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Comportamento

Por que parar com a obsessão por estar ocupado e reaprender o tédio

Conseguir aproveitar o ócio por alguns minutos pode ser remédio para desacelerar da rotina

Por Natália Olliver | 18/01/2026 07:49
Por que parar com a obsessão por estar ocupado e reaprender o tédio
Tédio não é inimigo e especialista ensina a transformar momentos em alívio (Foto: Inteligência artificial)

Sabe aquele incômodo ou inquietação que aparece quando a vida finalmente deixa você não fazer nada? Apesar de muitos saberem o que é o tédio, poucos de fato convivem com ele. E pior, acreditam que uma vida longe do sentimento é uma vida melhor e mais produtiva. Para te mostrar que você não precisa lotar seu dia de coisas a cada minuto só para não sentir o “vazio” de não fazer nada, o Lado B trouxe a psicóloga Cristiane Lang. Mas já adiantamos: o assunto é fácil de “escutar”.

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O tédio, frequentemente visto como algo negativo, pode ser na verdade benéfico para a saúde mental e criatividade, segundo a psicóloga Cristiane Lang. A especialista destaca que é nos momentos de aparente ociosidade que a mente processa experiências, desenvolve novas ideias e estabelece conexões mais profundas nos relacionamentos. A adaptação ao tédio requer um processo gradual de duas a quatro semanas, começando com pequenos períodos sem estímulos externos como celular, televisão ou música. Com o tempo, esses momentos de pausa tornam-se não apenas toleráveis, mas necessários, transformando o que antes era percebido como vazio em um espaço de desenvolvimento pessoal e intimidade.

É preciso reaprender a sentir o tédio. No meio de tanta correria e pressão para todos os lados, é difícil quem não encara o tédio como um “jogar o tempo no lixo”. Aqui é que a cabeça faz um nó, porque a expressão “matar o tédio” é, na verdade, prejudicial. De acordo com Cristiane, isso acontece porque é justamente nele que a melhora acontece, que a criatividade surge e a mente desacelera.

Agora fica a questão: você consegue aproveitar o tédio? Parece até uma pergunta simples, mas, para muitas pessoas, qualquer tempo livre sem afazeres vira problema. É preciso ser sincero, o tédio incomoda mesmo. Ela explica que pode dar ansiedade, vontade de pegar o celular, ligar a TV, inventar uma tarefa qualquer, mas que, depois de cutucar, ele acolhe.

“O tédio não é ausência, é território. A gente desaprendeu a viver o tédio. Não apenas a suportar, mas a reconhecer como parte essencial da vida e, especialmente, dos relacionamentos. Hoje, qualquer espaço vazio vira incômodo. Qualquer silêncio e intervalo precisa ser ocupado, mesmo sem necessidade. Como se ficar sem fazer nada fosse sinal de desleixo, desinteresse ou falta de amor”.

Ela pontua que, nos relacionamentos, a dificuldade de viver o tédio aparece quando não conseguimos simplesmente estar. Estar juntos sem planos, sem telas, sem conversas performáticas, sem a obrigação de transformar cada encontro em algo memorável.

Por que parar com a obsessão por estar ocupado e reaprender o tédio
No meio de tanta correria, você consegue aproveitar o tédio? (Foto: Inteligência artificial)

“É no ‘não fazer nada’ que o vínculo se revela. Quem não tolera o tédio costuma confundir presença com estímulo constante, e isso cansa. É justamente nesses tempos vazios que a gente se entende melhor. Quando não estamos ocupados demais, o que foi sentido encontra espaço para ser processado. O corpo desacelera. O tédio cria um ritmo mais humano”.

E se engana quem acha que o tédio não faz diferença. Cristiane explica que a criatividade, não só artística, melhora muito. Mas não só ela. A criatividade emocional também, que é a condição de enxergar novas formas de conversar, de demonstrar afeto, de resolver conflitos.

“Quando tudo é preenchido, não sobra espaço para criar nada novo. A repetição automática substitui a escolha consciente. Muita gente ocupa cada parte do dia não porque precisa, mas porque não sabe ficar consigo mesma ou com o outro sem distrações. Outras vezes, não é nem excesso de tarefas, mas falta de organização emocional. Ela enche todo o tempo para não lidar com algo que evita”.

E como voltar a viver o tédio?

Em primeiro lugar, é preciso reaprender a pausa, se forçar a não fazer nada por alguns minutos, ficar sem nenhum estímulo, seja música, televisão, livro ou celular. Depois, aumentar o tempo e estipular um horário para fazer isso no dia.

“Se acostumar com o tédio não acontece de forma imediata, porque fomos treinados por anos a evitar isso. O caminho começa pequeno. O tédio deixa de ser um vazio ameaçador e passa a ser um espaço habitável. Não existe um prazo exato, mas a adaptação costuma acontecer em semanas, não em dias. Para quem vive em constante ocupação, pode levar de duas a quatro semanas para que o ‘não fazer nada’ comece a gerar calma em vez de angústia”.

Com a prática, períodos mais longos se tornam possíveis e até desejáveis. O que antes parecia insuportável passa a ser necessário. Nos relacionamentos, esse treino é ainda mais delicado. Ficar em silêncio juntos, dividir o tempo sem fazer nada, respeitar o ritmo do outro exige confiança.

“Quando o tédio deixa de ser evitado, ele vira intimidade. É um sinal de que não é preciso performar o tempo todo para sustentar a conexão. É aceitar que nem tudo precisa ser preenchido para ter valor. E, aos poucos, perceber que aquilo que parecia vazio era, na verdade, espaço”.