos anos serviu como único meio de comunicação em terras áridas, quando ninguém tinha condições de ter uma televisão, rádio ou revistas.

Enquanto a cantoria toma conta, Pedro e a esposa Maria Neci Rodrigues de Lima, de 80 anos, lembram-se do passado. Os dois casaram em 1954, mas antes disso a vida não era nada fácil na região de Serra Talhada, em Pernambuco, o berço de Lampião.

Pedro é repentista desde à infância. (Foto: Paulo Francis)Pedro é repentista desde à infância. (Foto: Paulo Francis)

Pedro aprendeu repente na infância ao ver pai cantarolar os versos. “Eu via aquela cantoria e achava muito bonita. Mas meu pai não ensinava, a gente tinha que saber”.

Inspirado, os primeiros versos saíram na infância. Já na adolescência, Pedro dava show na feira, como muitos repentistas, mas não ganhava pelo trabalho. “Eu ia cantar na feira, mas o pagamento era em cacho de banana. Saía de lá com a barriga cheia e sem um tostão no bolso”.

Mas não há dificuldade que apague o amor pelo repente. Pedro continuou fazendo poesia, em casa, no trabalho ou na roça. “Lá em Pernambuco é assim, o repente é a nossa alma.” explica.

Na juventude conseguiu arrendar uma terra pequena, plantou algodão, abóbora e arroz, mas levou um golpe que não imaginava. “Quando estava tudo plantado, o dono foi lá e tomou a terra de volta, ficamos sem o que a gente havia plantado”, narra com a simplicidade de quem não guarda rancores, mas admite não sentir saudade do Nordeste.

“Gosto muito daqui, porque em Campo Grande estão os meus tesouros, que são os meus filhos, meus netinhos, bisnetos. Aliás, já nasceu um tataraneto”, conta.

Pedro mora na Vila Margarida desde 1956. (Foto: Paulo Francis)Pedro mora na Vila Margarida desde 1956. (Foto: Paulo Francis)

Pedro trocou Pernambuco por Campo Grande há 62 anos, quando um dos irmãos foi buscar o restante da família que ficou no Nordeste. Chegou na Vila Margarida que ainda era uma fazenda e precisou cortar muita lenha para fazer a própria casa. “Eu cortei eucalipto nesse bairro para construir minha casa, ela ficava ali onde é o mercado hoje em dia”.

Depois disso passou a trabalhar como comerciante até construir outros imóveis no bairro. Ganhou a confiança dos vizinhos, fez e viu a Vila Margarida crescer como ninguém. “Esse bairro não era nada, mas a vizinhança sempre foi unida”, se orgulha.

Enquanto vendia, Pedro fazia cantoria à vontade. Mas a felicidade é nunca ter visto alguém torcer o nariz para a rima no improviso. “Eu vou fazer repente até meus últimos dias”.

E olha que a saúde andou dando susto em Pedro nos últimos anos. Em 2001 ele sofreu o primeiro AVC, mas se recuperou bem, para a alegria da família. Mas há dois anos, outros dois AVCs assustaram a esposa. “Ele ficou 29 dias internado. Eu fico até arrepiada de lembrar”.

Com ajuda da esposa, ele narra as memórias desde o tempo de Pernambuco.  (Foto: Paulo Francis)Com ajuda da esposa, ele narra as memórias desde o tempo de Pernambuco. (Foto: Paulo Francis)
Os dois estão casados desde 1954.  (Foto: Paulo Francis)Os dois estão casados desde 1954. (Foto: Paulo Francis)

Mais uma vez Pedro se recuperou e a poesia voltou ao lar. “Sou cabra forte. Ninguém aqui tem coragem de apertar a minha mão, de tanta força que eu tenho”, brinca.

Na porta de casa, muitos admiram o estilo. Quando não está de camisa e chapéu, Pedro está com cachecol no pescoço, mas que além de estilo, ele diz que é para a saúde. “Até no calor a gente deve proteger a garganta, sabia?”, ensina.

Os óculos com lentes diferentes são para proteger o lado esquerdo do rosto depois de um acidente. “Eu não tenho o olho esquerdo, estava no trabalho e um prego entrou no meu olho. Por isso protejo”, explica.

No pequeno comércio, na porta de casa, Pedro vende tubaína, doces e panelas de alumínio que dona Maria busca fora de Mato Grosso do Sul. Mas a felicidade é curtir os dias debaixo da árvore e, a quem quiser um pouco de poesia, fazer um repente que fala da vida.

Assista um pouco do repente feito por seu Pedro.

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Filha caçula, mãe, pai e filho mais velho. (Foto: Paulo Francis)Filha caçula, mãe, pai e filho mais velho. (Foto: Paulo Francis)


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