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Comportamento

Por opção, “Ceará” mora em mureta de loja e acredita que será milionário

Com 71 anos, seu Juarez, conhecido como "Ceará", mora em uma espécie de anexo de uma loja de gás na Vila Planalto

Por Lucas Mamédio | 14/09/2020 08:49
Seu Juarez mora há cinco anos debaixo de um compartimento de uma loja de gás (Foto: Marcos Maluf)
Seu Juarez mora há cinco anos debaixo de um compartimento de uma loja de gás (Foto: Marcos Maluf)

A gente não percebe, mas nossa vida é repleta de amarrações. Estamos presos a milhares de compromissos, a regras sociais, que às vezes nos deixam completamente asfixiados e sem saída.

Todo mundo, em algum momento, já pensou em sumir, em rasgar o RG e o CPF e deixar de “existir”. É quase um fetiche pensar em estar na terra sem que alguém possa te cobrar uma dívida, sem correr o risco de perder sua casa, porque na verdade você não tem. Mas poucos têm essa "coragem".

Juarez Antônio do Nascimento, ou apenas “Ceará” tem 71 anos e mora há mais de cinco anos debaixo de uma espécie de marquise ou mureta de uma loja de gás na Avenida América, em frente à Mesquita da Campo Grande. Segundo ele, por opção.

Antes das 6h seu Juarez já está de pé se arrumando (Foto: Marcos Maluf)
Antes das 6h seu Juarez já está de pé se arrumando (Foto: Marcos Maluf)

Ele habita o compartimento com o consentimento dos donos da loja que, junto de outros moradores, ajudam Juarez com comida e outras necessidades.

“Todo mundo aqui gosta dele. Ele é como se fosse um vizinho mesmo. É bem tranquilo, conversador, se dá bem com todo mundo e todo mundo se dá bem com ele”, diz uma funcionária da loja que não quis se identificar.

Tem que ser ligeiro para encontrar ele no local. Antes das 6h da manhã o ilustre inquilino já está de pé, arrumado e pronto para bater perna. Só volta depois das 18h. Nesse intervalo, seu Ceará anda pelos bairros próximos cativando geral.

Se Juarez conta que tem 82 resgistreo em sua carteira de trabalho (Foto: Marcos Maluf)
Se Juarez conta que tem 82 resgistreo em sua carteira de trabalho (Foto: Marcos Maluf)

Encontramos com ele por volta das 5h30. Suas coisas já estão dobradas, ele termina de colocar uma camisa, molha o cabelo com um pouco de água de uma garrafa e arruma com um pente desses antigos, que fica preso entre os dedos.

Desconfiado, demorou um pouco para nos dar papo, mas como parece ser de sua natureza, logo se soltou. “Eu vivo aqui muito tranquilo. Vou ficar me estressando com aluguel de casa ou indo nesses abrigos pra quê?”, explica.

Seu Juarez, como seu apelido nos dá uma pista, nasceu no Ceará. Foi embora do estado nordestino com 17 anos de idade. Desde então, ele que já é aposentado, perambulou pelo Brasil trabalhando principalmente em grandes construtoras.

 “Na minha carteira de trabalho eu tenho contribuição de 82 empresas. Só na construtora Camargo Corrêa, eu entrei e saí 15 vezes”, diz.

Juarez conta que ficava pouco tempo nas empresas porque nunca gostou de ter vínculos com nada nem ninguém. “Eu trabalhava alguns dias ou meses, pegava meu acerto e sumia no mundo”.

Ele escova os dentes na esquisa de onde mora (Foto: Marcos Maluf)
Ele escova os dentes na esquisa de onde mora (Foto: Marcos Maluf)

Seu Juarez diz que conheceu quase todos os estados do Brasil e que, incrivelmente, nunca mais voltou pro Ceará. Resolveu parar em Campo Grande por julgar ser uma cidade tranquila. “Eu sempre passava por aqui, pelo interior do estado também, depois que me aposentei, resolvi parar por aqui”.

“Parar” é realmente um modo de dizer, porque seu Juarez não para nunca. Viciado em loteria, acredita piamente que irá ficar milionário. “Eu jogo todo dia na loteria do mercado aqui perto. Quando tô sem dinheiro, ele faz o jogo pra mim e acerto no começo do mês”.

Outro hábito do cearense é a cervejinha. Ele é conhecido nos bares da Vila Planalto. “Vou em um bar, tomo uma cerveja, jogo conversa fora, depois vou em outro”.

Segundo Juarez, nunca ninguém mexeu em suas coisas (Foto: Marcos Maluf)
Segundo Juarez, nunca ninguém mexeu em suas coisas (Foto: Marcos Maluf)

Dos seis irmãos vivos, Juarez diz que conversa raramente com dois. Nesses anos todos de andança, ele afirma não ter tido filhos. “Se tive, não me falaram (risos).

O sol vai nascendo, seu Juarez escova os dentes em uma torneira próxima ao local onde dorme, na esquina. Ele volta, termina de guardar alguns utensílios. A conversa finda.

Com um tchauzinho tímido, se despede de nossa equipe e sai andando para ficar milionário, beber uma cervejinha e jogar conversa fora.

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