ACOMPANHE-NOS    
JANEIRO, TERÇA  19    CAMPO GRANDE 25º

Comportamento

Relato de Priscila mostra que é possível parto humanizado pelo SUS

Samuel nasceu de 40 semanas, medindo 50 cm e com 4.280kg; deu o 1º "berro" às 14h, quatro horas depois da mãe dar entrada no HU

Por Paula Maciulevicius Brasil | 01/11/2020 10:11
Priscila, mãe de Samuel, minutos depois do parto. (Foto: Arquivo Pessoal)
Priscila, mãe de Samuel, minutos depois do parto. (Foto: Arquivo Pessoal)

A foto mostra como Priscila se viu na última segunda-feira (26): guerreira depois de trazer Samuel ao mundo, de parto normal, com 40 semanas de gestação, sem anestesia e tudo pelo SUS. Quando a foto chegou ao Lado B na semana em que a discussão foi em torno do projeto de lei que dá o direito de cesariana sem indicação médica pelo SUS, o Mãe também reclama quis ouvir o relato de parto de Priscila. Designer de sobrancelhas, Priscila Beraldo Rodrigues conta o que viveu do início ao fim da gestação.

Sim, ela pensou em cesárea e chega a dizer que se tivesse como pagar por ela, teria feito a cirurgia marcada. Com pré-natal realizado certinho e sem nenhuma intercorrência, a mãe de Samuel leu, estudou, pesquisou e no fim escolheu ter o parto normal no Hospital Universitário. Aliás, se ela tiver mais filhos, serão todos de parto normal.

A fala dela na íntegra foi transcrita aqui para que cada leitor possa tirar suas próprias conclusões. Lembrando que o Conselho Federal de Medicina já permite a paciente escolher pela cesariana em trabalho de parto, desde que bem informada sobre a via de parto.

Priscila não dispunha de plano de saúde e fez todo o pré-natal pelo SUS. "Eu achei que ter um parto pelo SUS fosse horrível, porém elas foram tão atenciosas comigo, eu tive um parto humanizado e meninas para me dar força e motivação", diz sobre a equipe que lhe atendeu no hospital.

Quanto à foto, Priscila explica que quis fazer a pose para "mostrar que somos guerreiras para ter parto normal, eu eu posso, que nosso corpo trabalha para conseguir isso, somos fortes o suficiente para parir nossos bebês. Parto normal é a conexão entre mãe e filho, você até esquece da dor depois de ver a obra prima de Deus".

Confira abaixo o relato de Priscila:

Priscila junto da mãe Lucineia que esteve com ela durante todo o trabalho de parto. (Foto: Arquivo Pessoal)
Priscila junto da mãe Lucineia que esteve com ela durante todo o trabalho de parto. (Foto: Arquivo Pessoal)

"No começo, pelo histórico da minha irmã que teve duas cesáreas, eu vi o tanto que ela sofreu no pós-parto, no cuidado para pegar o bebê. Por tudo isso, eu quis o normal e pensei, seja como Deus quiser, da melhor forma que for para mim e para ele. Nós estando bem, com saúde, é o que importa. Eu estava preparada para os dois: tanto cesárea como parto normal.

Com o passar do tempo, fui vendo e chegando no finalzinho, eu vi a minha barriga enorme, pesada e na minha mente eu queria que acontecesse logo, queria que chegasse a semana certa dele sair, eu fui ficando angustiada e querendo cesárea. Como eu dependia do SUS para fazer, teria que ver as condições do bebê e da mãe para aí fazer cesárea.

Mas meu pensamento foi mudando, quando fui chegando nas 39 semanas e cinco dias, fui ao hospital, porque eu estava tão ansiosa que fui colocando na minha cabeça que ele ia sair, então já sentia algumas dores, tive um sangramento e fui para o hospital. Mas meu colo estava grosso, eu estava com 2,5 centímetros de dilatação, o mesmo que eu estava desde as 37 semanas. Eu fazia agachamento e todos os tipos de exercício que pedem para ter o parto normal e isso foi me acelerando.

No sábado, dia 24, fui para o HU com uma dor na pelve, meu tampão já tinha saído, cheguei e estava com 3 centímetros de dilatação. Meu colo estava amadurecendo, mas a médica falou que não era a hora ainda. Fiquei na observação de um dia para o outro. No dia seguinte, já tinha andado o hospital inteiro, feito bola, agachamento, tudo para tentar o normal, aí pensei: poxa vida, eu estou vindo aqui todos os dias e nada desse bebê sair, e se acabarem fazendo cesárea em mim? No domingo de manhã, a médica me liberou dizendo que se eu ficasse ansiosa, nervosa ali, não ia conseguir dilatar, que era melhor eu ficar em casa, descansando com a minha família, porque ele estava quase vindo".

Samuel nasceu com 40 semanas, pesando 4.280kg e medindo 50 cm. (Foto: Arquivo Pessoal)
Samuel nasceu com 40 semanas, pesando 4.280kg e medindo 50 cm. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Fui para casa, cheguei exausta. Minha mãe fez chá de camomila para eu me acalmar e me ajudou muito ficar em casa do que ficar no hospital e todo mundo perguntar: 'já nasceu? Já nasceu? Minha cabeça estava a mil'.

Quando foi de madrugada, eu tinha tomado outro chazinho e comecei a sentir dor, às 5h da manhã, fui tomar um banho e começaram a vir umas dores de contração. Meus pais foram trabalhar e nisso eu pensei, pra ajudar, vou ficar ativa e limpar a casa. Limpei a casa, vim para varanda, arrumei tudo e fui tomar um banho.

No que eu entrei no banho, começaram a dores, aí eu não consegui sentar, deitar, minha irmã me trouxe mais chá de camomila e ligou para a minha mãe dizendo que eu estava em trabalho de parto mesmo.

Isso foi na segunda-feira, cheguei no hospital às 10h da manhã e já fui sendo atendida. Eu só pensava, só falta eu não estar dilatando. Deitei na maca e a médica falou que eu estava com 7 centímetros de dilatação. Eu com dor já perguntei: 'não tem como fazer cesárea?' No final, a gente vai desgastando, quer desistir, mas não desiste!

Cheguei na sala e vinha uma contração atrás da outra, a minha mãe estava o tempo todo me ajudando, fazendo massagem e eu angustiada, com sono, cansada e querendo desistir. As meninas foram super atenciosas, colocaram música, me estimularam a tentar dançar, a fazer agachamento e isso me ajudou muito.

Por mais que eu não queria, cada dor eu fazia uma força para baixo. As meninas diziam que eu ia conseguir, que eu estava com 9 centímetros e meu bebê já estava quase chegando e eu apavoradíssima, mas entregando tudo nas mãos de Deus".

Assim que nasceu, bebê já veio para o colo da mãe e mamou (Foto: Arquivo Pessoal)
Assim que nasceu, bebê já veio para o colo da mãe e mamou (Foto: Arquivo Pessoal)

"Eu escolhi a forma que eu quis parir, que foi no chão, forraram para mim e a doutora foi muito atenciosa, fiquei com dó de machucar ela de tanta força que eu fazia, ela colocou um lençol em volta dela para eu puxar durante as forças e me deu conselho de fazer o grito. Eu não queria gritar, porque quando eu ia no hospital e ouvia mulheres gritando eu ficava apavorada, mas eu gritei.

Quando eu vi, ela falou que a cabecinha dele tinha saído e era só esperar a próxima contração para sair o corpinho. Eu dizia que não ia conseguir, mas as meninas falavam que eu ia conseguir sim, e seguravam a minha mão.

Eu perdi força para Deus e ele veio. Na hora dói, mas depois é maravilhoso. Você consegue pegar seu bebezinho, ele já veio no meu colo, para o meu peito. Foi muito lindo e emocionante.

Todo o tempo eu tive quem me motivou, as meninas com calma, respeitosas, super educadas. Eu até pensava que elas poderiam me chutar de lá de tanto trabalho que eu estava dando (risos).

Eu ainda não acredito que eu consegui, quando eu peguei ele no colo, veio tanto amor e ao mesmo tempo medo dele não gostar do meu colo. Mas como eu amei, como eu amei ele".


Samuel nasceu de 40 semanas, medindo 50 cm e pesando 4.280kg. Nasceu às 14h, quatro horas depois da mãe dar entrada no Hospital Universitário.

"Eu pesquisei muito, entrava no aplicativo para registrar as semanas, ia para o bate-papo e lia o que cada mãezinha falava. Eu ficava apreensiva, então recomendo pesquisar para saber o que vai acontecer com você, mas não ir tão profundo nem se comparar com outras mães, se não a ansiedade sobe", aconselha.

Sobre os comentários, Priscila ouviu que com "aquela barriga enorme" ou "o bebê está muito grande" teria de ser cesárea... "Esses comentários, colocava medo na minha cabeça, a gente tem que fugir destes comentários. Precisa se distanciar e acreditar que você consegue", resume.

Quer mostrar também o seu relato de parto para o Mãe também reclama? Envie para o e-mail: paulamaciulevicius@gmail.com.

Nos siga no Google Notícias
Regras de comentário