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Campo Grande, Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018

03/06/2018 08:58

Repressão ao rolê que saiu da periferia é preconceito diz turma do rap e do funk

São grupos bem diferentes, mas que dizem enfrentar a mesma perseguição na hora de realizar eventos em Campo Grande

Thaís Pimenta
Na Orla Ferroviária, batalha usa uma caixa de som pequena e um microfone. (foto: Arquivo Cg News)Na Orla Ferroviária, batalha usa uma caixa de som pequena e um microfone. (foto: Arquivo Cg News)

O prisão do professor e integrante do grupo de teatro Imaginário Maracangalha, Renderson Valentim, na quarta-feira passada,  reabriu a discussão sobre a repressão contra movimentos culturais fortalecidos na periferia de Campo Grande e que começam a ganhar a região central da cidade. É marcar um evento de rap , batalha de poesias ou baile de funk que polícia, Guarda Municipal ou Semadur (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano) também aparecem no rolê.

Os organizadores desse tipo de evento têm uma avaliação comum sobre o que tem ocorrido. Como é complicado "mexer" com baladas de bairro chiques da cidade ou casas noturnas frequentadas e administradas por pessoas influentes, normalmente turbinadas por muita bebida ao som do sertanejo universitário, mais fácil é focar na galera que organiza tudo de forma espontânea, na base da colaboração.

O Slam Campão, uma competição de poesias que acontece na rua, afirma sofrer perseguição desde a primeira edição. De acordo com um dos organizadores do movimento de batalha de poesias, Thales Henrique, a polícia age de forma ''ignorante'' sempre que  ocupam espaços públicos.  ''Dia 28 de abril, era 4º edição, a Guarda Municipal colou na Praça do Rádio antes mesmo de começar a competição do Slam, pedindo a 'Autorização' da Sectur (Secretaria Municipal de Cultura e Turismo) pra usar o espaço público. Porém, há algumas edições atrás a Guarda não quis assinar nosso ofício, nos impedindo de conseguir essa autorização do espaço, exigida pela Sectur'', diz.

O movimento contesta exigências em relação a ocupação dos espaços, porque os encontros tem um perfil espontâneo, sem cobrança de ingressos ou organização mais elaborada. A garotada chega e vai rimando, como qualquer grupo que para em uma praça para conversar.

''Durante essa presença deles houve um debate sobre a utilização do espaço público com argumentos da lei etc, os policiais estavam sendo ignorantes com a gente, a ponto de um dos poetas recitar uma poesia no meio da confusão e um dos policiais dizer que iria prender o poeta por desacato, simplesmente por recitar uma poesia em público, tudo isso na terra de Manoel de Barros'', comenta Thales.

Teylor Fuchs, sociólogo, professor e especialista em Educação em Direitos Humanos, esteve presente com seus filhos neste dia, e um dia depois movimentou as redes sociais com o artigo ''Na terra de Manoel de Barros, jovens precisam de 'alvará' para recitar poesia'', publicado no Campo Grande News.

No texto, ele relatou como muitos pessoas naquela praça se sentiram ameaçadas pela forma como a Guarda Municipal agiu.

''Após discussão, alguns bate-bocas e a retirada voluntária da vendedora ambulante, que é apoiadora do movimento e aproveita para gerar uma renda para sua família, o evento começou. Nesse momento muitas pessoas já haviam ido embora, a maioria temerosa pela opressiva repreensão feita pela Guarda Municipal. As 40 ou 50 pessoas que sobraram sentaram em círculo no gramado, e, enfim o espetáculo começou'', diz ele no texto.

Na semana seguinte, a resposta à represália foi a presença dos poetas em intervenções nos terminais da cidade, mas também frustrada. ''Começamos na Orla Ferroviária, tivemos que ir pra Praça do Rádio Clube, na Praça Aquidauana e em todos fomos convidados a nos retirar''.

Edição do Slam Campão na Praça do Rádio Clube,. (Foto: Caravaca Fotos)Edição do Slam Campão na Praça do Rádio Clube,. (Foto: Caravaca Fotos)

De acordo com Fernando Cruz, diretor do Teatro Imaginário Maracangalha, o que tem acontecido é realmente uma perseguição a esses grupos por serem de uma moçada mais jovem e periférica. ''Eles não têm voz política e social como nós, que sabemos argumentar contra essas exigências. Foi o que aconteceu na Batalha de Rap de quarta, eles chegam armados e a galera dispersa por medo''.

Ainda de acordo com Fernando, essas autorizações não são necessárias porque o evento na rua não tem caráter lucrativo e, muito menos, estrutura para isso. ''Não temos palco, por exemplo, no caso da Maracangalha. Esse pessoal aqui não estava vendendo bebida ou lucrando com ninguém, a movimentação é aberta a todos''.

No mundo do funk, um dos empresários das casas que recebem a esses rolês, que preferiu não se identificar, disse que é comum que um dia depois da festa acontecer, a Semadur bata na porta do espaço exigindo todas as documentações. Mas ele explica que a burocracia e o alto valor dos alvarás faz com que os organizadores pulem de casa em casa pra conseguir realizar as festas em bairros onde normalmente não há nenhuma alternativa de diversão. 

''Um alvará, só um, custa cerca de R$ 20 mil. A social movimenta menos dinheiro que isso então como que vai pagar pra manter a casa? Não tem como. O funk rola dentro das casas noturnas aqui na cidade e por mais que sejam públicos distintos do pessoal do rap, a perseguição acontece também, só que no nosso caso a polícia dificilmente chega, são mais os orgãos municipais mesmo'', completa ele.

Desacreditado de que isso possa um dia mudar, ele acha que a movimentação vai continuar acontecendo independente do lugar. ''Já conversamos com Sectur, Semadur, tivemos audiências públicas e eles não querem acordo''.

O Lado B tentou contato com a Guarda Municipal e com a Secretaria Municipal De Segurança, porém, alegando escala por conta do recesso de feriado, eles não responderam.

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