Loja que surgiu da amizade entre famílias há quase 55 anos, Lalai poderá voltar
Crise e o processo de liquidação não convenceram o filho de uma das fundadoras de que este seja o fim da marca

O jingle “lalá-lai, lalá-la-laaai” ainda deve estar na memória de quem viveu os anos 1990 e início dos anos 2000 em Campo Grande, foi a uma loja ou festejou algum evento no salão da antiga Lalai.
RESUMO
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A Lalai, tradicional confeitaria de Campo Grande que encerrou suas atividades em 2015, pode retornar em 2026. A loja, que completaria 55 anos em março deste ano, foi fundada por Mivia Tonisse Nasser e Zilá de Oliveira, trazendo a gastronomia mineira e paulista para a região. José Italo Nasser, filho de uma das fundadoras, planeja reativar a marca inicialmente através de uma parceria com o Bolo da Madá, negócio que mantém atualmente. O projeto inclui o retorno de receitas tradicionais, como a torta maravilhosa, e a abertura de uma loja física focada em alta confeitaria com porções individuais.
Ela começou na pequena Galeria Itamaraty, no Centro, e faria 55 anos em março deste ano. Teve atendimento em duas unidades ao mesmo tempo, além do espaço para festas. Fechou definitivamente em 2015.
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A nostalgia do que os doces e outros pratos da Lalai representaram em Campo Grande ainda toma conta de José Italo Nasser, 66, que assumiu a administração e adquiriu cotas do negócio em 1985. Tanto que ele pretende voltar com as receitas e a marca da loja. É um projeto para 2026.
Famílias sócias e amigas - “Eram duas mulheres trazendo para a cidade a gastronomia mineira e paulista, algo que não se via aqui. Você tinha a culinária árabe, dos paraguaios, dos indígenas, mas você não tinha de Minas e de São Paulo”, conta o ex-sócio.
As fundadoras são a mãe de José Italo, a paulista Mivia Tonisse Nasser, e a amiga dela, a mineira Zilá de Oliveira. Duas retirantes do Sudeste que vieram parar no antigo Mato Grosso. Fora as receitas que aprendeu em São Carlos (SP), a primeira trazia a cultura do chá da tarde, ritual obrigatório numa fazenda de ingleses onde morou.

Nos anos 1960, as duas começaram a fazer doces e salgadinhos para servir nos eventos da Associação Médica de Mato Grosso. Mivia era esposa de um médico que trabalhava com radiologia, o Elias Nasser Neto, e Zilá era a cunhada do então sócio dele numa clínica. A parceria para os eventos nasceu da amizade entre as famílias dos doutores. “Dois fogões velhos no fundo do quintal e uma batedeira. Foi assim que as duas começaram a atender o pessoal da Medicina”, lembra o filho.
O nome Lalai surgiu de uma brincadeira com o nome da amiga : Zilá virou Zilalai. As duas últimas sílabas do apelido têm uma pronúncia gostosa que as fundadoras escolheram para batizar a primeira loja montada na galeria, em 1971, na Rua 14 de Julho com a Avenida Afonso Pena.
Em 1972, a Lalai mudou-se para um prédio mais espaçoso na Avenida Mato Grosso, ao lado do antigo Colégio das Irmãs. Tinha um toldo listrado, grades de ferro ornamentadas e uma área externa com mesinhas para comer e conversar. As mulheres receberam ajuda dos médicos para mobiliar, decorar, receber clientes com mais conforto e colocar a mão na massa.
Coquetel até para a Seleção Brasileira - A Lalai virou um sucesso. Para alguns, o melhor lugar para comer um lanche na cidade. O preço era um pouco mais elevado em relação a outros lugares, mas a experiência valia a pena. As receitas com ingredientes diferentes, massa fofa e açúcar na medida certa haviam conquistado.
Em 1982, a loja mudou-se para a Rua Bahia, quase na esquina com a Avenida Mato Grosso. Três anos depois, José Italo voltou do Rio de Janeiro (RJ), onde formou-se em Administração, e chegou para ajudar Mívia e Zilá no negócio.
A primeira ideia que ele trouxe foi abrir um disque-pizza na Lalai, à noite. “Tinha em outros lugares, mas em Campo Grande não tinha. Só que elas [as fundadoras] não quiseram”, relata o filho da paulista.
Após adquirir cotas na empresa, ele se tornou um dos administradores e resolveu ampliar as operações, oferecendo almoço, pratos sob encomenda e dividindo a loja em ilhas. “Virou um dos poucos lugares que oferecia uma culinária premium em Campo Grande”, relembra o ex-sócio.
Mas o auge da Lalai veio mesmo quando a empresa abriu o salão de eventos na Avenida Afonso Pena, nos anos 1990. Chegou a ter 100 funcionários contratados diretamente e mais dezenas indiretamente para atender durante as locações. Também deslocava equipamentos, mesas, cadeiras e pessoal para atender eventos, chegando a ser escolhida até para um coquetel preparado para a Seleção Brasileira após um jogo no Estádio Morenão.
“O buffet era fantástico em termos de gastronomia. Atendíamos todo tipo de evento, desde aniversário de criança, casamento, corporativos. Tinha manobrista para guardar os carros, algo que você nem via em Campo Grande, e comidas em ilha: filé, salmão, atum, tudo em frios, bacalhau e grelhados, também passando nas mesas como se fosse um rodízio. E era barato. O quilo era R$ 60 no mercado ou R$ 50 e poucos. Na Lalai, o consumo individual era R$ 35”, descreve José.
Uma segunda loja foi aberta no Shopping Campo Grande. Servia almoço, lanche e jantar. Aquela época consolidou a Lalai na Capital.
O fim - “A Lalai foi embora por causa dos impostos”, resume o ex-sócio. Segundo ele, os problemas fiscais vinham desde que as fundadoras administravam o negócio. A proporção das dívidas só aumentou depois que o salão de festas foi aberto e a empresa arriscou investimentos mais altos.
Banir a espera de clientes nas lojas também foi uma escolha errada, ele acredita. Defende que não incomodavam, pelo contrário, funcionavam como atrativo. “Faliu também por incompetência, porque eu quis tirar a fila. Isso fez diminuir em 50% o movimento no primeiro ano, depois, 25%. Só que a qualidade dos produtos era a mesma e a gente continuava inovando. Como uma empresa sobrevive assim?”, pergunta.

José perdeu todos os imóveis que tinha em seu nome após a liquidação, exceto a casa onde morava. Admite que quebrou "total". Hoje, afirma que não tem mais dívidas e que tudo foi resolvido. Zilá adoeceu e voltou para Minas Gerais e Mívia ainda mora na Capital e está com 94 anos.
Nova empresa com ex-contratadas - Após o fim da empresa, José Italo entrou numa sociedade com a ex-babá da filha, Maria Madalena Nogueira, 62, para vender bolos, brownies e outros doces de autoria da sócia em portas de escolas. A parceria ganhou o nome de Bolo da Madá.
Uma ex-cozinheira da Lalai, Matia Aparecida dos Santos Barbosa, 56, foi chamada para ser funcionária do novo negócio e ajudar Madalena na produção, que hoje é toda feita na cozinha da casa onde José Italo mora com a esposa.
O negócio é pequeno em comparação ao que a Lalai foi, mas dá sustento às famílias envolvidas há cerca de 10 anos e acumula elogios às delícias vendidas.
Plano de retorno - O ex-sócio da Lalai vai reativar a marca, primeiro unindo-a com a Bolo da Madá. “Queremos fazer Bolo da Madá by Lalai”, falou à reportagem.
As mesmas receitas que Zilá e Mivia faziam nos primeiros fogões da loja estão guardadas em meio a antigas planilhas e também ficaram na cabeça de Matia. Ela afirma se lembrar de todas, "de cor".
A ideia é começar pelos bolos. Como o comportamento da clientela mudou nos últimos anos, eles serão servidos em potes. Um relançamento será a torta maravilhosa, uma adaptação do famoso Marta Rocha que leva ovos adocicados. Outro leva passas-ao-rum e é feito "como ninguém sabe fazer", diz José Italo.

Mais adiante, o sócio do Bolo da Madá e herdeiro da marca Lalai quer voltar a ter loja física e oferecer uma alta confeitaria em pequenas porções. É um sonho. "Para mostrar que existe algo de qualidade na cidade e que nós sabemos fazer", justifica.
Reativar a Lalai e sentir o sabor do sucesso de novo é quase uma obsessão do filho de uma das fundadoras. "Tudo no fim dá certo. Se não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim. Por isso que eu continuo. Não é possível não ter dado certo", conclui.
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