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Campo Grande, Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017

03/12/2016 07:06

Estilistas criam coleção especial para quem tem algum tipo de deficiência física

Thailla Torres
Moda inclusiva busca incentivar a indústria da moda a olhar para o público com deficiência. (Foto: Lohana Holsbach) Moda inclusiva busca incentivar a indústria da moda a olhar para o público com deficiência. (Foto: Lohana Holsbach)

Comprar uma roupa confortável, sem a necessidade de ajuste, ou toda vez ter que escolher um modelo infantil de sapato são só algumas situações que pessoas com deficiência física acabam enfrentando. Mas um desfile em Campo Grande pretende mostrar que é possível produzir uma coleção que atenda a essas necessidades. O conceito é de "moda inclusiva", para ir além da modinha consumista convencional.

A ideia do desfile é despertar em estilistas e no mercado da moda o olhar para peças que contribuam com a autonomia de pessoas que dependem, por exemplo, da cadeira de rodas. A proposta foi da jornalista Ana Paula Cardoso, que é cadeirante por conta de um acidente de trânsito em 2009.

Para realizar o evento, tem o apoio da AMDEF (Associação de Mulheres com Deficiência de Campo Grande). A presidente da entidade, Mirella Ballatore, lembra que o projeto é novo, mas avalia que é um avanço. “Não existe moda para a pessoa com deficiência aqui e eu nunca vi. A gente compra as roupas normais e a única solução é adaptar, o que nem sempre é confortável. Então a ideia é conscientizar esse universo da moda”, explica.

Jardineira infantil foi pensada para vestir a criança sem tirá-la da cadeira de rodas.  (Foto: Antônio Arguello)Jardineira infantil foi pensada para vestir a criança sem tirá-la da cadeira de rodas. (Foto: Antônio Arguello)

Mirella tem a Síndrome dos Ossos de Cristal e é cadeirante. Ela já perdeu as contas de quantas vezes precisou ajustar uma peça de roupa. “A gente acaba adaptando para vestir. Tira um fecho, coloca um zíper, insere um velcro ou no fim acaba cortando parte da roupa”, comenta.

Sem falar do sapato, uma das maiores dificuldades. “Só uso sapato infantil. Quem tem uma deficiência e precisa de um sapato menor, tem que se contentar com as estampas infantis porque não acha nada adequado. As vezes, manda fazer, mas nem sempre fica a mesma coisa. É preciso entender que também somos consumidores, queremos nos vestir bem e pagamos os mesmos impostos”, reclama.

Quem abraçou a ideia e confeccionou 12 peças que serão reveladas só no desfile deste sábado foram os alunos do curso de Moda da Uniderp. A coordenadora Carolina Debus explica que o desafio dos jovens estilistas foi criar roupas que facilitem as atividades no dia a dia. “A ideia é facilitar na hora de vestir, dar conforto, não incomodar e até ajudar o deficiente na hora de ir ao banheiro”, explica.

Entre os modelos, foram produzidas, por exemplos, peças para caldeirantes e deficientes visuais. “É um vestido com um zíper que facilita a retirada, uma jardineira com abertura entre as pernas para ajudar na colocação e também peças com detalhes em braile para que a o cego identifique a roupa com mais facilidade. Tudo é para dar a liberdade de escolher o que vestir e se sentir bem”.

Foram criadas duas saias, uma mais curta e outra longa, com a função de cobrir a prótese. Foram criadas duas saias, uma mais curta e outra longa, com a função de cobrir a prótese.

A moda inclusiva é feita em detalhes. A jardineira infantil tem a parte inferior ligada à parte de cima, com botões de pressão no cós. Então, ela pode ser usada apenas como saia. A modelagem em corte godê facilita vestir, pode ser colocada por cima, enquanto a criança está sentada na cadeira de rodas. "Usualmente, o mercado disponibiliza jardineiras com saias retas e inteiras, sem a opção de remoção da parte superior", detalha a coordenadora.

Outra peça foi criada para quem usa prótese. São duas saias, uma mais curta e outra longa, usada em cima da outra com a função de cobrir a prótese. "A saia longa tem medidas assimétricas para acompanhar a anatomia do corpo, mas isso não é perceptível. O conjunto garante versatilidade e suas peças podem ser usadas de maneira separada", explica. 

Já com o macacão, o desafio dos acadêmicos era produzir uma peça em que a modelo conseguisse vestir sozinho. Por isso, foi confeccionada peça sem mangas e ganhou um decote profundo nas costas. Na foto não dá pra ver, mas com o movimento do corpo, a modelo consegue tirar sozinha.

Macacão feito de maneira que ela conseguisse vestir sozinha.e suas peças podem ser usadas de maneira sMacacão feito de maneira que ela conseguisse vestir sozinha.e suas peças podem ser usadas de maneira s

O processo desde a teoria até a produção começou há seis meses, dentro da disciplina ergonomia e design. Os alunos tiveram contato com 12 modelos com deficiência, que pontuaram as necessidades.

“Na indústria da moda, se trabalha uma modelagem industrial com as opções que todo mundo já conhece e isso dificulta muito a acessibilidade. Então, é importante voltar a produção para esse público também. Em um dos encontros, os alunos tiveram contato com a realidade e o direito de se vestir bem. Teve modelo que chegou a contar que há anos não utilizava uma saia”, conta.

Depois da confecção, o grupo preparou um editorial lembrando o colorido marcante da pintora mexicana Frida Kahlo. As fotografias farão parte de um calendário para 2017.

Algumas fotos não foram divulgadas para fazer surpresa no Concurso e Desfile de Moda Inclusiva, que acontece hoje no Shopping Bosque dos Ipês, às 19h30. Os projetos serão detalhados e avaliados por jurados da área da moda e envolvidos na defesa dos direitos femininos.

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