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Comportamento

Por que é tão difícil aceitar a saideira e voltar para casa às 20h?

Clientes de bares não estão lidando muito bem com o fato de terem que ir embora ás 20h por conta do toque de recolher

Por Thailla Torres e Lucas Mamédio | 11/07/2020 07:10
10 minutos pras 20h e todo mundo indo embora no Bar Mercearia (Foto: Marcus Maluf)
10 minutos pras 20h e todo mundo indo embora no Bar Mercearia (Foto: Marcus Maluf)

Quando a bebida toma conta parece difícil não tomar uma, duas, três, cinco saideiras. A rotina que poderia render mais uma daquelas histórias embriagantes de uma noitada qualquer agora não cabe mais. Isso porque nesta semana foi decretado um novo toque de recolher e os estabelecimentos de Campo Grande precisam fechar as portas pontualmente às 20h. O problema é: quem aceita tomar a saideira neste horário?

E não venha dizer que todo mundo respeita porque isso não é verdade. Há meses autoridades policiais e guardas civis têm batido ponto em estabelecimentos que seguem lotados e clientes que se recusam a deixar a diversão, mesmo com as medidas de prevenção adotadas para evitar o aumento do contágio do novo coronavírus na Capital.

O que tem gratinado a paciência de muita gente nesta semana é o horário reduzido, principalmente numa cidade que não sabe aproveitar o happy hour. Então quem só sabe chegar no barzinho depois das 19h, não consegue começar o assunto que logo o garçom vem oferecendo a saideira. Com o decreto, não é nem questão de oferecer, mas de obedecer a regras.

Sandro acha "ridículo" ter que or embora às 20h (Foto: Marcus Maluf)
Sandro acha "ridículo" ter que or embora às 20h (Foto: Marcus Maluf)

Para os donos de estabelecimentos o difícil mesmo é convencer o cliente de ir embora para a casa, no entanto, algumas estratégias têm sido colocadas em práticas para dizer tchau sem nenhuma discussão. Outra vantagem é que nesse horário o teor de embriaguez é baixo, por isso, muita gente tem pedido a saideira sem pestanejar.

Nos altos da Avenida Afonso Pena, o empresário Rafael Santana, encerra a cozinha 30 minutos antes do limite do decreto e passa de mesa em mesa oferecendo a saideira. Ele garante que não adianta insistir. “Temos que respeitar. Mas se o cliente permanece na mesa a gente reforça o comunicado sobre o fechamento”, explica.

Por enquanto ele diz que a clientela tem sido cordial com o fechamento mais cedo, só o horário que não tem colaborado para que o cliente chegue ao estabelecimento. “Eu concordo com as medidas, mas o horário dificulta a rotina de pessoas que só podem ter acesso a esse tipo de entretenimento à noite. Não há tempo hábil para chegar até aqui”, pontua.

Ademir acha que não deve haver imposição (Foto: Marcus Maluf)
Ademir acha que não deve haver imposição (Foto: Marcus Maluf)

Na tentativa de relaxar, o advogado Sandro Tamioso, que estava justamente no Bar Hook, nos altos da Avenida Afonso Pena, não concorda em encerrar a diversão às 20h00.

“É ridículo. Os estabelecimentos que seguem as regras, como esse, não podem pagar por outros que não seguem. As pessoas têm que ter o bom senso de escolherem aonde ir”, disse Sandro, que estava tomando a última bebida antes de ir embora.

O capitão da Polícia Militar, Valdir Junior, também estava no Hook, mas com a esposa, Daniele de Oliveira. Ele diz que é totalmente contra o decreto que impõe o toque de recolher às 20h00.

“Eu estaria saindo de casa agora. Na verdade sou a favor do isolamento vertical. Cada um precisa se responsabilizar pelo risco que corre. Se tem alguém que tem alguma comorbidade ou está no grupo de risco, que fique em casa, mas não e a prefeitura que tem que impor isso”.

Já o empresário Admir Vida de Almeida Júnior, que estava na saidera, acha que o toque às 20h pode não surtir efeito, caso não haja colaboração. “Não dá pra impor pras pessoas voltarem pra  casa, tinha que ser da consciência de cada um”.

Salão do Hook, nos altos da Afonso Pena, completamente vazio na sexta à noite (Foto: Marcus Maluf)
Salão do Hook, nos altos da Afonso Pena, completamente vazio na sexta à noite (Foto: Marcus Maluf)

Na esquina das ruas Padre João Crippa e 15 de Novembro, no bar Mercearia, se tiver aglomeração nos próximos dias, é de gente à espera do motorista de Uber. O bar que já chegou a passar 23 dias fechados na fase dos primeiros decretos da pandemia, demonstra estar tranquilo, e com o toque de recolher às 20h, 19h30 a casa está encerrando as atividades.

Proprietário do bar, João Marcelo Cunha, avalia que a clientela tem noção do que está acontecendo. "Está tranquilo para a gente, as pessoas estão respeitando. Meia hora antes a gente já passa a saideira, já diz que é a última se o cliente quiser pedir, se não já emite e deixa a nota para pagar", explica João.

Paulo sai do trabalho às 18h30 e alega que nem tem tempo pra beber tanto (Foto: Marcus Maluf)
Paulo sai do trabalho às 18h30 e alega que nem tem tempo pra beber tanto (Foto: Marcus Maluf)

O estabelecimento tem trabalhado com o limite máximo entre 15 e 20 mesas, o que representa 30% da capacidade. "O pessoal chega de máscara, e quando senta, tira, as pessoas estão respeitando e entendendo o espaço. Na hora de fechar, já vamos desligando o som, baixando as portas, desligando a TV, o cliente já repara e vai saindo", descreve. "Às 20h estamos com a porta abaixada, o que demora mais são as pessoas ali, aguardando Uber", garante.

É o caso eletrotécnico Paulo Alves que já estava indo embora faltando cinco minutos para ás 20h. Ele reclama do horário. “Eu saio do serviço às 18h30, trabalho no sol quente todos os dias e agora, parece, não posso nem tomar uma cervejinha no bar. Mas tenho que seguir as regras, por isso estou indo embora”.

Sidbey Fadel, empresário, que pagava a conta exatamente às 20h00 não se incomoda com o toque de recolher. “Infelizmente é uma media necessária agora, que concordo sim”.

Já de saída, Sidney concorda com o toque e paga saidera tranquilamente (Foto: Marcus Maluf)
Já de saída, Sidney concorda com o toque e paga saidera tranquilamente (Foto: Marcus Maluf)

Mas para alguns estabelecimentos, nem o jeitinho manso de fechar as portas para dizer tchau às 20h convenceu o dono de abrir nos próximos dias. Depois do decreto, o Velfarre optou por fechar as portas e dar férias coletivas até o dia 20 de julho.

“Ficou inviável abrir, uma vez que para fechar exatamente às 20h a gente precisa encerrar a cozinha e começar a servir a saideira às 19h. É muito pouco tempo para nós permanecermos abertos, além disso estávamos trabalhando com somente 40% da ocupação”, explica o sócio-proprietário Heriko Hata.

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