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Comportamento

Recusa em salão levou barbeiro a cortar cabelo de graça na praça

Ronal Paolo encontrou no cuidado com quem vive nas ruas uma forma de retribuir as oportunidades

Por Amanda Santos | 15/07/2026 07:55
Recusa em salão levou barbeiro a cortar cabelo de graça na praça
Ronal Paolo, babeiro que atende quem precisa na Praça Ary Coelho (Foto: Amanda Santos)

Quem passa pela Praça Ary Coelho pode até estranhar a cena. Em um dos bancos, uma máquina de cortar cabelo, um espelho e um barbeiro concentrado transformam um pedaço da praça em um salão improvisado para oferecer cortes gratuitos a moradores de rua. Naquela manhã, uma imagem enviada por uma leitora registrou a movimentação de diversos atendimentos antes da chegada da reportagem. Quando a equipe chegou, restavam apenas o barbeiro e um homem aguardando sua vez.

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Ronal Paolo, venezuelano radicado em Campo Grande há três semanas, atende moradores de rua gratuitamente na Praça Ary Coelho, oferecendo cortes de cabelo e barba. Regularizado no Brasil após passagem pelo Chile, ele trabalha em um salão e dedica seu tempo livre a ajudar quem não tem acesso a cuidados básicos. Para Ronal, a ação é motivada pela fé e empatia. Leonardo Pereira, morador de rua há cinco anos, foi um dos atendidos e destacou a raridade do gesto.

Por trás da iniciativa está o venezuelano Ronal Paolo. Há três semanas em Campo Grande, ele ainda tenta recomeçar a própria vida no Brasil, mas já encontrou um jeito de fazer diferença na dos outros.

Recusa em salão levou barbeiro a cortar cabelo de graça na praça
Registro feito por uma leitora na manhã desta terça-feira mostra que diversos moradores passaram pelo local antes da chegada da reportagem. (Foto: Direto das Ruas)
Recusa em salão levou barbeiro a cortar cabelo de graça na praça
Equipamentos que usa para corte. (Foto: Amanda Santos)

Ronal veio da Venezuela em busca de oportunidades e da chance de regularizar a situação migratória. Antes disso, trabalhou como barbeiro no Chile, onde conseguiu comprar as máquinas que hoje usa tanto no salão onde trabalha ali perto quanto na praça.

Foi ali, entre um corte e outro, que decidiu oferecer o serviço gratuitamente aos moradores de rua. Para ele, sucesso não tem relação apenas com dinheiro. "Porque eu penso que se você tem dinheiro e não está feliz, tem algo que não te faz bem. Eu quero a felicidade e o dinheiro sempre vai estar onde está a felicidade, e eu sou muito feliz cortando cabelo!"

A decisão de atender pessoas em situação de rua veio de uma lembrança. Ele diz que enquanto trabalhava no salão, um homem entrou pedindo um corte de cabelo sem pagar. Disse que era dependente e enfrentava dificuldades. O pedido foi recusado. A cena ficou na cabeça de Ronal.

"Quando os moradores chegam no salão, é porque é Deus disfarçado, te dando uma prova. Obviamente, é melhor trabalhar a nível profissional em um salão, certo? Mas... Às vezes, não sei, quando não estou fazendo algo bom para Deus, me sinto entediado, sabe? Não sinto nenhuma emoção."

Ele diz que a vontade de ajudar também nasceu das dificuldades que enfrentou ao longo da vida.

"Eu aprendi a sentir empatia pelos moradores. Muitos deles não têm habilidades para ganhar dinheiro, e muitos deles não conseguem trabalho, ou muitos deles estão em problemas de droga e coisas assim. Uma coisa leva à outra, mas o certo é que quando há amor na família, ou há um amigo de verdade, eu acho que tudo melhora. Eu sou assim graças às dificuldades que a vida me deu, sabe? Eu aprendi a não pagar com a mesma moeda, entende? Porque eu sei como atua Deus."

Enquanto constrói uma nova vida em Campo Grande, Ronal também tenta diminuir a distância da família, que permaneceu na Venezuela. Todo o dinheiro que consegue é enviado aos pais, mas o maior sonho é conseguir trazê-los para o Brasil.

"Existe muita tensão, muito medo, muita tristeza lá. Mas eu sempre me comunico com minha mãe, com meu pai, com meus irmãos. Somos muito unidos, sabe? Eu gostaria que eles viessem mais à frente, quando estivessem mais estabilizados, mais concretos."

Entre os atendidos está Leonardo Pereira, de 31 anos. Depois de 60 dias sem cortar o cabelo, ele voltou a se olhar no espelho com outra expressão.

"Faz muito bem no visual da gente. A autoestima vai lá em cima. É a primeira vez que vejo alguém fazendo isso, é um aprendizado, né? Hoje em dia é difícil ver pessoas assim, fazendo boas ações."

Há cinco anos vivendo nas ruas, Leonardo diz que nunca tinha visto alguém oferecer um gesto parecido. Agora, espera que a atitude inspire outras pessoas. Ele preferiu não falar sobre sua história nem sobre as circunstâncias que o levaram a morar na rua.

Já os cortes na praça não têm dia nem horário definidos. Ronal aproveita os intervalos na rotina do salão para voltar ao local e atender quem aparece.

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