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Campo Grande, Sábado, 21 de Setembro de 2019

25/08/2019 07:15

Viúva de artesão famoso pelos carros de boi, Cida agora recebe até turistas

Na casa simples, do bairro Santa Fé, dona Cida preserva a história de João Manoel da Silva, o João Artesão

Thailla Torres
Viúva de artesão famoso pelos carros de boi, Cida agora recebe até turistas
Dona aparecida é esposa de João Artesão, que partiu em 2017. (Foto: Thailla Torres)Dona aparecida é esposa de João Artesão, que partiu em 2017. (Foto: Thailla Torres)

Na casa simples, do bairro Santa Fé, os carros de boi, organizados em uma prateleira, são vestígios da história João Manoel da Silva. Também há tucano e obelisco originais, que são preservadas como relíquias e símbolo de um artesão alagoano que mais parecia sul-mato-grossense.

Outros carrinhos de boi estão etiquetados, depois que a esposa deu conta de resgatar tudo o que João deixou guardado em um quartinho da casa. “Com ajuda de um sobrinho e netos, consegui retirar do quarto peças originais feitas por ele. Mas muita coisa não pode ser vendida, são relíquias”, conta a esposa de João, Aparecida Pereira da Silva, de 71 anos.

Carros de boi deixados por ele. (Foto: Thailla Torres)Carros de boi deixados por ele. (Foto: Thailla Torres)
João no quintal de casa. (Foto: Arquivo Pessoal)João no quintal de casa. (Foto: Arquivo Pessoal)

Com voz mansa e doce, ela diz que conseguiu vender boa parte do acervo para admiradores do marido. Mas é a história dele que continua chamando atenção, dois anos após a morte. “Eu já perdi as contas de quantas pessoas recebi aqui. Amigos, vizinhos, jornalistas, estudantes e até turistas. Só esse ano já tive dois grupos de turistas na minha casa”, conta.

As pessoas chegam de mansinho, curiosas pela casa que não tem vaidades. “É tudo muito simples, às vezes está meio bagunçada, mas eu recebo com tanto carinho”.

João morreu em 25 de novembro de 2017, após quatro paradas cardíacas. À época, muitos amigos visitaram a casa emocionados. Hoje, ainda perguntam sobre o que levou o artesão alegre tão de repente. “Hoje eu consigo falar sem chorar tanto. Muita gente não sabe, mas João ficou doente de depressão depois que nossa única filha morreu”.

Sete meses antes da partida do artesão, o casal perdeu a filha, de 44 anos. “Ela jantou conosco, assistiu novela e morreu dormindo. Não acreditávamos em tudo aquilo. Ele ficou muito triste”.

Obelisco feito por João. (Foto: Thailla Torres)Obelisco feito por João. (Foto: Thailla Torres)

A garra que havia em casa vinha tudo dele. João costumava dizer que o ser humano não devia se entregar, independente dos desafios. Mas a dor de perder um filho mais alto e o coração não conseguiu suportar a ausência. “Eu ainda lembro das frases dele para ninguém se entregar, principalmente porque tenho minha neta, que é jovem, e preciso dar apoio a ela”.

A saudade do marido é aliviada com a arte. “Sempre que eu olho as relíquias que ele deixou, parece que ele está bem pertinho. Sabe, às vezes, sinto como se ele estivesse sorrindo aqui ao meu lado”.

Por isso, ela não vende tudo o que tem. “Guardo essas relíquias para ter ele por perto. Esse carrinho de boi aqui, foi o primeiro que ele fez pra mim, há muito tempo”.

Aparecida e João viveram 50 anos juntos. Conheceram-se na fazenda, casaram depois de oito meses de namoro e em 1965 chegaram em Campo Grande. Mesmo ano em que ele comprou o terreno onde construiu a casa e todos os carros de boi. Foram anos de amizade com o serrote de madeira, o esquadro, martela, grosa e facão. Qualquer madeira nas mãos dele virava peça, decoração e até natureza.

A história de João foi contada em 2014 pelo Lado B, que marcou ao dizer: “Se eu sou feliz? Uai. E quem não é? Só a pessoa viver já é uma felicidade. Eu adoro Mato Grosso, Nossa Senhora, parece que eu nasci aqui. Parece que eu estou no céu. Todo mundo que vem aqui, gosta. Sabe por quê? É bom demais”.

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Simpática, dona Cida não cansa de receber amigos e admiradores de João. (Foto: Thailla Torres)Simpática, dona Cida não cansa de receber amigos e admiradores de João. (Foto: Thailla Torres)
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