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Campo Grande, Domingo, 23 de Setembro de 2018

12/02/2017 07:25

Também sou um dragão, sendo eu apenas um jornalista ou um dependente químico

Richie Beauvais
Também sou um dragão, sendo eu apenas um jornalista ou um dependente químico

Sempre acreditei que o Jornalismo não é sobre escrever, mas a arte de saber algumas coisas sobre quase tudo e quase tudo sobre algumas coisas.

Ainda que tenha como ofício o narrar, a maior parte do tempo eu o faço em minha cabeça mais que no “papel”. Eu não sou um “Escritor” com “E”, ao menos não por real ocupação. Sou um jornalista por formação e um jornaleiro por concordância (com o saudoso Alexandre Imparato). Acima de tudo, sou um contador de histórias, nem que sejam elas contadas por e para mim mesmo.

Antes de me internar na C.T. na qual passei meu “período sabático em busca do autoconhecimento”, eu passei por uma desintoxicação em outra instituição. Foram quinze dias na ala psiquiátrica de um hospital público estadual. Talvez tenha sido um exagero, mas sempre vivi deles.

Basicamente a desintoxicação consistia em dormir muito, mais de 14 horas por dia induzido por remédios. Comer muito, seis vezes ao dia, o que não me acostumei e talvez nunca me acostume. Por fim, assistir canais abertos de TV quando conseguia manter-me fora da cama, de olhos abertos e sem estar mastigando algo.

Não consegui permanecer naquela situação por muito tempo. Eu haveria desistido não fosse por duas coisas: não tinha nada melhor a fazer, uma vez que estava disposto a passar por tal “período sabático”, e segundo porque consegui papel e lápis para escrever. Escrevi muito o que passei a chamar de “meu livro”, mais de 190 folhas de A4. Um thriller histórico/policial sobre coisas que eu achava que sabia até aquele momento.

Descobri, depois, saber menos do que preciso para continuar o livro e que seria preciso reescrevê-lo. Ces’t La vie. Descobri também que mais importante que escrever “meu livro” era entrar de verdade em “meu período sabático”. Mas também houve tempo para ler, de maneira mais ou menos assídua e compenetrada.

O “meu livro” há de vir, não o abandonei. Mesmo porque sua “história”permanece a me assombrar há 10 anos. “E apenas quando eu relatava a minha história livre dela me via. Sempre aquela agonia - e sempre em hora incerta retorna desde então; E enquanto a minha história tétrica não conto, queima-me o coração”, escreve Coleridge em “The Rime of Ancient Mariner”. A citação ao poema de 1978 de Samuel Taylor Coleridge está no livro metatextual e intertextual de Margaret Atwood, “Negociando Com Os Mortos”.

Em sua introdução intitulada “Penetrando o labirinto”, a escritora canadense fez um grimoire (em Francês, ou grimório em Português) de diversos escritores, bem como de personagens de escritores sobre o ato de ser escritor, “embora estes, por vezes, apareçam disfarçados nas obras de ficção de pintores ou compositores ou outros artistas”.

“Comecei a compilar uma lista de respostas (...) extraídas de afirmações de escritores – recolhidas de fontes duvidosas, como entrevistas a jornais e autobiografias, mas também gravadas ao vivo em conversas de fundo de livraria (...) foram também extraídas de palavras de escritores ficcionais – todas naturalmente expressas por escritores”, afirma Margaret . Ela reuniu respostas para as perguntas“Por que você escreve?” e “De onde vem esse impulso?”.

O “Escritor” com “E” tenta “registrar o mundo como ele é. Gravar o passado antes que o esqueçam. Desenterrar o passado porque caiu no esquecimento. Produzir ordem a partir do caos. Servir o Inconsciente Coletivo. Retribuir um pouco do que me foi dado”. Identifiquei-me nestas.
“Perguntei especificamente a romancistas o que sentiam quando penetravam um romance. Um respondeu (...) que era como estar em um quarto totalmente escuro, ateando: precisava rearrumar a mobília no escuro e quando estivesse tudo em ordem, a luz reacenderia”.

Esta resposta me trouxe de volta a realidade vivenciada em meu “período sabático”. O tratamento tem por objetivo “arrumar a bagunça de nossos passados”. Um passo, de doze, pede que se faça um “profundo e destemido inventário moral de nós mesmos” e o seguinte que se admita “a Deus, a nós mesmos e a outro ser humano a natureza exata de nossas falhas”.

Escrever sobre o outro é fácil para mim, mas escrever sobre a natureza exata das minhas falhas era algo completamente novo e desafiador.

Completei estes dois trabalhos hercúleos. Mas “meu livro”, que é um fantasma em suspensão, meu inventário pessoal e sua leitura/admissão, o livro de Atwood, os artigos que escrevia (e que agora estão paulatinamente sendo publicados), tudo isso me deu um estalo!

É que sobreveio um misto de medo, ansiedade e expectativa – coisas que aprendi não serem boas em separado, quiçá juntas. “Quando retornar a vida lá fora, ainda serei encarado como alguém capaz de realizar o que sei fazer com eficiência ou apenas como um dependente químico?”, questionei-me.

Em dado momento de seu livro sobre “ser escritora”, Margaret fala sobre sua infância em uma família pouco ortodoxa para a época e de seu sentimento de não pertencimento a este pequeno grupo – que mais tarde ela mesma percebe ser um sentimento de não pertencimento ao todo, talvez uma característica de quem seja tresloucado e dado ao ofício da escrita.

“Levei muito tempo para descobrir que a mais nova em uma família de dragões continua a ser um dragão do ponto de vista daqueles que se assustam com dragões”, entende. Então também entendi: também sou um dragão, sendo eu apenas um jornalista ou um dependente.

Mais à frente no livro, Atwood faz a pergunta que me motivou a escrever este texto: “será o escritor alguém especial, [...] e se assim for, em que sentido?”. O capítulo termina aí, sem resposta.

Será o dragão um ser tão especial, e se assim for, em que sentido?

* Richie Beauvais - ou “Ritch Bové” como costuma ser chamado após tentar corrigir a pronúncia do seu sobrenome – é um pseudônimo ou um alterego (!). Tem 30 anos, é jornalista, pai e após “um período sabático de autoconhecimento” em uma Comunidade Terapêutica para tratamento de sua dependência química decidiu escrever sobre o assunto. É “viciado” em música, revistas em quadrinhos, séries, filmes e Carnaval. Escreve semanalmente na coluna “Fim de Carreira” sobre dependência química e assuntos correlatos (ou não).

 



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