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Comportamento

“Réus confessos”: o que pensam os ex-racheiros de Campo Grande

Sem negar passado de "pegas" – coisa que não se arrependem – hoje em dia garantem não fazer mais e até julgam quem continua

Por Raul Delvizio | 19/02/2021 07:51
Três "ex-racheiros" confessaram o crime e contaram sobre o passado com o "pezinho" no acelerador (Foto: Kísie Ainoã)
Três "ex-racheiros" confessaram o crime e contaram sobre o passado com o "pezinho" no acelerador (Foto: Kísie Ainoã)

Para um grupo de apaixonados por carros e alta velocidade, fazer racha nas ruas de Campo Grande agora é passado. É o que eles juram. "Réus confessos", eles não negam que bastava um sinal fechado e o motor "provocante" a roncar no carro do adversário ao lado para que o rolê ilegal tomasse conta do asfalto. Mal dava o sinal verde, a adrenalina já estava a mil e o velocímetro preparado a agir: meta era costurar o trânsito madrugada adentro em quase 200 km/h. Só um era o vencedor. Até se pode pensar que tudo isso é loucura – e realmente é – mas para eles se tratava de uma brincadeira viciante, onde suas vidas e a de outros faziam parte do "jogo".

"Já presenciei diversas vezes carro cruzando a Afonso Pena até o Camelódromo, sem parar em nenhuma esquina ou cruzamento, fazendo 'roleta russa'. Eu mesmo já desci a Mato Grosso um milhão de vezes furando tudo que era sinal, mas também pra nunca mais". É o que assegura Matheus Dávalos Simas Rosa, auxiliar jurídico e estudante de Direito de 22 anos.

Cursando Direito, Matheus tem 22 anos (Foto: Kísie Ainoã)
Cursando Direito, Matheus tem 22 anos (Foto: Kísie Ainoã)

Ele não tem vergonha de assumir ser um "ex-racheiro", um ex-praticante dos chamados "pegas", como são popularmente conhecidas as corridas ilícitas praticadas tanto em áreas urbanas, rurais ou em rodovias por automóveis e motocicletas. Conforme o Código de Trânsito Brasileiro estabelece (art. 308), participar de racha configura crime com 6 meses a 3 anos de detenção, além de multa, suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo. No caso da atividade resultar em morte, porém, a pena é de reclusão de 5 a 10 anos.

Matheus diz que aprendeu a dirigir com 15 pra 16 anos apenas observando seu pai. No início, tirava o carro da garagem e colocava de volta, até o dia que pegou escondido e deu uma volta sozinho no bairro. "Passei um sufoco porque precisava abastecer e estava morrendo de medo do carro apagar", relembra. Mas os tempos de racha só vieram quando tirou oficialmente a CNH.

Até hoje, encontros acontecem nos altos da Afonso Pena (Foto: Arquivo Pessoal)
Até hoje, encontros acontecem nos altos da Afonso Pena (Foto: Arquivo Pessoal)

"Os rolês sempre foram na Afonso Pena. Passava a noite toda lá nos estacionamentos fumando narguilé e vendo os outros carros acelerarem. Até que eu mesmo comecei a acelerar. Eu nunca cheguei a participar de algum grupo específico, mas já ganhei multa e até de disputa de corrida por emulação", afirma.

Dos episódios, Matheus confessa já quase ter atropelado uma capivara, não uma vez, mas duas. "O dia mais marcante foi quando presenciei um conhecido meu arrancar em alta velocidade na Afonso Pena e do nada um outro carro saiu do estacionamento ali nas proximidades do Aquário. Por muito pouco não rolou um acidente pesado, porque os dois ficaram praticamente um de frente pro outro. Para se ter ideia, até uma das rodas traseiras do meu amigo chegou a levantar quando desviou".

Matheus contou que fez e presenciou muita coisa errada nas ruas (Foto: Kísie Ainoã)
Matheus contou que fez e presenciou muita coisa errada nas ruas (Foto: Kísie Ainoã)

Para Matheus, loucuras que hoje o deixam aflito. Porém, por mais que os tempos de racha façam parte apenas do seu passado, o gostinho da adrenalina continua no sangue. "Hoje vejo que tive vários 'livramentos' de alguma coisa pior acontecer comigo ou com outro alguém. Não vou ser hipócrita em falar que não era legal, porque era muito legal, sim. A adrenalina que você vive é absurda, quase inexplicável. Você sentir o motor e ter controle do carro em alta velocidade é ao mesmo tempo ousado e prazeroso. Ouso dizer que é a mesma sensação que uma droga traria", esclarece.

Ainda que a "turma do acelerador" seja composta na maioria de jovens que usam os carros do pais, com idade inferior a 30, Matheus explica que tem muito "marmanjo" nas ruas fazendo a mesma coisa. Inclusive, advogados, engenheiros, políticos, empresários de sucesso e até "pais de família" também configuram a galera do racha. "Nem todo mundo se conhece pelo nome, mas pelo carro com certeza. É fácil reconhecer, até mesmo durante o dia. A gente sabe quem é do esquema", revela.

Nem todo mundo ali é "ex-racheiro", mas Matheus garante: "com certeza bem mais da maioria" (Foto: Kísie Ainoã)
Nem todo mundo ali é "ex-racheiro", mas Matheus garante: "com certeza bem mais da maioria" (Foto: Kísie Ainoã)

Uso indiscriminado de álcool, música ligada no máximo e até consumo de drogas era "natural" acontecer rolês afora – como até hoje continua com alguns grupos que abusam da sorte nos rachas e da falta de fiscalização. Motivos de sobra que fizeram repensar sua postura.

Mesmo caso do amigo Douglas Terra Veiga, 21 anos. "Tiveram vezes que senti a mão de Deus me salvando, bem na hora de ultrapassagens apertadas e em alta velocidade, onde você não tem muito tempo pra ficar medindo se dá ou não, se cabe ou não cabe. A gente só vai. E quem freia perde", ressalta.

"Vi muito carro levantando a carroceria e tirando 'fino' do meio fio. Nunca me envolvi em acidente algum, e olha que eu já arrisquei bastante. Tinha vezes que descia do carro com a perna falhando, a mão gelada, suando frio", recorda.

Douglas estuda Administração e tem 21 anos (Foto: Kísie Ainoã)
Douglas estuda Administração e tem 21 anos (Foto: Kísie Ainoã)

Mãe de Douglas desconfiou do filho ao ponto de colocar um detetive no seu pé. "Descobriu que eu acelerava e fazia drift. Isso sem falar de um carro anterior, com mais de 20 anos, que estragou na minha mão, quando deu uma escapada em alta velocidade. Na hora percebi que o motor pulou, vi o capo balançar e a direção ficar dura. Quase perdi o motor nessa brincadeira".

Sem se arrepender do que costumavam fazer, o rapaz pelo menos recomenda que não sigam o exemplo do seu passado. "É muito arriscado pra você, pros outros e pra quem te ama. Carro é uma arma, e assim como tem estande de tiro, tem autódromo pra você dar uma 'brincada' em segurança. Mas não, não me arrependo porque acredito que há coisas que fazem parte da nossa história. Sou o que sou por conta do que passei, e quem sabe se não tivesse passado, não estaria aqui hoje podendo falar sobre e dar uma conscientizada nas pessoas", opina.

Mulheres no comando – Quem pensa que é só coisa de "clube do Bolinha" está muito enganado. Namorada de Douglas, Camila Vasconcelos Mendonça, estudante de 18 anos, também era do rolê. Mesmo sem carteira, ela às vezes dava uma zoada de carro e, assim como os outros dois rapazes, também presenciou muita coisa errada – inclusive o que ela mesmo fazia.

Com apenas 18 anos, Camila nem tinha CNH antes de entrar para a vida de "racheira" (Foto: Kísie Ainoã)
Com apenas 18 anos, Camila nem tinha CNH antes de entrar para a vida de "racheira" (Foto: Kísie Ainoã)

"Estar dentro do carro passava uma sensação de estar vivendo intensamente. O coração acelerado, principalmente na hora de competir, era o maior 'gatilho'. Quando falo em disputa, ver qual carro tomava 'benga' e qual corria mais. Mas agora aprendemos a admirar o carro sem esse descuido ou ilegalidade, correndo somente em autódromo e indo nos encontros para apreciar a beleza automotiva", explica.

Camila só foi parar na atividade por causa de Douglas, quando os dois ainda eram "ficantes". "Confesso que logo que comecei a frequentar o grupo fiquei meio intimidada, ainda mais por ser mulher e ter o primeiro impacto da divisão de gêneros, mas com o tempo fui me sentindo acolhida. Os meninos gostam realmente de falar sobre carro, de maneira muito empolgada, então comecei a me interessar sobre".

Entre o cheiro de pneu queimado e o ronco dos motores, é onde os três se sentem à vontade (Foto: Kísie Ainoã)
Entre o cheiro de pneu queimado e o ronco dos motores, é onde os três se sentem à vontade (Foto: Kísie Ainoã)

Assim com ela, o namorado Douglas, Matheus e mais uma galera, praticamente todos ali são "ex-racheiros". Sem esquecer do passado mas praticando uma nova mentalidade, agora eles formaram um grupo que ainda curte carros, fazendo os "rolêzinhos" de sempre e ainda se "amarrando" em velocidade, mas sem a necessidade de se entregar nos "pegas" ilegais de outrora.

Patrulha legal – Marca de pneu, barulho de carros sem escapamento e cheiro de motor com alta "cavalaria" (potência) permanece, mas agora tudo isso tem nome e até regras: na turma do Midnight Meet 67, não pode acelerar, fazer "pega", ingerir álcool e dirigir. "Caso contrário, advertência na certa, e até o membro pode ser retirado do grupo", explica Matheus.

No grupo formado, prática dos "pegas" é proibida (Foto: Midnight Meet 67)
No grupo formado, prática dos "pegas" é proibida (Foto: Midnight Meet 67)
São pouco mais de 20 participantes, se reuninando sempre às quinta-feiras, a partir das 19h30 no estacionamento do Parque das Nações, quase em frente do Aquário (Foto: Midnight Meet 67)
São pouco mais de 20 participantes, se reuninando sempre às quinta-feiras, a partir das 19h30 no estacionamento do Parque das Nações, quase em frente do Aquário (Foto: Midnight Meet 67)

Ele e outros 3 amigos – incluindo Douglas – foram os criadores do que a princípio só seria um perfil na rede social. Com o tempo e a necessidade de socializar como o de costume, juntaram o útil ao agradável de reunir amigos para falar sobre carros, conhecer outras pessoas, trocar experiências e principalmente não praticar rachas.

"Surgiu também para aquela gurizada que não tinha grupo algum e fazia só besteira. Já chegamos a promover encontros com mais de 100 carros no estacionamento ali do Parques das Nações, em frente ao Aquário, com diversas marcas, modelos e estilos. Digo que todo carro é bem-vindo, mas só aquele 'piloto' que tem consciência que não dá mais pra brincar como costumávamos fazer", diz.

Antes nas ruas, agora no autódromo: "lugar certo para a gente correr" (Foto: Midnight Meet 67)
Antes nas ruas, agora no autódromo: "lugar certo para a gente correr" (Foto: Midnight Meet 67)

Além de ser uma página on-line de entretenimento automotivo com pouco mais de 10 mil seguidores, a participação de eventos automotivos na cidade – pelo menos antes da pandemia de covid-19 – era assídua. "Já marcamos treinos de arrancada no autódromo, uma das coisas que promovemos para tirar a gurizada da rua e colocar pra correr no lugar certo". Por enquanto, os encontros tem acontecido no estacionamento do Parque das Nações, em frente ao Aquário, toda quinta-feira a partir das 19h30.

Confira no vídeo abaixo a turma do Midnight praticando velocidade:

Para Douglas, esquema que vale a pena aderir. "Eu mesmo ando com um carro de 265 cavalos, sei o quanto é chamativo, mas as consequências vão muito além daquele prazer momentâneo do racha. Carro você compra, arruma e vende, mas a vida é uma só. Além de que fazer 'pega' é crime, ok? Digo sempre: melhor perder um segundo da vida, mas não a vida em um segundo", finaliza.

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