Sem a farda, Ramão investiu no alho argentino na calçada de casa
Produtos caipiras como queijo, ovos e mandioca também são procurados, mas nada comparado ao tempero
Há 35 anos no mesmo terreno, a casa do guarda municipal aposentado Ramão Barros Cordeiro, de 73 anos, virou ponto de encontro no Bairro Planalto. É ali, na calçada, que ele abriu uma banquinha para vender de queijo caipira a alho argentino. Inclusive, este é o carro-chefe do lugar.
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Depois de mais de 20 anos de profissão, fazendo o que amava, ele precisou descobrir como ocupar o tempo que agora sobrava e ainda ganhar renda extra para ajudar na aposentadoria. Ramão foi mexendo no lugar ao longo dos anos. Segundo ele, tudo começou com um trailer no quintal, depois ele quebrou o muro para mostrar a banca e há dois anos substituiu o veículo por uma construção de alvenaria.
O trabalho ali começa cedo, às 7h Ramão abre a banca e só fecha às 18h. Entre uma venda e outra, o que mais circula não é só mercadoria da roça, mas conversa, memória e afeto. Tem dia em que aparecem cadeiras, café passado na hora e gente que chega mais para prosear do que para comprar.
“Pessoal procura muito as coisas que vêm da fazenda. Os queijos, ovo caipira. Vendo mandioca da roça também, melado, rapadura direto de Furnas do Dionísio. Vem de chácara também. Dou muito valor porque o pessoal precisa vender.” Ele explica que a maior procura é pelo alho, pois ele não é pequeno como os do mercado e é pré-selecionado.
“Sai muito alho aqui. Porque esse alho é o argentino, ele é maior. Faço pacotinho de 5 cabeças de alho e vendo por R$ 14. As senhoras gostam desse alho por ser grande”.
Já a rapadura sai a R$ 16, goiabada cascão de um quilo por R$ 27, melado a R$ 25 o litro. E, além dos doces que atravessam gerações, como bala de canela, paçoca, bananinha, doce de leite, mocotó, balinhas, ele também vende refrigerante.
Morador antigo, ele é presidente do bairro há 15 anos e conhece o Planalto como quem conhece o próprio quintal. A ideia de vender sem sair de casa veio quando um senhor que comercializava alho na esquina precisou se mudar para longe.
“O pessoal sentiu falta. Aí comecei com banquinha. Eu trabalhava de noite antes”.
Nascido na região de Carapó, a vida começou na Fazenda Capanari, entre Caarapó e Amambai.
Foi lá que estudou até o quarto ano, trabalhou no armazém e mexeu com erva-mate, tereré e chimarrão, dividindo a rotina com paraguaios, bolivianos e argentinos.
Ramão guarda até hoje retratos daquela época e também um desenho que pintaram dele quando atuava como segurança na escola municipal do bairro.
“Saí de lá com 30 anos, trabalhava em um armazém lá também. A venda tá no sangue. Casei lá, minha filha nasceu lá e agora tenho dois netos gêmeos. Cheguei aqui, comprei o terreno e construí. Me sinto feliz com a vida porque vim da fazenda, lá do jeito que a gente era não tinha nada”.
O estudo que parou na 4ª série foi retomado mais tarde. Ramão conta que fez o segundo ano do ensino médio só aos 40 anos, para entrar no concurso de guarda. “O pessoal vem aqui para conversar, eu coloco umas cadeiras na calçada e faço café”.





